
50ª Mostra de SP (26) – A Morte Não Tem Dono
Asia Argento na Venezuela
Por Cléber Eduardo | 22.10.2026 (quinta-feira)
A presença de Asia Argento em A Morte não Tem Dono (VEN/CAN/ ITA/ LUX 2026), de Jorge Tielen Armand, chama atenção não somente pela presença em si, mas, principalmente, por ser uma presença em um filme venezuelano de terror fundiário. Asia é uma herdeira italiana de terras na Venezuela, que, para lidar com as questões da propriedade, chega ao país como alienígena, sem saber sequer a língua, e tem de lidar com gente e situações estranhas Ela deseja vender a propriedade, mas os funcionários ocuparam as terras e, sem sutilezas, deixam claro que não sairão.
Estamos colados à sua percepção, portanto, de largada, desconfiamos de tudo e de todos, uma vez que, para uma perspectiva europeia (ainda que italiana), a América Latina não é confiável, nem como sistema de malandragens generalizadas (para os de fora), sequer pelos valores individuais. Asia é o capital estrangeiro com receio de perder tudo para as forças ocultas e concretas em sua terra. É a civilização, o conhecimento, a elite internacional. Um terror alegórico é a escolha ideal para abordar esse choque e atrito entre as culturas e procedência.

Em “O Morte não Tem Dono”, a propriedade rural venezuelana torna-se território de estranhamento, onde o sobrenatural dá forma às tensões concretas de classe e raça.
O filme é uma co-produção venezuelana com Canadá, Itália e Luxemburgo. Não fosse a internacionalização da produção, não haveria Asia e, sem Asia, o filme não teria estreado na Quinzena dos Cineastas de Cannes em 2026, antes de ter ser exibido no Festival de Locarno. Asia já havia passado pela Quinzena como diretora e atriz em 2004 com Maldito Coração. Regressa com o terceiro longa de Jorge Tielen Armand, depois de La Soledad (2016), exibido no Festival de Biarritz, na França, e La Fortaleza (2020), que competiu no Festival de Roterdã, na Holanda.
Apesar da circularidade internacional de Armand, não é suficiente para lhe dar acesso direto a Cannes. Neste sentido, Asia Argento não é somente sua protagonista famosa, mas, principalmente, seu passaporte. No filme, com sua expressão perdida e desorientada, com um receio tranquilo de algo de errado acontecer a ela e a seus negócios, ela aporta pouco. Como marca com poder, é uma senha expressiva. E essa senha carrega certa autoralidade, ligada aos excessos, às manchas de sangue, à violência e ao sobrenatural.

A desorientação de Asia Argento diante de um território que não compreende conduz um filme em que o espectador compartilha a desconfiança da protagonista, sem jamais dominar inteiramente as ameaças ao seu redor.
Os excessos são primeiramente sonoros, caminho para criação de atmosfera desconfortável. Parte do desconforto é menos das ameaças à protagonistas, incapaz de identificar o real problema na qual está metida, e mais de seu lugar de branca com posses em uma terra de pessoas negras e pobres. Talvez o mais importante, sem parecer banal em sua denúncia, é essa camada racial de classes e, anteriormente, da relação entre a europeia e o povo local, remetendo a um colonialismo e uma expropriação histórica, mas agora em um contexto atualizado. Não há nenhum realismo nessa representação de atrito entre forças desiguais. O equilíbrio entre esses poderes terá de passar necessariamente pela violência (o que remete, tangencialmente, a Propriedade, do pernambucano Daniel Bandeira). Sem nacionalismos, o filme de Bandeira é melhor. No entanto, as situações nas penumbras, os mistérios não totalmente esclarecidos e a lógica metafísica, para lidar com questões concretas, mostra traços de parte da produção venezuelana, sempre procurando as zonas de sombras semânticas.















0 Comentários