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Festivais

50ª Mostra SP (26) – Minotauro + 3 filmes

O crescente talento de Andrey Zvyagintsev e três filmes que problematizam a relação entre pai e filha

Por Luiz Joaquim | 18.10.2026 (domingo)

SÃO PAULO (SP) – Nesta quarta-feira (21), pela tela montada no Cultura Artística, o frequentado da 50ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo irá ter acessa à primeira (das três) sessões programadas para um dos títulos mais interessantes dessa safra: Minotauro, do russo Andrey Zvyagintsev.

Importante refrescar a memória do leitor sobre o talento de Zvyagintsev, que, já no seu primeiro longa-metragem assinando a direção – O retorno (2003) -, saiu-se vencedor do Leão de Ouro em Veneza naquele ano. N’O retorno, o cineasta confronta a maneira como dois jovens irmãos lidam com o retorno do pai após 12 anos de ausência. Em sua conclusão, de rachar a cabeça do espectador, Zvyagintsev dava um belo recado que o mundo ganhara um cineasta para se prestar atenção. (leia crítica aqui).

Em 2014, levou o título de melhor roteiro em Cannes pelo seu não menos impactante Leviatã – leia aqui -, e, três anos depois, no mesmo festival, foi agraciado com o prêmio do Júri por Sem amor. Agora em 2026, Cannes novamente jogou luz sobre Zvyagintsev lhe entregando, por Minotauro, o Grande Prêmio do Júri (espécie de 2º lugar).

CHABROL – Minotauro é declaradamente uma adaptação de um dos melhores ‘Claude Chabrol’: A mulher infiel (1969). E Zvyagintsev o faz com a elegância cinematográfica e a propriedade da cultura russa que lhe é peculiar.

O tempo é o de 2022, início das investidas russas contra a Ucrânia, e empresas em todo o país são obrigadas pelo governo a colocar a disposição alguns funcionários para partir ao campo de batalha. Na mesma semana em que o empresário Geb (Dimitry Mazurov) precisa administrar a crise em seu negócio, precisa também lidar com a descoberta de que sua bela esposa, Galina (Iris Lebbedova) é infiel.

“Minotauro”, de Andrey Zvyagintsev.

Dono de um rigor cênico e fotográfico (pelas mãos de Mikhail Krichman), Zvyagintsev empresta tensão cortante para sequências que já seriam naturalmente tensas pelo contexto do enredo. Por exemplo, na fala de Geb para 14 novos funcionários contratados, que irão para guerra sem ainda saberem disso, o plano circular com a câmera sobre a grande mesa mostra ao espectador o rosto silencioso de todos aqueles pobres coitados, vítimas de uma combinação cruel entre o governo ensandecido de Vladimir Putin e o que o capitalismo pode bancar.

É igual na residência do amante de Galina, com a câmera circular que oferece uma relação da passagem do tempo, por uma visão de 360º, entre o início do sexo do casal com a luz que invade o apartamento pela janela. Há outros exemplos como esses que merecem ser conferidos na tela do cinema.

Para além do arrebatamento visual, Zvyagintsev emaranha as duas tramas, a da guerra e a da traição matrimonial, de forma a criar uma nova camada àquilo que Chabrol trazia em seu filme original: a impunidade da burguesia. Aqui, o diretor russo alia isso ao patético contexto da guerra contra a Ucrânia. Como ápice da patetice, Zvyagintsev dedica o discurso de uma autoridade política para um auditório repleto de novos recrutados, com palavras de estímulo para defenderem a pátria.

Há ainda espaço para o humor, ácido, é verdade, como o que acontece no jantar com casais amigos de Geb, no qual as esposas destilam veneno. Aqui, o roteiro de Zvyagintsev (com Simon Lyashenko) é afiado e dono de uma propriedade brilhante para assuntos demarcadamente feminino e masculino.

Minotauro será distribuído no Brasil pela Imovision e tem no 3 de dezembro sua data de estreia.

