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Críticas

Nós

Aquela ideia que poderia ser totalmente brilhante. Poderia.

Por Luiz Joaquim | 28.03.2019 (quinta-feira)

Chegou aos cinemas do Brasil, há uma semana, o segundo filme dirigido por Jordan Peele. Figura celebrada no mundo inteiro em 2017 pelo seu intrigante e bom Corra! Com o título Nós (Us, EUA, 2019), Peele constrói mais um thriller pautado pelo improvável para esfregar na cara do espectador uma disfunção social que é mais do que conhecida e notória e, ainda assim, por existir, nos obriga a viver com ela no dia a dia.

A protagonista em Nós é Adelaide (Lupita Nyong’o, 12 anos de escravidão), uma mulher negra, mãe de família, casada, com uma filha adolescente e um garoto. Eles são ricos assim como é a família vizinha de brancos, que compartilham um veraneio na praia de Santa Cruz, Califórnia (EUA).

É o mesmo lugar onde Adelaide criança, num parque de diversões em 1986, perdeu-se do pai por alguns minutos e foi parar numa casa de espelhos. Lá, a garota tem o primeiro contato com o seu duplo – uma garota idêntica a ela. O duplo é uma criatura que, supomos, vive nos subterrâneos dos EUA uma vez que a abertura de Nós informa, em palavras impressas numa cartela, que existem quilômetros de caminhos subterrâneos naquele país – entre obras do esgoto e do metrô – que não tem serventia aparente.

Corta para o tempo contemporâneo e descobrimos que os duplos de todos os integrantes da família de Adelaide vieram tomar o seu lugar na vida boa da superfície.  Até aí, Nós parece carregado de um discurso cirúrgico com uma força política contra a ideia do capitalismo sendo algo que corrompe a todos – ou, no mínimo, nos dopa, deixando-nos entorpecidos de nossa responsabilidade com os menos favorecidos.

Este poder de corromper afeta, segundo Nós, inclusive os negros. Algo que já foi bem dito pelo nosso Machado de Assis com seu Prudêncio, o escravo alforriado em Memórias póstumas de Brás Cubas que maltratava outros negros; ou ainda, dentro do cinema, podemos lembrar do escravo Stephen (Samuel L. Jackson) em Django livre (2012).

É interessante como a família de Adelaide é representada no filme de Peele, incorporando todos o estereótipos do cinema ao mostrar uma bem-sucedida família de brancos.

Se por um lado essa legitimação e naturalização com a qual o filme de Peele apresenta uma família negra ocupando esse espaço de luxo é muito bem-vinda num filme hollywoodiano, por outro – e aí merece crédito o roteirista, produtor e diretor Peele – é ainda mais bem-vinda a crítica que faz ao negro bem-sucedido que vira as costas para a sua história e para os seus irmãos.

Não à toa, mesmo que em tom de brincadeira, O. J. Simpson é citado em Nós. Sendo ele a maior referência da figura pública negra norte-americana que negou sua origem para chegar a fama e manter-se rico, a estratégia cinematográfica de Peele aqui seria perfeita.

Entretanto, o exercício de horror parece prosseguir mais do que o necessário para marcar o seu ponto político. Acontece quando os duplos da família rica dos brancos também entram em cena. Tal estratégia soa, no momento em que surge no enredo, como uma espécie de refresco justificativo da fraqueza da família negra e rica, que esqueceu dos irmãos pobres (suas sombras, seus duplos). Ou seja, não é um caso isolado, é comum a todos.

Essa crítica – de que é comum a todos – parece óbvia, mas no filme não funciona com contundência como poderia funcionar se ela concentrasse forças para chamar a atenção de um grupo de pessoas que já sofreu (e sofre) demais pela mão dos brancos. E, por isso mesmo, não deve abandonar seus irmãos. É um grupo que não precisa, ainda por cima, sofrer também pela mão dos negros.

Outro resquício negativo disso está no fato de que o recado já estava dado enquanto os duplos infligiam o seu terror contra a família de Adelaide. O terror dos duplos contra a família dos brancos é reiterativo contra o enredo e contribui para empacar o ritmo de Nós.

Por fim, seu fim sugere uma reviravolta impactante, mas que tem menos força do que a própria apresentação da ideia dos duplos tomando o lugar que lhes é também de direito. O lugar da superfície, ao sol, e sem correntes.

P.S. – Como nota de registro está a performance de Lupita, trabalhando com cuidado em situações que poderiam facilmente cair no ridículo ao interpretar sua Red (o duplo de Adelaide). Sob o comando de Peele, Lupita é tão craque quanto Daniel Kaluuya em Corra! ao criar uma tensão contida no rosto de sua Red. Que atriz.

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