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Festivais

50 Mostra SP’26 O Homem Mais Solitário da Cidade

E se surgisse um mix de ‘Aquarius’ com ‘O Último Azul’ rodado em Viena? Ele já existe.

Por Luiz Joaquim | 22.10.2026 (quinta-feira)

SÃO PAULO (SP) – Chegando discretamente aqui pela 50ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, o austríaco O homem mais solitário da cidade, de Rainer Frimmel e Tizza Covi, chamou a atenção pela afinidade temática com dois dos mais badalados filmes pernambucanos dos últimos anos: Aquarius, de Kleber Mendonça Filho, e O último azul, de Gabriel Mascaro. A versão vienense desses filmes, entretanto, tem a sua própria personalidade, com o protagonista Al Cook provocando uma empatia muito particular. 

Antes, um parênteses: o CinemaEscrito conversou com o diretor Rainer após a sessão do filme no Cinesystem Frei Caneca para falar das aproximações no seu roteiro com os filmes pernambucanos. Rainer respondeu que todos os brasileiros têm perguntado se ele conhecia Aquarius, obra que ele, na verdade, nunca acessou, mas, agora, quer muito conhecer. Uma outra curiosidade que aproxima o cineasta do Recife é a sua família. Ele nos contou que o cunhado é recifense, e, fazendo uma ponta em O homem mais solitário… há um casal de brasileiros coadjuvando.

Assim como a Clara de Aquarius sofre todo tipo de pressão para deixar o seu apartamento na Avenida Boa Viagem, Al Cook também vira vítima de uma holding que tomou conta do centenário prédio onde ele mora para demoli-lo e subir um empreendimento qualquer.

Al Cook. Correndo atrás do seu sonho, ainda que tardiamente, após assumir o desapego ao passado

Assim como Clara, Al Cook também se recusa a vender seu apartamento, onde viveu desde o nascimento, e passa a sofrer assédio do empresário. Primeiro, Cook tem o fornecimento de energia elétrica cortado; depois o da água; depois sofre uma invasão, tendo no horizonte a possibilidade de que o novo proprietário do prédio traga moradores de rua para ocupar as unidades vazios e, ainda, promova uma infestação de pragas. Lembra algo?

Entretanto, ao contrário de Clara, Al Cook não resiste tanto assim contra o empresário. Essa luta não se torna o norte principal do enredo, e dá margem para abrir um outro caminho. A da realização de um sonho de uma vida inteira, que foi soterrado por Cook pelas urgências habituais do cotidiano. 

Com o dinheiro da venda do apartamento, o septuagenário Al Cook começa a pôr em pratica a ideia de viajar para os EUA. O sonho é conhecer o Delta do Mississipi. Não apenas estar na terra de seus ídolos, mas poder tocar ali, trabalhar ali. 

O homem mais solitário da cidade não conta com atores profissionais, nem interferência no figurino e nas locações. O Al Cook que conhecemos na tela é o Al Cook da vida real. Seu apartamento e pertences de cena também pertencem a ele. O que vemos, portanto, é uma dramatização fictícia com elementos de uma vida real construída. 

Al Cook teve mesmo uma carreira em Viena, com vários discos e gravações de composições próprias, tendo ainda sido objeto de entrevistas na no auge da carreira. Ele conheceu a fama, portanto, e o filme aproveita esses dados para incrementar ainda mais o sentido solitário do protagonista na terceira idade.

Al Cook (d) e a sua antiga namorada, “como você dá um disco do Elvis a uma fã dos Beatles?”, ela pergunta.

Exímio guitarrista, o protagonista, quando performa para a câmera parece incorporar os maiores nomes do blues norte-americano, em particular tocando aqueles dolorosos lamentos criados nos anos 1920 e 1950. 

O tom dado por Rainer e Tizza não é o da melancolia, mas o da serenidade, quase como uma aceitação de que as coisas são como são, fazendo com que o seu herói siga agora com o vento, livre, para mais perto daqueles que sempre idolatrou por toda uma vida e nunca teve coragem de encará-los. Como o seu ídolo absoluto, Elvis Presley, para quem escreveu inúmeras cartas nos anos 1970, oferecendo 30 das suas composições originais, mas sem nunca ter realmente remetido nenhuma delas. 

Cook irá, portanto, praticar a difícil arte do desapego para qualquer idoso, a fim de viver uma nova experiência. O homem mais solitário da cidade poderá ser visto no circuito exibidor do Brasil a partir de maio de 2027, quando a distribuidora Autoral planeja fazer o seu lançamento.

ÁFRICA – Não tão discreto como o filme austríaco, o sul-africano Variações sobre um tema, de Jason Jacobs e Devon Delmar, chegou por aqui com o carimbo valioso de dono do Tigre de Ouro, como melhor filme no Festival de Roterdã. 

Rodado nas desérticas montanhas de Namaqualand, aproveitando-as com uma fotografia de arregalar os olhos, sua narrativa quebradiça toma como ponto de partida uma pastora de cabras, prestes a completar 80 anos, que nutre esperança por um falsa promessa do governo local sobre um reparação fiduciária pela participação de seu pai durante a Segunda Guerra Mundial. 

“Variações sobre um tema” (2026), de Jason Jacobs e Devon Delmar

Entre o cômico e o lúdico, Variações… nos conduz suavemente por uma serena narração em off, que não apenas nos aproxima da idosa, mas de todo um coletivo de personagens do vilarejo onde ela vive – o cabeleireiro, o homem que cava um buraco em sua casa em busca de um tesouro e um outro, velho, que  tudo o que quer é dormir para sonhar com a única mulher que amou, ainda na juventude. 

Os diretores Jason e Devon incluem, ainda, neste rol de personagens, dois jumentos, imputando neles sonhos, atitudes e consequências, tal qual o Baltazar no A grande testemunha, de Robert Bresson. 

Entre as qualidades de Variações… está a sua capacidade de concisão e sedução que, num total de rápidos 60 minutos, não só nos suga imediatamente para aquele universo, como nos aproxima calorosamente daquelas figuras que insistem na fé por uma vida mais digna. 

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