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Festivais

79ª Cannes (2026) – Hope

Arrasa-quarteirão sul-coreano aristotélico

Por Ivonete Pinto | 18.05.2026 (segunda-feira)

— Este texto contém spoilers

Quando se trata de série e filme de gênero, a Coreia do Sul tem sido uma referência incontornável. A seriedade com que o país investe no cinema em geral pode ser vista em Cannes com as delegações enormes, inclusive com equipes de jornalistas da TV estatal plantadas na saída dos cinemas entrevistando espectadores para saber o que acharam do produto coreano.

Cannes tem sido o grande teste de audiência da produção sul-coreana desde Old Boy (2003), quando Park Chan-wook ganhou o Grand Prix em Cannes. Park também venceu o prêmio de Melhor Direção em 2022 por Decisão de Partir e este ano é o presidente do júri, coroando uma carreira e sua associação com Cannes. Ontem à noite foi a estreia no Grand Theatre Lumière, a maior sala do Palácio dos Festivais, do arrasa-quarteirão Hope (KOR, 2026), de Na Hong-Jin (O Lamento, 2016). Filme de monstro, filme de alien, filme para adolescente, a previsão de seu sucesso é certa.

Hope mistura filme de monstro, invasão alienígena e catarse calculada para confirmar a força do cinema sul-coreano de gênero diante de Hollywood.

Apesar dos cansativos 160 minutos de duração, a plateia aplaudia em cena aberta cada vez que os policiais vintage da aldeia de idosos, Hope, conseguiam estraçalhar um monstro, como se o pequeno país sul-coreano estivesse combatendo Hollywood. E vencendo. Os protagonistas são o corajoso chefe do posto policial local, Bum-seok, e a intrépida policial Sung-ae. Enquanto defendem a aldeia nas montanhas, os moradores locais que partiram para rastrear os invasores acabam sendo caçados. Em meio as intermináveis perseguições, perguntam-se, afinal, quem são esses invasores. Alienígenas? Sim, alienígenas. Com isso, fica fácil saber o que Michael Fassbender e Alicia Vikander fazem no filme, já que por sul-coreanos eles não passam. O espectador que só descobre a presença dos atores nos créditos finais ganha uma surpresa e mais um motivo para aplaudir.

Afora as bobagens de sempre neste tipo de filme, dá para fazer uma análise um pouco mais séria – além da que envolve Hope como um produto de mercado poderoso, há um famoso que não está nos créditos, mas dita as normas do roteiro: Aristóteles.

Se em Oldboy a tragédia grega dava sentido à violência gráfica, em Hope os momentos de catarse surgem em doses calculadas, capazes de impactar qualquer plateia. A identificação, no caso, com a raça humana, fica garantida com o sentimento de medo dos alienígenas e com o elemento sagrado da gravidez. Um bebê deles tem o mesmo efeito que um bebê humano na nossa psiquê relativa à continuidade da espécie. Nada que Ridley Scott em Alien, o Oitavo Passageiro (1979), já não tenha feito. É citação ou plágio? Não importa. Para a indústria de entretenimento sul-coreana, precisa só funcionar.

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