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Críticas

Corpo Fechado

Shyamalan não acertou o alvo no segundo tiro, e a crítica estava atenta

Por Luiz Joaquim | 11.05.2018 (sexta-feira)

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– publicado originalmente em 22 de Janeiro de 2001 no site Tô na boa

Ficar na boa, em qualquer situação prescinde bom gosto ao afável, perspicácia para detalhes e sensibilidade com as sutilezas; e é justamente por esses predicados que você veio parar nesta página. É também seguindo esses preceitos que a coluna de cinema do Tô na Boa! vai seguir sua trilha a partir desta segunda-feira (22.jan.2001). A ideia aqui é fazer um lúcido plano aberto (e, por vezes, um fechado) das novidades exibidas nas salas de cinema de Pernambuco. Eventualmente, a coluna, sugere a boa para o seu videocassete ou DVD, e ainda lembra qual a ótima nos canais pagos de TV.

Venderam Corpo Fechado (Unbreakable, EUA, 2000) aos brasileiros como o primeiro grande filme de 2001. Ele não o é. Ele é apenas o longa de M. Night Shyamalan que veio na seqüência do megassucesso O Sexto Sentido (The Sixth Sense). Além da própria pretensão de Shyamalan, um bicho de sete cabeças que atende o nome de ‘marketing’ é um importante responsável pela sensação de desapontamento que se segue ao final do filme, em cartaz em cinco salas no Recife.

Mas antes do final, Shyamalan dá bons momentos de prazer nas poltronas do cinema. Apesar da bossa brega nas legendas que tomam a tela nos primeiros segundos da projeção (com dados estatísticos sobre gibis no mundo), o cineasta capricha na segunda seqüência (a da paquera no trem) e, em pelo menos duas outras revela que sabe usar uma Panavision para o bem. A tensão realmente vem quando o garoto Spencer Treat Clark – de O Gladiador – sustenta uma arma, e quando Bruce Willis persegue silenciosamente um psicopata.

Willis é David. Um segurança frustrado, em vias de separação da esposa Audrey (Robin Wright Penn). Numa viagem de trem, ele escapa ileso de um acidente cujo estrago matou a todos. Isso nem mexe tanto com a cabeça do rapaz amuado, até que aparece Elijah (Samuel L. Jackson), o proprietário da Edição Limitada – uma galeria especializada em obras na arte das histórias em quadrinhos. Elijah começa a incutir na cabeça do sobrevivente que David é seu oposto. Ou seja: enquanto os cálcios nos ossos de Elijah são mais escassos que boas idéias em roteirista hollywoodianos, os de David parecem ter sido substituído por titânio, como os de Wolverine. E por serem os extremos da raça, ambos são especiais. Se você comprar essa idéia, possivelmente sai 100% satisfeito do cinema. Se não…

O fato é que Shyamalan acertou o alvo, ao deixar na memória do planeta, a imagem do menininho desamparado dizendo “Eu vejo pessoas mortas” em O Sexto Sentido. E errou querendo fazer o mesmo planeta acreditar no improvável vaticínio pregado por Samuel L. Jackson: “131 pessoas morreram para você descobrir seu destino”. Aí já é um pouco demais.

Estão dizendo que a imaturidade da pouca idade de Shyamalan (30 anos) é um explicador para a solução fácil de seu último filme. Se assim fosse, como entender que outro jovem – P. Thomas Anderson (31 anos) – que também depende da grana de Hollywood, seja o responsável por dois dos melhores trabalhos (Boogie Nights e Magnólia) na década de 1990 nos EUA? E aí tem um detalhe: em seu segundo longa, se vê mais maturidade que no primeiro. O que não acontece no enredo no filme do indiano (Shyamalan) mais querido da América. Antes de entrar no cinema, é bom saber que O Sexto Sentido é genial perto de Corpo Fechado; e que Corpo Fechado é só uma balela bem filmada perto de O Sexto Sentido.

Mais cinema, vídeo e o melhor da TV – Quem já enjoou de ouvir falar de Corpo Fechado, só tem como opção de estréia Little Nicky – Um Diabo Diferente (Little Nicky, EUA, 2000). Uma comédia de US$ 100 milhões, dirigida por Steven Brill, com Harvei Keitel, Adam Sandler, Patrícia Arquette, e pontas de Quentin Tarantino e Roger Dangerfield (lembram dele em De Volta às Aulas? Com os olhos esbugalhados naquele filme bem oitentão?). Aqui Keitel é o coisa-ruim e Sandler seu filho mais novo que vai a Manhattan impedir que os dois irmãos mais velhos transformem a Terra no próprio inferno, o que anularia a matriz lá nas profundezas.

O Cinema da Fundação traz de volta Alta Fidelidade (High Fidelity, EUA, 2000), de Stephen Frears, e continua com o pos-Dogma95 Dançando no Escuro (Dancer in The Dark, Dinamarca, 2000), de Lars Von Trier. Uma boa idéia antes de assistir Dançando…, seria ir na locadora e alugar o pré-Dogma95 Ondas do Destino (Breaking The Waves, Dinamarca, 1996), do mesmo Von Trier. Assim fica mais fácil distinguir quem é a santa mais precisa criada pelo cineasta nórdico: se Björk ou Emily Watson.

Na TV, a bom gosto da semana está sendo exibido às 20h da quinta-feira (25.jan.2001) no Canal Brasil (Net/Sky). Trata-se de São Paulo S/A (Brasil, 1965). Clássico nacional de Luís Sérgio Person (o pai da Marina Person, da MTV), com Walmor Chagas interpretando o inspetor de uma indústria automobilística que não suporta o ritmo alucinante da vida que leva. Fazendo de São Paulo um personagem presente no filme, Person descreve suas criações de forma notável e faz de São Paulo S/A um das produções mais memoráveis na história do cinema nacional.

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