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Críticas

Paloma

Preconceito e intolerância, como já conhecemos

Por Humberto Silva | 03.11.2022 (quinta-feira)

Marcelo Gomes é um dos nomes em voga no cinema brasileiro deste século. Dirigiu filmes marcantes como Cinema, aspirinas e urubus (2005), Viajo porque preciso, volto porque te amo (2009), Era uma vez eu, Verônica (2012). São obras que devem constar em qualquer antologia séria sobre o cinema brasileiro das últimas décadas.

Joaquim (2017), contudo, me deixa a sensação de alguém desconfortável com o assunto. Sendo direto: o retrato que Marcelo Gomes faz do inconfidente e da sociedade mineira é uma ficção que ganha publicidade com um personagem histórico. Agora ele fez Paloma, a partir de um fait divers, e, como em Joaquim, entra em um terreno de abordagem perigosa.

Um ponto no qual, assim entendo, um diretor precisa ter cuidado: caminhar num terreno em que sabe bem onde pisa, pois, se não souber, o risco de se expor a questões embaraçosas. Paloma se situa num terreno pantanoso ao narrar o desejo de uma mulher transsexual de se casar conforme o sacramento da Igreja Católica.

Há um foco que ilumina a narrativa: o preconceito social com respeito à relação entre um homem hetero e uma mulher trans e entre os dois a posição da Igreja Católica. Marcelo Gomes exibe a reação de um núcleo social que não tolera a ideia de uma família que se forma com um homem, uma mulher trans e que cria uma menina concebida biologicamente pela mulher trans . Ele exibe, igualmente, o conservadorismo da Igreja Católica, mesmo com o papa atual, Francisco, que assume posição flexível sobre a homossexualidade.

Tendo esse foco em vista, Paloma se expõe a questões embaraçosas. Paloma, com duas amigas, mulheres, realiza trabalho duro na agricultura, colhendo mamão. Ela não é exatamente bem-vista pelo superior. No entanto, é aceita no mercado de trabalho. Ela, de fato, o marido e a filha vivem num ambiente tranquilo, sem incômodo notável: uma situação numa piscina pública mostra discretamente uma mãe que não quer a filha brinque com a filha de um “casal estranho”.

Ora, num filme cujo foco é o preconceito social, a intolerância, o mundo do trabalho e as relações sociais são abordados com uma leveza que parece traduzir o sentido de acomodação social. Não há problema em contratar mulheres para um trabalho duro e entre elas uma trans; nenhum problema em dividir a piscina com um “casal estranho”, desde que a filha não fique próxima da filha de tal casal.

Ocorre que a suposta acomodação social se rompe de forma gratuita, no momento em que Paloma está num bar, com uma amiga também trans, e esta é brutalmente assassinada ao entrar no banheiro.

Certo, há um banheiro e seus acessos: masculino/feminino. Mas igualmente certo de que Marcelo Gomes filmou uma ação premeditada, uma ação assistida por Paloma sem que ela fosse atingida fisicamente no episódio. A mensagem que o assassinato quer transmitir é clara. Mas, como concebida, deixa a impressão de que Paloma é aceita, uma vez que não entre em banheiro errado.

Essas pinceladas sobre o universo social do casal dá o matiz das questões embaraçosas com que Paloma se expõe. No entanto, o que há de mais complicado no filme é o desejo de Paloma: casar-se conforme o sacramento da Igreja Católica. Ela encontra resistência no companheiro, que acaba aceitando o casamento. Esse é o ponto em que a aparente harmonia na qual o casal vive ganha contornos dramáticos.

O dado que creio vale realçar: ela será enganada num falso rito que trará consequências deletérias para sua vida. O que me leva a indagar: Marcelo Gomes quis exibir o conservadorismo da Igreja Católica, que não realiza o casamento, mas que acaba sendo feito por uma seita que manipula uma ingênua trans e é comandada por um biltre?

Caso essa tenha sido sua intenção, infelizmente ele não foi feliz, pois o tratamento que dá é superficial ao expor a religiosidade e seus pressupostos morais. Há camadas e camadas que apenas são sugeridas pelo filme: o companheiro, marido, de Paloma frequenta um culto evangélico…; Paloma se envolve sexualmente com um caminhoneiro que é tão só um ornamento narrativo e se curva em seguida diante da imagem da Virgem…

Novamente, como em Joaquim, Marcelo Gomes está diante de um assunto que traz mais problemas do que ele parece disposto a abordar de frente, ou mesmo ser capaz de ir além de lugares comuns sobre preconceito e intolerância. Isso, assim vejo, é o que se revela em Paloma.

 

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