
50ª Mostra de SP (2026) – Medley
Na mira do mercado adolescente
Por Ivonete Pinto | 30.10.2026 (sexta-feira)
O drama coming of age é sempre bem-vindo na cinematografia brasileira. A maior parte da oferta para os adolescentes tem origem na produção norte-americana, onde o aspecto da identificação para com este segmento dos brasileiros costuma ficar no mínimo incompleto.
Com roteiro de Keka Reis, a partir de seu romance “Os Dias em Que Aprendi a Voar”, e com consultoria de Carolina Kotscho, a direção de Medley (2026) é de Ana Luiza Azevedo. A novidade é que a diretora, sócia da decana Casa de Cinema de Porto Alegre, realizou esse filme carioca (Riofilme) e por outra produtora, a Panorâmica.
Da Casa de Cinema, Ana Luiza trouxe o sócio, Giba Assis Brasil, responsável pela montagem de Medley, e a experiência de ter dirigido outro drama de amadurecimento, Antes que o Mundo Acabe (2010). E lá se vão mais de 16 anos e 16 filmes desde curtas e séries para TV, aliás, o tempo de vida da personagem de Medley, Lola (Mel Maia).

“Medley” aposta no coming of age para aproximar o cinema brasileiro do público adolescente, explorando conflitos familiares, descobertas afetivas e a busca por uma identidade própria.
Para situar Medley no subgênero coming of age, podemos trazer Lady Bird (Greta Gerwig, 2017) e Bird (Andrea Arnold, 2024); o primeiro é uma comédia e o segundo um realismo fantástico, ambos sucessos entre adolescentes. São gêneros, conforme as estatísticas (ver análise de mercado da Tomun aqui), de maior adesão nas bilheterias. Dramas como Medley, mesmo que contendo o subgênero secundário do esporte (natação), correspondem nas bilheterias a 23,1%, o que pode significar alguma dificuldade para o filme de Ana Luiza. A maior delas, possivelmente, é o fato de ser brasileiro (sim, ainda há preconceito quanto ao produto nacional).
Todos os filmes são de mercado, pois se destinam a algum mercado, que pode ser de menos de mil a mais 10 milhões de espectadores. O mercado de Medley, pela temática, estilo narrativo e linguagem, visa atingir os adolescentes em geral, mas talvez mais as adolescentes já que a protagonista tem 16 anos, e as meninas podem encontrar identificação em muitos desses itens: conflito com a mãe, ausência do pai, uma certa rebeldia, vocação para um esporte, virgindade…

Com narrativa direta e acessível, Medley constrói a jornada de amadurecimento de Lola entre a paixão pela natação, os segredos do pai e o difícil vínculo com a mãe.
Narrativa – Em função de um potencial de audiência, tanto em salas como em streaming, ligado a um público em formação, não se poderia cobrar que a narrativa fosse mais codificada, ou lacunar, o que exigiria maior esforço do espectador. Por isso, vemos a personagem anunciando o que vai fazer e vemos em seguida, numa relação de causalidade, o que ela faz. Como as sequencias em que Lola discute com a mãe, arruma suas coisas, sai de casa, avisa que vai passar as férias no sítio de um tio em Rio do Salto, pega o ônibus, o motorista informa que chegou em Rio do Salto, ela desce do ônibus e assim por diante. Não há oas elipses que fazem uma história andar mais rapidamente porque pressupõem-se que o espectador já entendeu o que está acontecendo. Uma opção que leva em conta uma certa desatenção dos jovens espectadores?
No campo das simbologias, os ritos de passagem funcionam bem, para qualquer público, com comunicação imediata. No início, quando das primeiras dificuldades em ficar sozinha na casa do tio, Lola não dispensa segurar um ursinho de pelúcia na hora do medo. Gesto que diz muito da personagem, sem que outros artifícios precisem ser utilizados.

Mais do que uma história sobre natação, Medley usa o esporte como metáfora para uma adolescente que precisa enfrentar a ausência do pai, os conflitos com a mãe e as primeiras descobertas da vida adulta.
Na jornada da heroína, paralela à busca pela história de seu pai, o desafio de Lola é conseguir nadar a modalidade medley que dá título ao filme e conquistar o campeonato regional. E seu nome, sim, faz referência ao cult alemão Corra, Lola, Corra (1998), da mesma época da história de Medley. Aliás, a dramaturgia tira partido desta década, quando as pessoas se comunicavam muito por secretária eletrônica e serve, no filme, para mediar as relações.
Nos diálogos, há “momentos Jorge Furtado”, no estilo dos roteiros do colega de Ana Luiza. O encontro de Lola com Gabriel (Guthierry Sotero), além de ter o ingrediente inter-racial de Furtado, traz a referência a um humor que brinca com o próprio cinema. Tudo muito leve, leveza frisada pela trilha de Leo H, e defendido com segurança pela experiente Mel Maia, vinda de vários trabalhos na TV, como Os donos do jogo (série, 2025).
O adensamento do enredo, num sentido menos leve, se dá quando fica clara a distância de Lola com a mãe (Mariana Lima). Ela nunca a chama de mãe, só pelo nome, Catarina.

Ao apostar em uma narrativa direta e em temas próximos da adolescência, Medley procura preencher uma lacuna do cinema brasileiro: histórias nacionais voltadas a um público jovem.
O tempo no sítio é o tempo de descobertas, do amor por Gabriel aos segredos do pai desaparecido. O filme, habilmente só revela o que a personagem sabe, mantendo o mistério até o final.
Medley é construído numa lógica que dialoga com um público (ainda) não habituado à uma linguagem do cinema mais arrojada. E não há problema nisto. A honestidade de um projeto está em ter objetivos claros e persegui-los. Afinal, o market share para o cinema brasileiro precisa subir, e o mercado adolescente desde sempre teve poucos títulos nacionais disponíveis. Com distribuição da Vitrine Filmes, através do braço Vitrine Petrobras,, e estreando nesta quinta em mais de 30 salas de cinema pelo País, a produção tem ingredientes suficientes para alcançar seu público.















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