X

0 Comentários

Festivais

50ª Mostra de SP (2026)- A Terra do Meu Pai

Sobre a força da arte para curar cegueira intelectual, política e humana

Por Luiz Joaquim | 19.10.2026 (segunda-feira)

SÃO PAULO (SP) – No próximo domingo (25), o Brasil vai definir nas urnas eleitorais o seu destino, escolhendo entre duas possibilidades: (1) a continuidade da normalidade pelo direito social e (2) o abismo da loucura motivada pelo crime e pela violência autoritária. E uma das bandeiras levantadas pela lógica fascistas flamula contra a cultura, contra a arte. O discurso, neste caso, é o da diminuição do valor de um produto cultural, provocado pela cegueira de não enxergar a arte como um elemento definidor do humano. Como refinador do humano. É uma diminuição que faz sentido na lógica daqueles que não têm interesse que a população mergulhe no melhor de si mesmo, ficando na superfície mais rasa do humano: a do egoísmo, da inveja, do preconceito, da vaidade e, por consequência, do consumo inconsequente.

Daí o leitor pode perguntar, o que teria tudo isso a ver com a 50ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo? Tem que o evento está antecipando sessões de A terra do meu pai (Fatherland), novo filme do polonês Pawel Pawlikowski (dos já celebrados Ida e Guerra fria, além do pouco falado Meu amor de verão).

A terra do meu pai, tem estreia nos cinemas brasileiros agendada para a quinta-feira da próxima semana (29). Ainda assim, suas sessões na Mostra têm sido concorridas. E o filme faz jus a essa busca pelo exigente publico paulistano.

Hanns Zischler no papel do escritor alemão Thomas Mann.

Para além das muitas leituras políticas possíveis (leia aqui a crítica de Ivonete Pinto por ocasião da sua cobertura no festival de Cannes), dadas pelo seu enredo roteirizado por Pawlikowski e Henk Handloegten, A terra do meu pai também se apresenta como uma peça de arte autoreferencial quando, ela própria, escancara que, por mais racionalmente sofisticados que sejamos, a arte saberá aplainar os excessos do seu intelecto. E podemos dizer também que, por mais bestiais que sejamos, a arte poderá amolecer a ignorância e o seu derivado, o preconceito. Daí a sua força. Daí o receio de fascistas contra ela, que abala certezas confortáveis para o poder.

Mas, o mais provocador em A terra do meu pai é que o filme não tem como alvo número 1 os fascistas reincidentes pós Segunda Guerra Mundial entre Frankfurt (sob controle dos EUA) e Weimar (dominada pelos soviéticos), por onde circula o prêmio Nobel da Literatura, Thomas Mann (Hanns Zischler) com a sua filha Erika (Sandra Hüller) após 16 anos longe da Alemanha. Em ambas cidades, Mann será homenageado com honrarias que remetem ao gigante alemão Goethe.

O filme coloca em jogo, num primeiro plano, o interior humano em Mann. A terra do meu pai problematiza o contraste de seu esforço em manter o controle e altivez, a firmeza e a ética durante um momento tão delicado para o mundo. Uma vez que ele é uma referência mundial na arte, cada gesto seu, fala ou posicionamento, ganha forte reflexo neste novo desenho social que se inicia no pós-Guerra.

Sandra Hüller como Erika Mann, atriz, escritora e filha de Thomas Mann,

Voltando ao Brasil de hoje, se o leitor ainda não enxerga a força desse recado dado pelo filme, seria bom observa, leitor, como os seus ídolos culturais e influencers – de nível intelectual colossalmente inferior a um Thomas Mann – se posicionam há menos de uma semana das eleições presidenciais.

Retornando ao filme, Pawlikowski emprega o sentimento de Erika como contraste ao racionalismo de Mann. Erika, abre o filme com sua voz ao telefone, falando dos EUA com o irmão Klaus (August Diehl), que está na Europa. Ela quer que ele a acompanhe com o pai pela Alemanha. Quer reaproximar os dois. Há uma esperança na resposta amargar de Klaus ao pedido de Erika, mas uma tragédia impede que isso aconteça.

Enquanto Erika (com Hüller entregando mais uma performance comovente), se sustenta diante do ocorrido por um evidente esforço social, Mann parece transitar por tudo sob o conforto da lógica racional de que há algo mais urgente em jogo para ele gastar sua energia do que um drama íntimo. “Klaus não podia ter feito isso com sua mãe… e com você”, diz, excluindo-se da ferida que dilacera sua família.

É pela arte, na sequência que encerra este filme de perfeitos 82 minutos, que Pawlikowski finalmente saculeja o tão sóbrio Mann. Indo parar nas ruínas da bombardeada igreja onde J. S. Bach teve o seu primeiro compromisso profissional, pai e filha escutam em silêncio, do compositor alemão, Jesus, alegria dos homens (ouça aqui)

“A Terra do Meu Pai” estreia nos cinemas brasileiros em 29 de outubro, com distribuição da MUBI e da Imovision.

Nesta que é a cena mais difícil do filme, o ator Zischler nos dá (e nos leva) para um lugar onde palavras não dão conta de traduzir. Ali, some-se o chão das certezas de Thomas Mann e as incertezas da existência humana, escorada na nossa frágil filosofia, se manifesta pela inefável capacidade da arte musical.

E vale a observação sobre como Terra do meu pai faz confluir em si não só a música, mas outras duas expressões artísticas para nos fazer chegar a esse lugar. Uma delas está na força da literatura, tão bem definida pelos diálogos de Mann e Erika com a imprensa e com a sociedade alemã daquele momento.

A terceira expressão artística é o próprio cinema. Pawlikowski evolui a olhos visto, com um domínio admirável, em sua economia e precisão não apenas no enredo, nos diálogos e na construção da mise-en-scène. Ver seus filmes, no preto & branco do seu constante fotógrafo Lukasz Zal, é não só deliciar-se com a riqueza estética, mas entender, por ela, que há em si uma função narrativa.

Na medida em que, por exemplo, vemos em Terra do meu pai uma Erika pequena no rodapé de um enquadramento, que destaca as enormes janelas em centenários recintos da arquitetura alemã, é percebê-la traduzida, em forma de imagem, no quão solitária e em dor ela segue diante da tragédia familiar.

Há espaço ainda para muito o que dizer sobre o filme, mas encerramos aqui, por enquanto, com o desejo de que Terra do meu pai siga conquistando o seu lugar na história do cinema e que possa ajudar a curar cegueiras contra a humanidade.


Leia também:

Mais Recentes

Publicidade

Publicidade