
50ª MostraSP (26)- A Professora de Francês
O Bebê de Rosemary mineiro
Por Ivonete Pinto | 18.10.2026 (domingo)
Já nos créditos de abertura o longa mineiro A professora de francês diz ao que veio: uma história claramente inspirada no O Bebê de Rosemary (1968), de Roman Polanski. Um plano aéreo sobre uma grande cidade enquanto rolam os letreiros em cor de rosa ao som de uma música que emula Bernard Herrmann. A Mia Farrow a ser engambelada aqui é vivida por Grace Passô, com a presença magnética em cena que o cinéfilo aprendeu a admirar.
Antes que o leitor conclua que estamos diante de um pastiche, convém ressaltar que se trata de “adaptação” ao universo brasileiro com total pertinência. No lugar de um grupo satânico, temos um grupo conservador radicalizado, que emite palavras em uma língua indecifrável (a menção à poliglota ex-primeira dama não seria mera coincidência). O próprio elemento do satanismo, tão em voga nos anos 1960, é substituído pela presença da política. Um oportunista candidato a algum cargo representa o quanto o Brasil está infestado desta gente.

Em “A Professora de Francês”, Ricardo Alves Jr. adapta “O Bebê de Rosemary” ao Brasil contemporâneo, substituindo o satanismo pela radicalização conservadora e pelo preconceito.
É este grupo que a personagem de Grace Passô, Graça, vai enfrentar. De volta à casa do pai, que está doente, ela encontra vizinhos cheios de amor para dar, exceto pelo fato de que viram demônios quando percebem que ela namora uma mulher, (a francesa Jehnny Beth, de Anatomia de uma queda ).
Elas falam francês entre si, Grace já morou na França, onde podemos concluir que lá conheceu a namorada com quem vive agora em Minas. O subtema “francês” soaria um tanto gratuito na trama e seria apenas para justificar a parceria com a produtora Les Valseurs. Mas há um aspecto que faz sentido: em uma entrevista de emprego para dar aula de francês, ela fala de Descartes com desenvoltura. Ou seja, Grace é filiada a uma corrente de pensamento diametralmente oposta aos antigos vizinhos, que cuidam de seu pai. Como a irracionalidade vem sempre acompanhada de preconceito, sua orientação sexual vai impulsionar a ira destes vizinhos.
A direção segura de Ricardo Alves Jr., do ótimo curta Vaga Carne (2019) em cima de um roteiro de Germano Melo, até um certo momento realista, imprime uma força considerável ao filme. Tudo se constrói paulatinamente no registro realista, amparado pela direção de arte do gaúcho Richard Tavares; com diálogos precisos e verossímeis, ditos por personagens comuns, daqueles que vemos em cada esquina. No entanto, a evolução para (mais um) filme de horror, ao invés de turbinar a carga metafórica do enredo, ao abandonar o realismo perde a potência de refletir sobre a sociedade atual. E ao optar pelo cinema de gênero, entra na insistente recorrência do cinema mundial que apela ao horror para resolver qualquer contexto dramático.

Ao abandonar o realismo em favor do horror,“A Professora de Francês” perde parte da força de sua crítica social e recorre a situações previsíveis do clássico de Polanski.
O elenco notável, com destaque para Elisa Lucinda e ao incrível Pedro Goifman, mantém o interesse aceso. Mas quando se repetem algumas situações que são por demais emblemáticas em O Bebê de Rosemary, elas resultam previsíveis e fragilizam a proposta política do filme. Não que não haja inventividade nesta adaptação/leitura/inspiração. Pode até ser um exercício divertido prever o que e como o filme brasileiro vai fazer a citação X ou Y.
A professora de francês, de qualquer forma, deve funcionar melhor para que não viu o clássico de Polanski. E esta é apenas uma opinião no calor da hora. Cada espectador reage de modo diferente frente a um filme que remete a outro filme. A previsão de estreia é para 2027.















0 Comentários