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Festivais

27º É Tudo Verdade (2022): A História do Olhar

Na cama com Cousins. Não há palavra que explique imagens

Por Luiz Joaquim | 29.03.2022 (terça-feira)

A curadoria do festival É Tudo Verdade 2022 (ETV), que inicia nesta quinta-feira (31) em formato híbrido (presencial e online), decidiu inaugurar esta edição, entre os 77 títulos que irá disponibilizar até 10 de abril, com dois filmes do irlandês Marc Cousins: A história do olhar, com sessão em São Paulo, e A história do Cinema: Uma nova geração, no Rio de Janeiro.

Não poderia haver escolhas mais acertadas para um festival de documentário tão interessado nas novas imagens feitas no mundo e sobre o mundo. Ambos os filmes também estarão disponíveis a partir das 21h desta quinta-feira (por 24 horas), para todo o país, na plataforma ‘É Tudo Verdade Play’, com o limite de 1.500 visionamentos.

Cousins, mais popular pela série televisa A história do cinema: Uma odisseia (2011), fala com o seu peculiar sotaque, no filme a ser visto pelos cariocas, sobre esperança quando trata de tecnologia e das mudanças que ela vem provocando no curso do cinema pelo século 21. O documentário abriu o festival de Cannes do ano passado.

Como bem disse o curador e diretor do ETV, Amir Labaki, em matéria de apresentação, o filme A história do Cinema: Uma nova geração “é uma espécie de posfácio atualizado para sua original série de 2011. Cousins analisa, com a mesma pegada cosmopolita, os filmes do século 21, dos blockbusters de Hollywood aos musicais de Bollywood, do cinema de animação aos proponentes de um novo “cinema lento” como o português Pedro Costa (No quarto da Vanda) e o tailandês Apichatpong Weerasethakul (Cemitério de esplendor)”.

A HISTÓRIA DO OLHAR – Já em A história do olhar Cousins recorre ao seu livro homônimo, publicado em 2017 (e não publicado em português), para rascunhar impressões a partir de um momento especial da sua vida. Ele está prestes a se submeter a uma cirurgia oftalmológica que irá modificar sua forma de focar e de enxergar, por exemplo, as cores. E, acreditem, isso não é pouco para quem vive da experiência do olhar.

O contexto é o da pandemia e a própria limitação social imposta à humanidade é motivo de reflexão aqui, quando temos cada vez mais nossas relações midiatizadas, intermediadas por algo não-natural.

A primeira imagem de A história do olhar é por si só emblemática. Um vídeo postado no YouTube no qual vemos e ouvimos Ray Charles desenvolver sobre a sua opção em não querer enxergar, se assim lhe fosse concedido esse desejo. “Em tenho imagens dentro de mim. Recorro a elas se precisar”, ou algo próximo a isto, diz o músico.

É o mote para Cousins começar a falar das imagens internas que possuímos e que, habitualmente, nos esquecemos delas. Por que e como elas ficam em nós? E mais: “Onde o olhar começou?”

Recorrendo a artistas como Paul Cézanne e Andrei Tarkovski, entre outros diversos, e teóricos como John Berger e Ernst Gombrich, o crítico e cineasta vai costurando com sua muito particular personalidade amarras para tentar trazer alguma luz sobre, por exemplo, a razão pela qual, nos dias de hoje, 30 bilhões de selfies são feitas a cada ano.

Cousins fala a nós o tempo inteiro debaixo de sua coberta na cama. O vídeo de Ray Charles (veja aqui) é observado com seriedade por Cousins pelo seu smartphone. E, a certo altura, o diretor explica, como um bom crítico, que aquele quarto escuro é, por si só, um símbolo do lockdown.

Uma das belezas em seus trabalhos está na fluidez como o ritmo de seus pensamentos são encadeados com referências mundialmente celebradas pelas artes e com outras aparentemente desimportantes para, no final, Cousins mostrar a organicidade da vida como um todo.

Uma imagem (banal?) nunca esquecida por Cousins. “O que pensava aquele homem?”

Em A história do olhar, por exemplo, ele não vai apenas nos cânones para gerar reflexão. Pelo Twitter, de sua cama, pergunta qual a relação que seus amigos/seguidores possuem com o olhar.

Numa das respostas mais marcantes, Laura Cummings, crítica de arte da publicação britânica The Observer, refere-se ao olhar como “um desejo insaciável constantemente realizado”. Uma outra pessoa posta uma pintura de Vermeer para revelar sua incompreensível fixação por aquela imagem.

Há ainda espaço para Cousins questionar nossa própria indiferença à vida, em detrimento da imagem. “Ser indiferente à imagem do outro é violá-la?”

E vai em duas imagens/olhares separadas/os por mais de 30 anos sobre/de uma mesma estrela – Ingrid Bergman em Casablanca (1942) e Sonata de outono (1978) – para questionar a maneira como enxergamos a nós mesmos e como seria se pudéssemos nos enxergar no futuro.

O tema aqui é inesgotável, mas Cousins o resolve de maneira tocante, lembrando que não há palavra para explicar imagens. As imagens propõem sentidos. São sentidos que não precisamos interpretar, e nisso há uma grande vantagem diante das palavras.

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