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Festivais

21. Tiradentes (2018) – “Aurora” e “Foco” 1

Sobre “Madrigal para Um Poeta Vivo”, o curta “Estamos Todos Aqui” e outros

Por Luiz Joaquim | 23.01.2018 (terça-feira)

na foto de Jackson Romanelli/Universo Produção, exibição de Madrigal para um poeta vivo.

TIRADENTES (MG) – A noite de segunda-feira (22) abriu o programa Aurora deste 21a Mostra de Cinema de Tiradentes com Madrigal para um poeta vivo, de Adriana Barbosa e Bruno Mello Castanho. Desdobramento do curta-metragem Ferroada (2017) o qual apresenta o escritor Tico (1959-2015) como também um trabalhador em um cemitério paulista – sendo esta, no curta, a primeira informação distinta de um habitual filme “sobre escritor”.

Ferroada já continha uma força própria em função da figura libertária, atormentada e ao mesmo tempo envolvente de Tico, tanto pela pujança do seu trabalho literário (salpicado ao longo do curta), quanto pela sua postura indomável, que não se deixa dobrar a nenhum tipo de autoridade.

No debate de hoje, o diretor Bruno Mello destacou que vê os dois filmes em movimentos distintos. Ënquanto o Ferroada vai da vida para a morte, o Madrigal… vai da morte para a vida”. A observação tem a ver com o fato de que o longa traz em uma das suas primeiras informações o sepultamento do personagem e segue ressaltando a vida e a eternização de sua arte pelos seus livros. Já no curta, a obra do artista está sob a primeira luz e aos poucos vamos entendendo que o personagem caminhou para o fim da vida, determinada por ele próprio.

No debate ocorrido nesta manhã houve uma divisão de opiniões sobre uma eventual proposição do longa-metragem em fugir da natureza mais anárquica do ponto de vista narrativo tal qual foi conferida em Ferroada (e por conseguinte, mais distante do espírito do cinebiografado). Leituras do longa como um produto próximo a algo jornalístico também foi trazido neste encontro da Mostra.

De um modo geral, o conceito estabelecido no debate pela plateia foi o do “filme que gostaríamos de ter visto”, com poucas intervenções realmente concretas a respeito das potências existenciais que o filme estimula.

CURTAS – Assim como o programa Aurora, iniciou também ontem o programa competitivo de curtas-metragens, chamado Foco. Ele foi inaugurado exibindo quatro trabalhos: O paulista Estamos todos aqui, de Chico Santos e Rafael Mellin; o mineiro Iara, de Erika Santos e Cássio Pereira dos Santos; o pernambucano Peito vazio, de Yuri Lins e Leon Sampaio; e o paulistano Outras, de Ana Júlia Travas.

E ainda que restem a serem visto seis, de um total de dez filmes que compõem a Foco, ontem ficou claro que será difícil bater Estamos todos aqui.

Cena de “Estamos todos aqui”.

Protagonizado pela jovem trans Rosa Maria de Luz (infelizmente ausente na Mostra), o que temos no curta é uma combinação que se encaixa como uma luva no tema da Mostra – “Chamado realista”-, além de ritmo, direção, intepretação, fotografia, trilha sonora, representatividade e algo mais, tudo em absoluto estado de graça.

A própria figura de Rosa é um acerto. Ela que foi expulsa de casa pelos pais e aparece numa corrida constante para levantar seu barraco no mangue da Favela da Prainha, na milionária zona portuária de Santos (SP), enquanto que esta mesma comunidade luta para não ser despejada pela expansão do Porto.

Rosa tem uma presença na tela de elegância e postura impressionantes, sobretudo pela altivez e combatividade, lutando não apenas contra a condição social mas contra o preconceito. E essa determinação e urgência parecem impressas no filme em cada fotograma, que é também impulsionada pela edição. É uma montagem que já hipnotiza o espectador antes que o cronômetro atinja o primeiro dos 21 minutos de sua duração total.

O que o cinema da dupla Chico e Rafael alcançou aqui foi a mais precisa pretensão que um filme pode ter. A de fazer o espectador imergir naquela circunstância e nos fazer sofrer pela dor sua heroína. Nesse sentido, seu título – Estamos todos aqui – é também mais um outro acerto pela leitura inclusiva que oferece. Filmes assim são os que têm a força de mobilizar (ou de pelo menos fazer despertar) para um problema urgente.

O contrário parece acontecer com o documentário Outras, de Ana Júlia Travia, que dá voz à mulheres de diferentes classe e etnia para denunciar sua condição de oprimida na sociedade. São todos depoimentos valiosos, necessários, legítimos, urgentes, mas a estrutura de Outras não dá a dimensão de todos estes sentimentos por uma estrutura quase burocrática e, por consequência, confusa.

Gravidez na adolescência, estupro, racismo contra a mulher negra – temas extremamente caros e duros, portanto – são abordados rapidamente e parecem esperar na estrutura do filme que, por si só, estabeleçam seu preço e dureza junto a plateia, mas sem um esforço cinematográfico maior do próprio curta-metragem.

Resultou aqui, portanto, na reiteração do tema (e eles precisam ser reiterados). O tema, entretanto, parece precisar de mais obras que nos coloquem “dentro” da dor dos personagens (como Estamos todos aqui), e não fazer do espectador alguém que apenas escute queixas, acreditando que isso seja o suficiente para fazer mudar algo dentro dele. As questões abordadas por Outras nunca foi e nem é simplório e, embora todo registro nesse sentido seja indispensável, seria muito valioso – pela necessidade imediata de combater tais injustiças – que sua representação cinematográfica fosse tão potente quanto a própria causa.

O tema “Chamado realista” também veste bem em Peito vazio, de Yuri e Leon. O filme pernambucano parte do sofrimento de um jovem largado pela namorada que tenta seguir em frente diante de uma realidade social em frangalhos, seja pela tensão da iminente desapropriação numa comunidade em Jaboatão dos Guararapes (PE), seja pelo estado político caótico que se passa no Brasil de 2017. Melancolias – legítimas – se entrecruzam aqui e faz Peito vazio dialogar com um outro curta, o paulista Os cuidados que se tem com o cuidado que os outros devem ter consigo mesmo (2016), de Gustavo Vinagre. Já o filme iara, foi o único do programa que se conduzia dentro de um universo fabular para falar de uma relação maternal com extrema delicadeza visual e particularmente sonora.

Durante a tarde de ontem (22), o programa Panorama 3, O filme O olho e o espírito, da pernambucana Amanda Beça, brilhou com seu experimentalismo. Na apresentação da sessão, Amanda contou que vê o filme hoje com outros olhos e, de fato, seu trabalho tem esta disponibilidade de transformar-se a cada nova vista uma vez que a cidade do Recife é um personagem aqui, mas apresentado pela gramatura e “imperfeições” do formato Super-8. A ideia da temporalidade aqui vai para o espaço exatamente pela carga simbólica na impressão do Super-8 em P&B. É como se o filme de Amanda sempre tivesse existido. Como se o Recife ali visto não fosse o de poucos anos atrás, mas sim o de qualquer ano do século passado. Há ainda o exercício simbólico das cores artificias e suas disposições no quadro, além de uma trilha sonora que funciona bem, num casamento vital para o bom resultado final.

*Viagem a convite da Mostra

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