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Críticas

Zana (2019)

Trauma entre uma dor do passado e uma dor para o futuro

Por Luiz Joaquim | 18.05.2021 (terça-feira)

O mistério estabelecido no rosto da atriz Adriana Matoshi na pele da protagonista Lume, no filme Zana (Alb./Kos., 2019) – disponível desde sexta-feira (14) na plataforma streaming Supo Mungam Plus (clique aqui) –, é um mistério tão bem defendido pela artista, e tão bem administrado pela diretora e roteirista kosovar Antoneta Kastrati, que uma leitura masculina sobre o drama da personagem parece não alcançar a dimensão de sua dor.

Uma vez concluído o filme entendemos que, na verdade, Kastrati se revela uma exímia organizadora e dosadora de informações (algo importante para quem pretende contar bem uma história), deixando claro que a limitação na tal leitura do drama ao longo do filme não está no gênero sexual do espectador, mas está posto sim para qualquer espectador/a/e, uma vez que é essa a intenção de Kastrati: misturar sentimentos e condimentar um contexto místico e político à situação para, ao final, percebermos o quão complexa é o sofrimento dessa mulher cuja existência parece determinada pela sua família a uma única função: dar um filho ao seu marido.

O lugar de origem de Zana (Kosovo) e a história recente de sua região são valiosas para entendermos aquilo que cerca Lume. E o que lhe cerca é um tema monotemático. Estamos nos anos 2000 e Lume é uma mulher perto dos 40 anos de idade que vive com seu marido e sogra numa casa simples. A pauta ali é uma só: a dificuldade dela engravidar.

Apesar de seu obstetra afirmar que ela é saudável e que, para engravidar, basta que o casal continue tentando, a sogra de Lume considera apresentar uma segunda esposa ao filho para que a nova mulher lhe dê um neto, ou mesmo levar a nora oficial para uma curandeira de modo que se resolva sua suposta infertilidade. Como última alternativa, considera-se ainda levá-la a um famoso e dispendioso charlatão da tevê que diz ter um dom para curar pessoas possuídas.

Lume (Adriana Matoshi) precisa se submeter a sessões místicas

Na mesma medida em que todos parecem ter domínio sobre o corpo de Lume, percebemos a medida inversa da personagem sobre si própria. Há uma oscilação no comportamento da personagem com relação ao desejo pela gravidez que torna sua constante apatia e fragilidade, repetimos, ainda mais misteriosa.

Mas Kastrati não nos deixa totalmente no escuro aqui. O contexto da ‘Guerra de Kosovo’ no final dos anos 1990 – quando a província de origem albanesa lutou por independência contra os sérvios iugoslavos -, entra no filme por meio de uma cerimônia em homenagem às vítimas do confronto, temos, espectadores, um ponto que abrirá pistas sobre o conflito interno e intraduzível pelo qual sofre Lume.

Pela sequência final de Zana, com um plano tão simples quanto eficiente, Kastrati nos explica que o substantivo ao qual deveríamos estarmos atentos no seu filme não é ‘gravidez’, mas sim ‘maternidade’.

O conflito de Lume, que a deixa paralisada (tal qual a vemos na assustadora sequência de Terror Noturno que a protagonista vivencia) reside num trauma causado pela guerra, e a insensibilidade de todos ao seu redor para o que se passa no íntimo dessa mulher vai gerar consequências eternas aos envolvidos.

A triste e forte sequência de Lume deambulando pela floresta gélida de uma Kosovo invernal também não está à toa aqui. Há um ditado na região que diz haver figuras místicas, chamadas de Zana, que povoam as florestas da região, cuidando das crianças que eventualmente se perdem por ali.

Com seu filme e com sua protagonista, Katrasti dá corpo a uma Zana que paga um preço caro para proteger a sua própria criança. E também para proteger a si própria. É tocante.

Em tempo:

Zana foi o indicado de Kosovo para concorrer a uma vaga na disputa da categoria ‘filme internacional’ do Oscar.

– A partir de 27 de maio, o filme estará disponível também nas plataformas do Now e Vivo Play.

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