
79ª Cannes (2026) – Fatherland
Thomas Mann em torno de imperativos morais
Por Ivonete Pinto | 16.05.2026 (sábado)
A competição oficial nos brindou com Sandra Hüller, sinônimo de filme bom. Às vezes, muito bom. É o caso de Fatherland (PL, DE, IT, FR, 2026), que já tem título em português, A Terra do Meu Pai, significando que será lançado logo no Brasil, ao menos em alguma plataforma, mesmo que o preto e branco da sua fotografia possa afastar espectadores pouco refinados.
Enquanto a maioria dos filmes sobre a Segunda Guerra se passa durante os conflitos, o contexto aqui é o de pós-guerra, em 1949, na Alemanha. Após uma longa conversa ao telefone de um personagem que não sabemos quem é, nem com quem fala, vemos imagens de Frankfurt sendo reconstruída. Um carro percorre uma longa rua ladeada por edifícios ainda em destroços, levando o escritor alemão e Prêmio Nobel de Literatura Thomas Mann (Hanns Zischler) e sua filha Erika (Sandra Hüller). Eles chegam à cidade, então zona de ocupação norte-americana, para uma homenagem ao autor, que se exilou nos Estados Unidos durante a ascensão do nazismo.
O homem ao telefone na primeira cena é Klaus (August Diehl), filho de Mann. Como os dados são biográficos, não há spoiler em dizer que, por mais que a irmã o espere para a homenagem, ele não vai aparecer. Ele se suicidou.
O diretor polonês Pawel Pawlikowski (Ida, entre outros) conseguiu o feito de concentrar uma história complexa em apenas 82 minutos. Isto porque opta por um recorte pontual: trata da volta de Mann à Alemanha e das cobranças que os alemães fazem a ele. Jornalistas o questionam: por que não ficou no seu país e ajudou a combater o nazismo? Ele simplesmente responde: se eu tivesse ficado, não estaria aqui falando com vocês. A chaga da culpa dos alemães nunca terá fim.

Na estreia de Fatherland, no Festival de Cannes: Lukasz Zal, diretor de fotografia do filme; Hanns Zischler, que interpreta Thomas Mann; o diretor Paweł Pawlikowski; Sandra Hüller, no papel de Erika Mann; e August Diehl, como Klaus Mann.
No calor da situação em que o filme se passa, os personagens ainda convivem com os efeitos imediatos da guerra, inseridos numa sociedade em reconstrução. O filme ilustra o desconforto absoluto daquele momento, quando adentra a homenagem o ator Hendrik Hofgen, o Mefisto que vendeu a alma ao regime. Acontece que ele foi casado com Erika, o que torna tudo mais complicado. A bofetada que ela dá no rosto dele vale uma tese.
Não podemos esquecer do emblemático caso de Martin Heidegger, que trabalhou para o regime de Hitler e acabou sendo defendido (ou compreendido) por ninguém menos que Hannah Arendt, autora de Eichmann em Jerusalém. Essa história não está no filme, surge aqui apenas para demonstrar que as relações não podem ser simplificadas, mesmo que optar por um lado seja condição moral imperativa. Isso também é discutido na narrativa.
O filme é recheado de diálogos filosóficos. A personagem que mais contribui nesse sentido é a Erika vivida por Hüller. Com essa personagem, ela oferece duas faces de uma mulher. Se pensarmos que, em Zona de interesse (2023), ela defendeu a esposa do diretor do campo de extermínio de Auschwitz, temos em Fatherland uma visão do outro lado.
Enfim, Fatherland traz questões atuais, que evidentemente podem e devem ser estendidas para a guerra abominável de Israel contra os palestinos. Não se enganem com o preto e branco de Fatherland, há mais nuances naquelas tintas.















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