PAI E FILHA – Três filmes não tão celebrados como Minotauro estão aqui na Mostra de SP tomando como ponto de partida a relação conflituosa entre pai e filha. São eles o grego. Não me largue (Kpáta Me), de Myrsini Aristidou; o francês La belle Anne, documentário dirigido e atuado por Angelica Ruffier; e o búlgaro Luxúria (Lust), de Ralitza Petrova

Entre os três, a ficção Luxúria é o único problemático, com a história da búlgara Lilian (Snejanka Mihaylova) que trabalha como psicóloga numa agência penitenciaria masculina nos EUA e precisa retornar à terra natal por conta do falecimento de um pai que “só encontrou uma vez na vida”. Luxúria entrelaça mal, registre-se, este reencontro com o seu passado e a sua luta pessoal contra o vício pelo sexo, com um corpo, o seu corpo, já anestesiado pelo desencanto.

“Luxúria”, de Ralitza Petrova

Ao contrário de Luxúria, o documentário La belle Anne dá um belo recado sobre reencontros e o que eles podem te fazer para você seguir melhor em frente. A própria Angélica está no primeiro plano, ao sul da França, onde precisa esvaziar a casa onde o pai residiu sozinho por duas décadas logo depois dela, com a sua mãe e irmão menor, mudar para a Suíça, fugindo do comportamento errático e abusivo daquele pai.

La belle Anne começa mal, um tanto burocrático, ainda que insira instigantes imagens de arquivo da infância de Angélica, dando dicas do quão problemática foi aquele período ao lado do pai.

O filme começa, entretanto, a ganhar contornos mais sedutores quando a diretora também abre espaço para o avô, outro solitário e debilitado que reside na região, e, principalmente quando nos coloca dentro do diário da adolescente Angelica, no qual registrava uma paixão secreta pela sua então professora de história, a Mademoiselle B. 

A partir daí o filme muda sua via, saindo daquela que investigava o trauma da infância difícil para o da superação a partir do reencontro com alguém que Angélica admiriva acima de tudo e de todos. O resultado é tocante. O filme foi vencedor do Prêmio Especial do Júri no Festival de Roterdã e não tem data de estreia no Brasil.

“La Belle Année”, de Angelica Ruffier

AMOR INCONDICIONAL – Premiado pelo público do Festival de Sundance, na seção World Cinema Dramatic, a ficão Não me largue é daqueles trabalhos que apertam o coração quando o assunto é criança negligenciada pelos pais.

Aqui falamos da pequena Iris (a talentosa Maria Petrova) que, com seus 11 anos de idade nas férias de verão, perambula solta pelas praias locais com sua única amiga, Danae, alguns anos mais velha e já focada nas descobertas dos prazeres pelo outro sexo.

Em casa, a pequena Iris flutua entre a mãe que se empenha na relação com um novo namorado, e o irmão adolescente sempre evasivo. Neste vazio de atenção, Iris descobre que seu pai Aris (Christos Passalis), volta à cidade natal, vejam só, para o funeral do pai dele.

“Não me Largue”, de Myrsini Aristidou

Aris é um vigarista, sem destino nem parada no mundo, mas Iris tenta se aproximar dele e aquilo que se mostra desarticulado e mal-sucedido, aos poucos, vai de fato ganhando vínculos de uma relação real entre pai e filha, com toda a beleza intrínseca à incondicionalidade que define um amor assim.

É inteligente como a diretora Aristidou apresenta, por todo o filme, a pequena Iris num ambiente árido de carinho e, pelo abraço final que recebe do pai, estampa, por ele, a força e o sentindo humano por traz desse gesto. “Confie em mim”, dito por Aris a Iris num dos momentos mais difíceis do filme, também é outra síntese, aqui pela palavra, da bela transformação na vida daqueles dois. É comovente.

Não me largue e Luxúria também não têm data de estreia no Brasil.

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