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Livro: Conversas com Scorsese

A construção de um gênio

Por Luiz Joaquim | 27.12.2011 (terça-feira)

Em época de febre por presentes natalinos, aquele amigo secreto que gosta de cinema certamente abriria uma sorriso largo ao rasgar o pacote e ver metade da face de Martin Scorsese, que em 2012 completa 70 anos, estampando a capa do livro “Conversar com Scorsese” (Cosaf & Naif, 520 págs., R$ 89), de Richard Schickel, que foi crítico de cinema da Life e Time por 43 anos.

A brochura é derivada direta de um documentário feito por Schickel em 2004, “Scorsese Sobre Scorsese”, a respeito de sua carreira mas que, pela proximidade do autor com o cineasta, ultrapassava questões técnicas e entrava por aspectos da vida pessoal do entrevistado. Na verdade esta característica é mais marcada na primeira metade do livro.

Como profundo conhecedor de cinema que é, Schickel encontra um interlocutor a altura (e vice-versa). Como diz o próprio jornalista na Introdução: “Todo mundo sabe, pelas aparições de Marty na televisão e em DVDs, que ele é um orador explosivo, cheio de livre assocações sobre filmes”.

De fato, nos capítulos iniciais, quando Schickel aborda a infância do menino asmático no bairro Little Italy em Nova York, que morava na Elizabeth Street e chegou a estudar num seminário porque queria fugir da violência que presenciava nas ruas, o que vemos ali é já o germe do cineasta adulto.

Já aos 8 anos, Marty “desenhava filmes” em papel. Na verdade era uma espécie de storyboard em que criava uma história, geralmente bíblica ou um épico romano, com situações em vários cartãos que iam sendo puxados um a um para a plateia solitária de um único amigo. O hábito de rabiscar todos os planos do filme acompanha Scorsese até hoje. Foi essa mania que garantiu a ele, bem mais na frente, dirigir “Sexy e Marginal” (1972) para o lendário Roger Corman que quando viu os desenhos que Marty tinha feito a partir do roteiro, disse-lhe: “O filme é seu”.

Nos capítulos seguintes – “Cortes e Ângulos”, “A Conexão Ford” e “Washington Square” – o papo continua na influência do violento bairro onde ele foi criado, nas idas aos cinemas para refurgiar-se do mundo onde não encaixava e no crescente fascínio pelo cinema, primeiro, norte-americano (com forte destaque nos western de John Ford e nos dramas de Elia Kazan), e depois mundial.

É nesse ponto onde a conversa, em comentários rápidos, ora do autor, ora do entrevistado, parece um só. Se confundo num mar de referências cinematográficas, citando um sem-fim de filmes para expressar uma passagem da vida do ítalo-americano. Por esse mesmo processo, só quase duas décadas depois é que Marty percebeu que “Caminhos Perigosos” (1973) o filme que o lançou para o sucesso (e junto com ele Robert De Niro), falava mesmo era da relação conflituosa entre seu pai e seu tio.

A partir daí, Schickel começa a dividir os capítulos de maneira mais pontual, seguindo a cronologia dos filmes do cineasta. Aqui o entrevistado diminui o fluxo de referências fílmicas para revelar as idiossincrasias de suas produções sem esquecer alguns de seus martírios pessoais.

Sabemos que foram seis longos e tortuosos anos do primeiro longa “Quem Bate a Minha Porta?” (1967) até chegar a “Caminhos Perigosos”. Um projeto que acalentava desde a época de estudante na Universidade de Nova Iorque e que só ganhou força após o conselho de um de seus ídolos, John Cassavetes.

Sabemos de sua crise após “Táxi Driver” (1976), e de sua temporada frustrada quando mudou-se para Califórnia numa tentativa de inserir-se em Hollywood e querer inventar uma forma de filmar com improviso uma super-produção de um grande estúdio, “New York, New York” (1977). Ou ainda de sua entrega a dependência química que, se não fosse pelo amigo De Niro visitando-o no hospital, teria caído numa ruína talvez definitiva.

Scorsese estava numa grande crise emocional quando De Niro insistiu e persistiu para que ele filmasse a história do boxeador Jake LaMotta naquela que resultou ser apontada por muitos como sua obra-prima: “Touro Indomável” (1980).

Daí em diante, é sempre fascinante perceber as relações que Scorsese, ou Schickel, faz entre um filme ou outro ou com a própria vida do diretor. É caso de “”Vivendo no Limite” (1990) com “Taxi Drive” e “Depois de Horas” (1985); ou “Cassino” (1995) com “Caminhos Perigoso”; ou o ambiente de “A Época da Inocência” com o ambiente de “Os Bons Companheiros”; ou ainda a relação do lider espiritual Dalai Lama com a vida do próprio Scorsese, em “Kundun” (1997).

Como um compadre, Schickel abre o capítulo assim: “Eu vi muito de você na infância do Dalai Laima – o menino observando a vida através de um telescópio é como você em sua escada de incêndio observando a vida da rua, em Elizabeth Street”. Ao que o outro compadre responde: “Isso me interessou muito”. Ao final desse bate-papo, o difícil é não querer (re)ver todos os filmes do baixinho ítalo-americano de fala nervosa.

SERVIÇO
Conversas com Scorsese, de Richard Schickel
Cosac & Naif, 2011, 520 págs.
R$ 89,00

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