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Festivais

50ª Mostra de SP (2026) – London

Associação de diversidades queer e PCD em filme tocante

Por Ivonete Pinto | 28.10.2026 (quarta-feira)

A medicina é algo violento e é vista, por ela mesma,  como cuidado. A frase, mais ou menos literal, é dita pelo protagonista London, que dá nome ao filme, um rapaz PCD. É, de certa maneira, uma síntese como ele é tratado, como vê o mundo e explica também sua recusa em fazer mais exames que equivalem a uma tortura.  A recusa lembra a atitude de Jean-Claude Bernardet ao renunciar à quimioterapia para tratar de um câncer (ver o livro O corpo crítico, de 2021). 

Guardadas as devidas diferenças e proporções, entende-se que o personagem de London está cansado. Nasceu com uma doença e passou a vida às voltas com a medicina. A medicina, conforme Bernardet, faz parte de uma indústria capitalista, que não tem interesse na cura, apenas no tratamento.

Indo além, London recusa-se a ter sua identidade resumida à doença física. Ele é jovem, vive o mundo queer com intensidade (faz sexo como dominador em performances num clube de fetiches e em encontros por aplicativos), tem humor  e uma mãe acolhedora. Só que esta mãe passa a ser uma fonte de conflito ao insistir que ele faça determinado exame a fim de descobrir a origem da doença e assim ajudar a irmã, que já manifesta alguma deficiência.

“London” articula as experiências PCD e queer para questionar os limites impostos às identidades e recusar a redução de uma pessoa à sua condição física ou sexual.

A produção levou oito anos do projeto inicial até chegar aos festivais, tendo passado pela enchente que paralisou tudo no Rio Grande do Sul em 2024.  A carreira de London, que tem roteiro e direção do casal  Victor Di Marco e Márcio Picoli,  mal começou e já conquistou o prêmio Queer Lion no Festival de Veneza. Isto não assegurou até agora algum contrato de distribuição. É um filme de nicho, que aborda duas situações do universo da diversidade, ser PCD e ser queer. Além do mais, exibe nudez e cenas de sexo (simuladas ou não), algo que no momento conservador em que vivemos pode ser uma barreira a mais.

Além da vivência do ator-diretor-roteirista Victor Di Marco, o filme igualmente é fruto de pesquisas, inclusive acadêmicas sobre o comportamento de pessoas PCD. London é como um working in progress dos dois diretores, cujo filme anterior, O Que Pode um Corpo? (2020), já fazia a defesa de um personagem com deficiência e não vitimizado. 

A experiência como PCD e queer é transformada em uma bandeira de liberdade. Por que uma pessoa queer precisa ter sua  identidade apenas atrelada a esta condição? Por que uma pessoa com deficiência não pode ser queer? 

Entre a recusa à medicalização e a afirmação do desejo, London transforma a experiência PCD e queer em um manifesto de liberdade, sem vitimização ou romantização.

London, de alguma forma, paga tributo ao filme Hoje eu quero voltar sozinho (Daniel Ribeiro, 2014), onde um garoto gay e cego abriu caminho para questionar as caixinhas em que as questões identitárias são colocadas. 

Com um final para cima, mas que não romantiza seu destino, e com uma carga mais radical de sexo, enquanto manifesto queer-PCD, London certamente será uma referência para o cinema e para a vida de um segmento da sociedade. 

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