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Reportagens

Revista do Cinema Machadense

Carta de amor, em forma de revista, aos cinemas de uma pequena cidade mineira

Por Luiz Joaquim | 18.05.2026 (segunda-feira)

– na foto acima, imagem de 1974 do então Cine Vogue (antigo Cine Limeira) e a capa de revista machadense

Um dos movimentos mais nobres que qualquer ser humano pode fazer na vida é a prática do respeito à sua história, ao passado que o forjou. Vindo lá de Minas Gerais, do município de Machado – a cerca de 380 quilômetros de Belo Horizonte, ao sul do Estado – chegou aqui no Recife, na sede do CinemaEscrito, um exemplar (de uma tiragem de mil unidades) da 2ª edição da Revista do Cinema Machadense. A publicação impressa, com suas 36 páginas, é um documento tocante, ainda que jornalisticamente modesto, no que concerne a reverência ao passado.

Carlos Roberto de Souza

Fruto de um solitário projeto idealizado por Carlos Roberto de Souza e realizado graças à Lei Aldir Blanc, a revista é um comovente exemplo de como um incentivo público pode ser vital para disseminar pelo mundo uma cultural local.

Machado, com seus 39.000 habitantes, não é exatamente uma cidade referência na história do cinema brasileiro. O município mineiro é mais um exemplo, entre centenas de outros no Brasil, que viveu uma relação intensa de amor entre sua população e o cinema ao longo do século passado – sendo as salas de cinema o epicentro desse eterno terremoto emocional.

O que diferencia os ‘causos’ das salas de cinema de Machado das histórias similares vividas em outros pequenos municípios do País é exatamente o que os une: são as suas particularidades. São seus personagens, a arquitetura dos cinemas, seus idealizadores, seu auge, sua decadência. Na revista, vemos tudo isso com as cores e os tons próprios de Machado.

É esse o desenho que Carlos Roberto quis imprimir na Revista. E conseguiu.

Na apresentação da publicação, o editor conta: “De 1911 a 2024, a cidade de Machado (MG) presenciou inúmeras salas de cinema surgirem e desaparecerem. Esta revista veio, não só pra contar essa trajetória como também para registrar os aspectos de uma sociedade que foi mudando ao longo do seu percurso”.

De fato, nota-se no trabalho de Carlos Roberto, primeiro uma espécie de homenagem in memoriam a um parente próximo, Odair Gomes de Souza (seu pai?), mas também um esforço tocante em tentar trazer o máximo de contextualizações sociais e econômicas para traçar a linha histórica das salas de cinema de Machado.

Começa lá em 1911, com o Ideal Cinema e o Cine Monteiro, de 1913. Passa pelo Bijou Cinema, de 1916, não esquecendo de comentar sobre as personalidades por trás desse trabalho. Não apenas os empreendedores mas também os artistas que, à época do cinema silencioso, animavam as sessões tocando piano.

Uma dessas pianistas era Maria Azevedo (Dona Mariinha), cujo pai, Vidal Azevedo, emigrante da Ilha dos Açores, fundou em 1928 o Cineteatro Iris.

Não menos importante é a história do projecionista do Cine Glória, de 1933, Seu Oliveira, que tinha como ajudante a sua espoa Erycina. Era Oliveira quem também ia buscar as latas dos filmes na Distribuidora Santa Cruz, em Soledade de Minas (MG). Estes dois pequenos heróis anônimos, que fizeram a felicidade de tantos machadenses nos anos 1930 – entre tantos outros ao longo do século 20 – provavelmente não seriam lembrados (ou difundidos) se não fosse pela iniciativa de Carlos Roberto de Souza com esta sua Revista.

Erycina e o marido, o projecionista Oliveira. Anos 1930

A fase áurea dessa relação de amor com o cinema em Machado iniciou com a construção da maior e mais marcante sala da cidade: o Cine União, inaugurado em setembro de 1941 pelas mãos do empresário Luís Alberto Madeira. O nome do cinema surgiu de um concurso bolado por Madeira o filme que abriu o União foi Parada da primavera (Spring Parade, 1940), um romance musical de Henry Coster. Naquela época, o União costuma exibir filmes da Metro-Goldwyn-Mayer e da Paramount, cujas cópias vinham de Taubaté (SP).

Não apenas o Cine União, localizado na principal praça do município, virou uma referência em Machado, como também os outros comércios – sorveterias, bares, restaurantes – que ocuparam as dependências no térreo do prédio ao longo do século, foram responsáveis por pautar a sociedade machadense.

O cinema, entretanto, foi mudando de administração em muito pouco tempo de atividade. Já no final de 1942, o novo proprietário da sala, Sr. Euclydes Souza Dias, o rebatizou de Cine Teatro Vitória. Três anos depois, 1945, o prédio foi arrendado para o libanês Simão João Bacha, e mudou o nome da sala para Cine Limeira – o nome mais marcante da sala e que perdurou até 1973.

Sessão no Cine Limeira, provavelmente anos 1950

Naquele ano, a Distribuidora  de Filmes Cruzeiro S.A. vendeu o Limeira para a Cinematográfica São Lourenço. O novo proprietário, Fernando de Oliveira Costa, promoveu uma reforma não apenas no cinema mas no prédio por completo. O auditório agora, com poltronas confortáveis, possuía capacidade para receber 422 espectadores e seria identificada pelo nome de Cine Vogue. Nome um tanto esquisito para gerações de Machado que já estavam acostumadas, há quase 30 anos, com o nome ‘Limeira’.

O Vogue funcionou sob várias coordenações  até 1993 – com um intervalo fechado entre 1983 e 1985. Já pertecendo a empresa ‘Comercial Souza’, após 2 anos, em 1995, a construção teve seu teto desabado. E, como bem diz o editor da revista, aquele desabamento melancolicamente “enterrou 55 anos de sorrisos e lágrimas”.

Cine Vogue em imagem de 1974

Nove anos depois, em 2004, era inaugurado naquele mesmo local o Machado Shopping, funcionando até hoje. Um último suspiro cinematográfico surgiu no local pelas mãos do empreendedor Silvio Gutirrez Brittis, que abriu no shopping uma pequena sala batizando-a de Cine-Art-Café.

Pelos seis anos seguintes, até 2010, a salinha foi responsável por apresentar aos Machadenses os lançamentos da Warner Bros., Columbia, Universal, Fox, Paramount entre outras distribuidoras majors, tornando a cidade sintonizada com as novidades mundiais do cinema.

Só em 2021, conforme consta na Revista, vereadores de um mandato coletivo reabriram o espaço, promovendo exibições mensais para escolas e abrigando o auditório para eventos, apresentações musicais, seminários, etc. Atualmente, desde 2024, a sala funciona como sede municipal da Associação Coletivo Operante.

Auditório do Cine-Art-Café

E assim a Revista do Cinema Machadense dá conta da história das salas de cinema daquela comunidade. Há uma diversidade de outras curiosidades neste material volumosamente ilustrado com fotos em Preto & Branco – um pouco confuso do ponto de vista da diagramação, é verdade – mas, ainda assim, bastante estimulante e, quem sabe, inspirador para novos audaciosos que  possam bancar a abertura de uma nova sala de cinema em Machado.

Quem dera todo município brasileiro tivesse um  ‘Carlos Roberto de Souza’ para honrar histórias tão bonitas com relação ao cinema local em uma publicação e deixar registros como os de Machado.

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