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O Dilema das Redes

Marcelo Lyra reflete sobre a força do quarto poder a partir de um filme da Netflix

Por Marcelo Lyra | 19.09.2020 (sábado)

Ainda estou um tanto desnorteado com o turbilhão de informações derramado como um tsunami pelo filme O dilema das redes (The Social Dilemma, EUA, 2020), recém estreado no Netflix. Por intermédio de entrevistas com altos executivos, o filme faz um estudo da forma com que as redes sociais (Facebook, Twiter, Instagram e Whatsapp principalmente) atuam para conquistar, manipular e de certa forma escravizar nossa atenção. Durante décadas a televisão vendeu para seus anunciantes uma parte da nossa atenção: ligávamos a TV para assistir algum programa e nos intervalos os anúncios nos alcançavam. As redes sociais também vendem nossa atenção, pois igualmente dependem dos patrocinadores. Para tanto precisam fazer com que nós, consumidores, fiquemos conectados por mais tempo e é aqui que mora um dos perigos. Todo o esforço dos executivos concentra-se em estimular nossa presença diante das telas de computadores, tablets e celulares. Quanto mais tempo ficamos nas redes, mais elas faturam.

Nessa guerra para prender o consumidor, as redes tem uma vantagem que a TV jamais sonhou e justamente por isso foi superada: eles conhecem cada consumidor individualmente, num nível assustador. Sabem tudo que fazemos, em que trabalhamos, como é nossa família, nossos hobbies, se estamos tristes, alegres, que sites visitamos, quanto tempo dedicamos a cada um, que fotos olhamos, quais curtimos, que tipo de curtida… É uma gigantesca, instantânea e infalível pesquisa comportamental online. Em última análise permite até prever nossas reações futuras, o que é particularmente assustador.

O que se convencionou chamar de algoritmo é uma espécie de gigantesco cérebro eletrônico, o Grande irmão de Orwell que tudo vê e tudo sabe. De posse dessas informações, fica fácil manipular e induzir a fazer o que querem que façamos. A atual polarização política, que faz com que as pessoas se agrupem em bolhas de pensamento semelhante, é um bom exemplo da forma de agir das redes. Quando deletamos bolsonaristas e nos aproximamos de amigos de esquerda, esquecemos que o “time” das outras bolhas faz o mesmo e, como nós, vivem num universo onde nós somos os vilões ignorantes. Essa estimulada “bolhificação” das redes, alimenta postagens, viralização de vídeos e postagens etc. Ficamos indignados. Com a rivalidade, permanecemos mais tempo diante das telas, o que gera monetizações e lucros bilionários para as redes no mundo inteiro.

Com tanto estímulo para permanecer conectados, boa parte de nós acabamos viciados. O filme mostra que, não por acaso, só dois tipos de “negócio” chamam seus clientes de usuários: os traficantes de drogas e as redes sociais.

O Dilema das Redes abre tantas frentes de debate que é difícil assimilar tudo uma única vez. Certamente vou rever.

Um dos temas é o aumento do suicídio entre jovens. A dependência da aceitação social, tão importante para adolescentes, é assustadoramente potencializada pelas redes. A necessidade de ter curtidas, amigos, ser reconhecido, gera mais ansiedade, depressão, e o resultado é preocupante. Nos anos A. R. (antes das Redes, ou seja, antes de 2010) a média mundial de suicídios entre meninas de 10 a 14 anos era de 7 para cada um milhão de pessoas. Hoje esse número subiu para 20 para cada milhão.

Um dos temas mais importantes é abordado de passagem: a utilização eleitoral das redes, que é um assunto que precisa ser aprofundado. O filme mostra que Bolsonaro foi eleito pelas redes, mas não o associa às fake news, o que é uma falha. Mas registra que fake news possuem um poder devastador. Uma notícia falsa espalha-se seis vezes mais rápido que uma verdadeira. Uma variação do velho ditado que diz que notícia ruim se espalha rápido. Afinal, a Rede conhece todos hábitos e preferências dos usuários. Sabe exatamente para quem espalhar cada notícia. Por exemplo: um usuário que comenta que o Palmeiras não tem título mundial passa a receber na sua página postagens de palmeirenses exaltando seu mundial. E assim brota mais uma longa polêmica. Todos ficam mais tempo no Facebook, no Instagram, visualizam as publicidades. O Monstro se retroalimenta.

O uso eleitoral das redes é o grande efeito colateral. E nos interessa particularmente agora, às vésperas de uma nova eleição que certamente será um novo capítulo desse drama. O que vimos no Brasil em 2018 foi que a democracia não é mais apenas o governo do povo. As redes de fake news possuem um poder muito forte, que está longe de ser compreendido ou dimensionado. Equacionado então nem se fala. Quantos candidatos serão taxados de pedófilos, abortistas, autores de kits gays e distribuidores de mamadeiras penianas?? Essas calúnias repetidas mil vezes ganham ares de verdade na velocidade de um Fórmula 1, ao passo que a verdade caminha a passo de tartaruga e só chegará bem depois que o estrago já tiver sido “consagrado” nas urnas, elegendo os piores canalhas, os mais rápidos mentirosos. A mentira agora tem pernas longas.

As redes sociais são hoje o quarto poder. Temo até que sejam o primeiro. A discussão em torno da influência das redes e o difícil controle das fake news ainda está engatinhando. O debate se faz urgente. As redes tem inúmeras vantagens, mas a questão é que precisamos possuí-las. E no momento somos possuídos. Um filme obrigatório, ponto de partida para esse debate.

(PS- escrevi com uma estranha sensação de que era isso que as Redes queriam que eu fizesse)

 

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