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Críticas

51. Festival de Brasília – Programação

A edição acontecerá de 14 a 23 de setembro

Por Renata Malta | 09.08.2018 (quinta-feira)

– Acima foto do filme Domingo de Clara Linhart e Fellipe Barbosa

– com informações da assessoria 

Depois da celebração de seus 50 anos de existência, o evento que há mais tempo se dedica aos movimentos estéticos e políticos do cinema brasileiro chega à sua 51ª edição entre 14 e 23 de setembro de 2018. Sob a direção artística de Eduardo Valente, e realizado em parceria pela Secretaria de Estado de Cultura do Distrito Federal e o Instituto Alvorada Brasil, o Festival de Brasília do Cinema Brasileiro apresenta estratégias que apontam para a ampla inclusão da diversidade na pauta de suas atividades, enquanto lança um olhar muito atento ao mercado do cinema nacional.

Em 2018, o Festival de Brasília mantém a proporção de sua 50a edição, contando com 10 dias de programação e a exibição de mais de 120 títulos do cinema nacional, entre mostras competitivas, paralelas, especiais, hours concours, Mostra Brasília e exibições em outras atividades. A curadoria dos filmes que estamparão a edição vigente do festival aponta para dados de grande relevância.

A diversidade em todas as suas formas de expressão ocupa o centro do debate produtivo do cinema brasileiro e este fator já se traduz em números registrados após a seleção de filmes para esta edição. Pela primeira vez, as diretoras do gênero feminino e/ou identificadas por gêneros não-binários figuram em número mais expressivo do que os diretores de gênero masculino. 52,4% das diretoras são mulheres, 9,5% se inscreveram sob a categoria não-binária (outros) e apenas 38,1% dos selecionados são homens.

á em um quantitativo de equipe de produção do festival, as mulheres são 75% do quadro de trabalho, enquanto os homens figuram entre os 25% da força produtiva do evento. Tais dados traduzem de forma prática a estratégia de se ampliar o escopo de vozes e pensamentos do nosso cinema. Eduardo Valente, diretor artístico do Festival de Brasília, comenta que “a curadoria apenas seguiu a sua missão de encontrar os filmes que acredita mais potentes para o evento, e que o fato de termos mais filmes dirigidos por mulheres entre os selecionados representa tão somente a força do talento das mesmas”.

Neste ano, o Festival de Brasília do Cinema Brasileiro chega a 13 Regiões Administrativas do Distrito Federal. Além de ocupar o cinema que tornou o festival conhecido em todo o Brasil – o Cine Brasília – a programação conta com apresentações simultâneas das mostras competitivas em São Sebastião, Riacho Fundo, Sobradinho e Taguatinga. As atividades formativas ganham as cidades de Planaltina, Guará, Recanto das Emas, Ceilândia e São Sebastião, além do Plano Piloto; e o festival conta novamente com a parceria do Cinema Voador, com programação paralela apresentada nas cidades do Paranoá, Estrutural, Brazlândia, Samambaia e Gama.

Em 2018, recebemos 724 inscrições de filmes interessados em pleitear o Troféu Candango, dos quais foram selecionados nove títulos de longa-metragem e 12 curtas-metragens para as Mostras Competitivas – Curtas e Longas. Entre os longas, estão os documentários “Torre Das Donzelas”, de Susanna Lira (RJ), “Bixa Travesty”, de Claudia Priscilla e Kiko Goifman (SP); e “Bloqueio”, de Quentin Delaroche e Victória Álvares (PE); e as ficções “Ilha”, de Ary Rosa e Glenda Nicácio (BA); “Los Silencios”, de Beatriz Seigner (SP/Colômbia/França); “Luna”, de Cris Azzi (MG); “New Life S.a.”, de André Carvalheira (DF) — que também concorre na Mostra Brasília; “A Sombra do Pai”, de Gabriela Amaral Almeida (SP); e “Temporada”, de André Novais Oliveira (MG).

Os curtas-metragens participantes da Mostra Competitiva se dividem entre oito ficções, três documentários e uma animação. Os documentários são “Liberdade”, de Pedro Nishi e Vinicius Silva (SP); “Sempre Verei Cores no seu Cinza”, de Anabela Roque (RJ); e “Conte Isso Àqueles que Dizem que Fomos Derrotados”, de Aiano Bemfica, Camila Bastos, Cristiano Araújo e Pedro Maia de Brito (PE). As ficções selecionadas são “Aulas que matei”, de Amanda Devulsky e Pedro B. Garcia (DF); “Boca de Loba”, de Bárbara Cabeça (CE); BR3, de Bruno Ribeiro (RJ); “Eu, Minha Mãe e Wallace”, dos Irmãos Carvalho (RJ); “Kairo”, de Fabio Rodrigo (SP); “Mesmo com Tanta Agonia”, de Alice Andrade Drummond (SP); “Plano Controle”, de Juliana Antunes (MG); e “Reforma”, de Fábio Leal (PE). Única animação da Competitiva, “Guaxuma”, de Nara Normande (PE), também concorre ao Candango.

