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50ª MostraSP (26)– Rehearsals for a Revolution

Documentário iraniano vencedor de Cannes traz o ponto de vista de uma família

Por Ivonete Pinto | 20.10.2026 (terça-feira)

Pegah Ahangarani é uma documentarista ativista iraniana, que como muitos jovens conterrâneos precisou emigrar por razões de perseguição política. Seus filmes são engajados, militam contra o estado de coisas que se tornou o Irã desde a Revolução Islâmica de 1979, especialmente nos últimos tempos, quando as liberdades civis sofrem (mais) retrocessos.

Esse cenário está presente em Rehearsals for a Revolution (2026), assim como o filme anterior de Ahangarani, Taraneh (2025), que documentava a vida da atriz iraniana Taraneh Alidoosti  no movimento “Mulheres, Vida, Liberdade”, o qual prega a rejeição ao uso obrigatório do véu.

Vencedor do principal prêmio para documentários no Festival de Cannes deste ano, o L’Œil d’or, ou Golden Eye, Rehearsals for a Revolution/Ensaio para uma revolução ainda não tem distribuição em salas no Brasil, mas a Sony Pictures Classics já comprou os direitos de streaming. O Irã nunca sai de interesse, e agora em função da guerra EUA X Irã, talvez o foco vá para outro tema, mas o país sempre desperta atenção.

Em “Rehearsals for a Revolution”, Pegah Ahangarani parte da própria família para reconstruir décadas de transformações políticas no Irã.

Filha de um diretor e de uma atriz, Pegah Ahangarani foi presa em 2009 após a conturbada reeleição de Mahmoud Ahmadinejad. Ela defendia o candidato da Frente Reformista, Mir-houssen Mussavi. Depois foi presa novamente e os motivos já nem importam mais. Fazer oposição no Irã é ganhar um passe direto para a cadeia. 

Num país tão convulsionado, é natural que Pegah Ahangarani tenha se debruçado na história de sua família. Ela se concentra nas histórias de seus pais e outros familiares, como um tio,  justamente no período de 1979 a 2026. Tanto a cronologia quanto a apresentação dos personagens são um tanto confusas. São muitos fatos, muitas perseguições e prisões utilizando material de arquivo. Embora haja o facilitador do uso da narração, mesmo para quem conhece um pouco a história contemporânea do Irã, às vezes a cronologia e a identificação de quem é quem fica embaralhada. Por exemplo, há um episódio de suicídio importante, pois ligado a um herói da guerra Irã-Iraque (1980-1988), que corre o risco de se perder. Herói desta guerra, o personagem virou opositor ferrenho ao regime ao perceber os rumos da revolução. Sua decepção é um ponto alto da narrativa de Ahangarani, não só pelo vínculo familiar, como para representar uma lógica de acontecimentos históricos no Irã. 

No filme de Ahangarani, imagens de arquivo familiar se encontram com registros das manifestações e ajudam a construir uma memória política do país.

A reflexão não está expressa diretamente no filme, mas basta juntarmos os fatos. Se na década de 1980 o Irã reforçou as bases da revolução comandada pelo líder supremo Aiatolá Khomeini recém iniciada, atualmente outra guerra clama pelo sentimento nacionalista dos iranianos, desta vez com o arqui-inimigo Estados Unidos. O nacionalismo, assim, tem sido um fator de união do povo iraniano, juntando progressistas e conservadores, jovens e velhos. O regime usa as guerras para se manter. Para a lógica funcionar, naturalmente o inimigo precisa ser consensual. Não seria possível imaginarmos que em uma guerra, digamos, onde seríamoss atacados pelos Estados Unidos, teria a mesma adesão. Nem toda população seria nacionalista para defender o Brasil. 

O nacionalismo no Irã é arma de guerra. Pessoas mais conscientes como Pegah Ahangarani, têm visão crítica deste jogo e não encontram melhor alternativa se não o exílio. Até porque, os artistas são os primeiros que pensam e os primeiros que sofrem censura e perseguição. 

Em Rehearsals for a Revolution, o arquivo familiar ganha dimensão histórica ao registrar a transformação de um país.

O ponto de vista da diretora e sua família precisa ser contextualizado também. Se ela conseguiu fazer um filme com boa parte do material de arquivo da sua própria família, é em razão do pai ser cineasta e registrar a infância dela e os acontecimentos políticos com habilidade, incluindo as imagens que ela própria capta entre uma manifestação de rua e outra. O ingrediente pessoal deste relato tem assim uma construção de imagens poderosa. 

Marjane Satrapi, recentemente falecida após longo período de depressão, fez um registro à sua maneira através da animação (e dos quadrinhos) Persépolis (2007). A narrativa em primeira pessoa, que pode ser chamada de autoficção, tem sido um importante documento para abordar regimes autoritários. E há já uma grande diversidade de diretores no Irã que escolhem esse caminho, de Tahmine Milani, até Satrapi, passando por Ahangarani, até Jafar Panahi. Todos erguem peças para montar a memória de um país e de um tempo histórico.

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