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Festivais

50ª Mostra de SP (2026) – Glaxo

As afinidades eletivas entre Brasil e Argentina

Por Ivonete Pinto | 26.10.2026 (segunda-feira)

A coprodução Argentina-Brasil, Glaxo (2016),  funciona mais para iniciados. O contexto político das décadas de 1950 e 1980 na Argentina, pressupõe que o espectador saiba minimamente o que é o Campo de Mayo, a instalação militar nos arredores de Buenos Aires. Os massacres ocorridos ali, na verdade  datam já do tempo do tempo da Revolução Francesa, passam pelas ditaduras recentes e se tornou  um lugar incontornável da história dos platinos. Também como contexto, há o bombardeio da Praça de Maio, a ditadura militar que derrubou Perón em 1955 e que tem seus desdobramentos nas décadas seguintes.

No filme dirigido e roteirizado por Benjamín Naishtat, há menção direta a um episódio ocorrido no Campo de Mayo, quando um caminhão com detentos que não faziam ideia do que estavam sendo acusados, teve a finalidade de um massacre.

“Glaxo” constrói personagens que não ganha força suficiente para criar empatia com o espectador.

O personagem central por trás disto, Ramón Folcada  (Marcelo Subiotto, sempre perfeito) agiu como agiam os comandantes nazistas de segundo escalão, que até podiam se negar a cumprir ordens, mas cumpriam para ter algum beneficio. No limite, teriam ascensão social. É o que acontece com Ramón e a esposa  La Negra Miranda (a cantora-celebridade Lali Espósito), que vão parar na cidadezinha de Chivilcoy.

Mulher fatal, La Negra seduz  o jovenzinho Miguelito (Joaquin Bonadeo), alterando as relações eletivas do lugar.  Este é parte do núcleo central de Glaxo e a partir dele temos um quadro vinculado à questão social, que dá ao filme um caráter de atemporalidade e mesmo de universalidade, permitindo ao espectador se conectar ao enredo em qualquer lugar. Se tiver informações das circunstâncias históricas, melhor. 

Neste sentido, duas relações cinematográficas podem ser feitas: a mulher usa o corpo para sobreviver, para escapar do destino de prostituta do interior que sofre preconceito por onde passa. Casa com o ex-policial que pratica as atrocidades do regime para obter benesses. Nesta Mostra de São Paulo vimos o que talvez seja um dos melhores filmes desta edição, Mulher Desconhecida (de May el-Toukhy Dinamarca,  2026). Nele, o deslocamento social tem o cenário no pós Segunda Guerra e a caça às mulheres que se envolveram com os nazistas que ocuparam o país. A dimensão dramática no que acontece ali é de outra ordem, mas também o aspecto da sobrevivência a qualquer custo e a ascensão social são equiparáveis.

A outra relação com o cinema vem do próprio diretor de Glaxo, Benjamín Naishtat,  e seu Vermelho Sol (Rojo, 2018), um dos filmes argentinos mais impactantes a tratar do tema da moral em tempos de exceção. A poderosa cena do restaurante e a disputa por uma mesa é algo memorável.

No filme de Benjamín Naishtat, a sucessão de épocas e personagens enfraquece a dimensão dramática da história.

Em Glaxo, uma cena se destaca na mesma linha, quando o ex-policial expulsa do bar dois jovens mórmons que estão a pregar. Os diálogos ali são igualmente memoráveis e valem o filme.

No entanto, a  quantidade de personagens e a transição de épocas em Glaxo pode ser um dado contra. Entende-se a dificuldade. O filme é uma adaptação do romance homônimo de Hernán Ronsino, onde certamente tudo tem espaço para ser desenvolvido. 

O resultado é um filme frio, com personagens que não ganham a empatia do público porque não há nem tempo para desenvolver. A maior fragilidade ficando com o personagem de Miguelito e sua passagem para o futuro, quando já bem mais velho e doente, deveria servir de chave para compreendermos o que se passou com a Argentina. O personagem não dá conta. Para piorar, o clima da sessão de estreia na Mostra teve público menor e desatento: logo ali na Paulista acontecia o maior comício de todos os tempos e a cabeça dos espectadores, por mais que o contexto de Glaxo se relacione com o Brasil, estava com Lula.

Ainda no extra fílmico, em termos de estrutura de produção, Rodrigo Teixeira, da RT Features, fez o que pode para trazer a filmagem para o Brasil, já que os custos na Argentina ficaram impraticáveis. As locações em Pelotas, que contaram com alunos de cinema da UFPel na equipe, e em Jaguarão, fronteira com Uruguai, funcionam bem para representar as diferentes épocas do enredo. A direção de arte do argentino Ezequiel Galeano, junto ao trabalho dos brasileiros Pedro Sotero (fotografia) e Livia Serpa (montagem),  associados à arquitetura preservada destas cidades, foram fundamentais para garantir a verossimilhança necessária. 

Agora é torcer para Glaxo estrear logo, antes que o mundo acabe.

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