Seguindo inovação da edição 2017 do Festival, todos os filmes selecionados recebem cachês de seleção, distribuídos igualitariamente. Os longas-metragens selecionados recebem R$ 15.000,00 cada; os longas-metragens participantes de sessões Hours Concours recebem R$ 10.000,00; e os curtas-metragens recebem R$ 5.000,00. Além dos cachês de seleção, o longa-metragem escolhido pelo júri popular receberá o Prêmio Petrobras de Cinema, que consiste em R$ 200.000,00 em contratos de distribuição.

Em 2018, o público segue com o poder de eleição do Melhor Filme na categoria Júri Popular. Esta votação é feita através do aplicativo do Festival de Brasília, disponível para download em mobiles. O usuário digita o código impresso no ingresso que dá acesso ao cinema e pode qualificar o filme exibido com uma a cinco estrelas. Para participar, o usuário deve estar em um raio de 400 metros da sala de exibição e a votação só pode ser feita em até quatro horas após o início da sessão.

O Festival de Brasília é conhecido, também, por suas sessões Hours Concours, nas quais títulos de grande expectativa do público costumam abrir e encerrar as atividades do evento. Em 2018, o longa-metragem responsável pela abertura do Festival é “Domingo”, ficção de Clara Linhart e Fellipe Barbosa (RJ). A trama acontece no interior do Rio Grande do Sul, no dia 1o de janeiro de 2003, dia de posse do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Duas famílias do interior gaúcho se reúnem em uma mansão rural para um churrasco, enquanto seus filhos adolescentes, de hormônios à flor da pele, transformam aquela data em um dia transformador. O filme fará sua estreia brasileira no Festival de Brasília, logo depois de voltar de sua estreia mundial no Festival de Veneza, onde será exibido na mostra paralela Venice Days.

Antes da exibição do longa, a abertura reserva espaço para o curta-metragem “Imaginário”, de Cristiano Burlan (SP), filme que se alinha à vocação política do Festival de Brasília e, às vésperas de uma eleição majoritária, faz um apanhado de discursos marcantes sobre a vida política do país desde os anos 1940. Já no encerramento, antes do anúncio dos premiados com o Troféu Candango, o documentário “América Armada”, de Alice Lanari e Pedro Asbeg (RJ) será apresentado. O longa traça um panorama sobre a realidade contemporânea do Brasil ante uma das principais questões contemporâneas: a escalada da violência. Para tanto, o filme parte de alguns personagens marcantes para elucidar paralelos do Brasil com as realidades atuais da Colômbia e do México, investigando de que maneira a presença da cultura e do acesso às armas atinge e modifica as vidas das suas populações.

Criada pelo Festival de Brasília em 2016, a medalha Paulo Emílio Salles Gomes é uma das mais genuínas formas de reverenciar os grandes nomes do cinema brasileiro na programação do festival. Entregue todos os anos a figuras indiscutivelmente importantes para a construção histórica do audiovisual nacional, a premiação é concedida na noite de abertura do festival e já homenageou o diretor Nelson Pereira dos Santos em 2017, e o crítico Jean-Claude Bernardet em 2016. Na 51a edição, a medalha será concedida ao crítico e professor de cinema Ismail Xavier, e a um dos idealizadores do Festival de Brasília e pioneiro da cidade, o arquivista Walter Mello.

Professor Emérito da Escola de Comunicações e Artes da USP, orientado academicamente por Paulo Emílio e Antonio Candido, especialista na obra de Glauber Rocha e um dos colaboradores para a difusão planetária da estética do Cinema Novo no campo acadêmico, Xavier tem textos traduzidos em todo o mundo e será celebrado pela sua contribuição e compromisso com a memória e o futuro do cinema nacional. Ismail Xavier é um dos teóricos referenciais no estudo do cinema brasileiro, tendo em sua bibliografia, entre outros títulos, os fundamentais “O Discurso Cinematográfico: a opacidade e a transparência” (1977), “Sertão Mar: Glauber Rocha e a estética da fome” (1983), e “Alegorias do subdesenvolvimento – cinema novo, tropicalismo, cinema marginal” (1993).

Cidadão honorário de Brasília e idealizador do Arquivo Público do Distrito Federal, Walter Mello também recebe a medalha Paulo Emílio Salles Gomes por sua contribuição ao desenvolvimento do cinema nacional. Arquivista baiano, Mello foi um dos criadores do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro quando ainda se chamava Semana do Cinema Brasileiro e, pelo interesse no cinema, ocupou cargos de júri em importantes festivais, como o de Berlim.

