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Festivais

Roterdã, IFFR (2020) – Oferenda

Um pequeno tesouro argentino que promove uma sensação íntima de pertencimento do espectador ao filme

Por Luiz Joaquim | 28.01.2020 (terça-feira)

ROTERDÃ (HOL.) – Com apenas 21 anos, o argentino Juan María Mónaco Cagni realizou um dos filmes mais delicados e preciosos desta edição do Festival de Roterdã. Após a sessão, muito tímido e nervoso, com seu inglês não muito fluente, Cagni disse que fez esse filme com amigos próximos, em sua cidade natal, onde nasceu e onde até hoje vive, sem financiamento de instituições públicas ou privadas, sem nenhuma pretensão de participar de um festival da envergadura de Roterdã.

Seu filme acompanha as caminhadas de duas jovens mulheres pelas amplas paisagens locais de uma remota região dos pampas argentinos. Mas o filme não desenvolve a relação entre ambas, porque não possui uma ambição narrativa. Não se sabe ao certo qual a relação entre as duas, de onde vêm ou para onde vão. Uma delas é uma estrangeira; a outra, parece ser da região e acaba por ficar.

Cagni desenvolve uma cinematografia que não está preocupada em explicar, descrever ou narrar mas em simplesmente aprofundar uma famosa frase de Alexander Kluge que dizia que o “bom cinema deve ser como um jardim – não há nada a fazer a não ser passear por suas imagens”. E, eu diria, em se deixar perder pelos caminhos que o filme te conduz. Seu filme nos faz mergulhar numa experiência bastante profunda do que é sentir-se parte de um lugar, do que é de fato ser dessa região.

Para isso, Cagni trabalha com elementos típicos de um cinema contemplativo – os planos bastante alongados, os grandes planos gerais, a ausência quase completa de diálogos, a natureza como protagonista. No entanto, seu filme é uma joia por apresentar um olhar bastante pessoal e maduro sobre esse repertório. Se o filme é composto por longos grandes planos gerais, há também momentos de movimentos precisos de câmera. Outros momentos de planos fechados, em mãos ou objetos do lugar. Com isso, num filme que tende ao minimalismo, não há desejo de simetria ou de repetição de procedimentos – mas, assim como a natureza, o filme é cheio de movimentos, talvez sutis aos olhos do espectador mas bem presentes. Oferenda não é totalmente homogêneo, como se reproduzisse em loop os mesmos procedimentos, mas também se transforma – é extremamente curioso em observar esse lugar e desenvolver uma relação afetiva. Esse afeto (essa sensação íntima de pertencimento) ao mesmo tempo também se traduz por uma certa melancolia, uma solidão. Por exemplo, num dos momentos em que as personagens percorrem construções em ruínas – sinalizando não apenas o abandono mas as marcas do tempo, talvez o triunfo da natureza sobre a civilização.

Há também uma decisão bastante curiosa: o filme é em formato 4×3 [1,37 : 1] – enquanto um típico filme de paisagem adotaria um formato panorâmico. Cagni optou por uma relação de aspecto “quadrada” (4:3) não para enclausurar as personagens no quadro mas, ao contrário, para oferecer liberdade às imagens, para fugir do estereótipo visual do clichê do filme-de-paisagem, mas também para dar igual espaço ao céu e à terra, numa proporção mais vertical.

Para justificar essa escolha, Cagni recorreu a um de seus cineastas preferidos: Lisandro Alonso e seu Jauja. Cagni também citou Angelopoulos e Tarkowski como referências do seu trabalho. Mas fico pensando como Cagni apresenta um sofisticado estudo visual sobre os modos de ser da paisagem, dialogando com pintores paisagísticos como Constable (especialmente) e Gainsborough  – mas talvez essa minha leitura seja influenciada por minha atual estada inglesa rs. Pois Oferenda – um título que aponta para algo que vai além da paisagem como natureza mas a um estado de ascese – talvez dialogue mais com a arte dos poetas latino-americanos, como alguém do público sugeriu.

A juventude, a poesia e a liberdade de Oferenda me lembraram os desafios do brasileiro Estrangeiro, de Edson Lemos Akatoy. É uma maravilha que Roterdã ainda tenha olhos para observar um filme tão frágil (e ao mesmo tempo tão potente) como esse.

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