No intuito de celebrar figuras femininas que marcaram o cinema brasileiro, o Festival de Brasília cria, em 2018, o Prêmio Leila Diniz. Embora tenha vivido apenas 27 anos, a presença de Leila no imaginário brasileiro é enorme, tendo sido um exemplo em gestos, ações, palavras e vida da luta pela libertação feminina. No Festival de Brasília, passou como um furacão em 1966 com “Todas as Mulheres do Mundo”. Em um momento marcante, em que muito se discute a presença feminina no cinema e no mundo, num Festival com uma maioria de filmes em competição com mulheres na direção, o prêmio Leila Diniz surge como iniciativa através da qual o evento traz destaque a outras mulheres cujas práticas e trabalhos são fundamentais para o cinema nacional.

Neste ano, o Prêmio Leila Diniz será concedido a duas mulheres de fibra do cinema nacional: Íttala Nandi e Cristina Amaral.  Após importante trajetória no teatro, Íttala estreou como atriz no cinema com “O Bandido da Luz Vermelha”, de Rogério Sganzerla, filme que ganhou o prêmio principal do Festival de Brasília há exatos 50 anos. Além de vários outros papeis marcantes nos palcos, telas e na TV, Íttala também dirigiu documentários e trabalhou como produtora e dramaturga, tendo ainda sido professora e coordenadora de cursos de cinema.

Cristina Amaral aparece como premiada pela sua importância como montadora de cinema, carreira na qual atua há mais de 40 anos. Entre suas parcerias mais constantes e profícuas incluem-se trabalhos com Andrea Tonacci, Carlos Reichenbach e Edgard Navarro. Cristina recebeu inúmeros prêmios, inclusive o Candango em Brasília, por “Sua Excelência o Candidato” e “Alma Corsária”.

Além da Mostra Competitiva e da Mostra Brasília, realizada pela Câmara Legislativa do Distrito Federal para premiar a excelente produção do cinema local, o Festival de Brasília conta com mostras paralelas que conferem grande variedade de títulos do novo cinema nacional. Em 2018, apresentam-se três mostras paralelas: A Arte da Vida, em que os processos criativos dos personagens representados estão mesclados às suas próprias vidas; Onde Estamos e Para Onde Vamos?, seleção de quatro documentários que apontam diferentes aspectos da trajetória que levou o Brasil à encruzilhada político-social em que se encontra; e Festival dos Festivais, com a finalidade de trazer ao público do Festival de Brasília um pouco do que foi lançado em outros eventos cinematográficos em 2018.

O festival também apresenta duas Mostras Especiais de tom competitivo em sua programação: Futuro Brasil e Caleidoscópio. Após grande número de inscrições, seis filmes em processo de finalização foram selecionados para participar da Futuro Brasil, que consiste em mentorias conduzidas por grandes realizadores, profissionais e pensadores do cinema nacional, objetivando possíveis avaliações e indicações de ajustes nos processos finalização. Em 2018, três filmes de São Paulo, um de Minas Gerais, um do Ceará e outro do Rio Grande do Sul compõem a mostra, realizada a portas fechadas no intuito de preservar o ineditismo das obras.

Já a Caleidoscópio surge como um complemento da programação que busca colocar em evidência o mais instigante dentro da tradição que alguém como o escritor e cineasta Jairo Ferreira chamava de “cinema de invenção”. Embora uma das marcas do Festival de Brasília seja uma constante busca pelas expressões mais criativas do cinema brasileiro, frente ao aumento do número de filmes produzidos no país, o espaço das mostras competitivas não se mostra grande o suficiente para a quantidade de obras dotadas de particular inventividade que se inscrevem para o evento. A Caleidoscópio, portanto, busca celebrar e premiar a inventividade no novo cinema nacional.

Ação de grande repercussão em 2017, o Ambiente de Mercado do Festival de Brasília ganha sua segunda edição em 2018, entre 19 e 21 de setembro, angariando ainda mais players e agentes do cinema brasileiro. Com painéis, master classes, conversas com players, aulas abertas, oficinas e clínicas, o Ambiente de Mercado já tornou-se agenda fundamental para o mercado cinematográfico brasileiro, trazendo à Capital grandes canais de distribuição de conteúdo audiovisual nos dias em que acontece. Neste ano, a atividade conta com novidades, entre elas, as rodadas de negócios, o espaço de desenvolvimento local, e as sessões do Ambiente de Mercado, nas quais os canais terão espaço para lançamento de séries e filmes.

Os festivais estudantis, forma de incentivo e inserção da juventude nos processos de criação do cinema, também estão mantidos como estratégia de ampliação do alcance de público do Festival de Brasília. O FestUni – festival universitário, o Festivalzinho e a premiação Curta nas Escolas estão entre as atividades realizadas na programação do evento.

Nos destaques do evento, você confere mais informações sobre as mostras competitivas, paralelas e outras atividades do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, pensado a um só tempo para celebrar as cinco décadas de existência, nas quais foi crucial para o desenvolvimento do cinema nacional, e apontar tendências estéticas, políticas e mercadológicas para o futuro do audiovisual brasileiro

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