
98ª Oscar (2026) – Premiados
Premiação consagra veteranos, revela novas vozes e reafirma a força do cinema brasileiro
Por Yuri Lins | 17.03.2026 (terça-feira)
— Na imagem, o cineasta Paul Thomas Anderson, diretor de Uma Batalha Após a Outra, o filme mais premiado da noite, com seis estatuetas, incluindo a de Melhor Filme e Melhor Direção.
A 98ª edição da cerimônia do Oscar, realizada em 15 de março de 2026 no Dolby Theatre, em Los Angeles, consolidou-se como um marco simbólico entre o reconhecimento de trajetórias consagradas e a emergência de novas vozes. A noite foi marcada por um equilíbrio delicado: de um lado, a vitória do cineasta Paul Thomas Anderson representou o reconhecimento definitivo de uma das carreiras mais influentes do cinema contemporâneo; de outro, o destaque de Ryan Coogler reafirmou a força de uma nova geração de realizadores que já está injetando doses de criatividade renovada nos filmes dos grandes estúdios. No centro desse movimento, o cinema internacional teve destaque, com produções como o norueguês Valor Sentimental e o brasileiro O Agente Secreto figurando na categoria de Melhor Filme, apontando para uma maior abertura da indústria para vozes mais globais.

O ator Michael B. Jordan e o diretor Ryan Coogler posam com os Oscars de Melhor Ator e Melhor Roteiro Original conquistados por Pecadores.
O grande vencedor da noite foi Uma Batalha Após a Outra, de Paul Thomas Anderson, que conquistou seis prêmios, incluindo as categorias mais cobiçadas: Melhor Filme e Melhor Direção. Após décadas sendo celebrado pela crítica especializada, o cineasta americano alcançou aqui o ápice de sua trajetória até então. Anderson, que já havia sido indicado nove vezes anteriormente, finalmente viu seu trabalho receber a validação máxima da Academia, ainda que, no coração dos cinéfilos, ele sempre tenha sido reconhecido como um dos grandes realizadores de sua geração.
Em paralelo, Pecadores, de Ryan Coogler, liderou a lista de indicações com impressionantes 16 nomeações e saiu com quatro vitórias, incluindo Melhor Roteiro Original e Melhor Fotografia. O resultado consolida Coogler como uma das vozes mais relevantes de uma geração que conseguiu se afirmar dentro da própria engrenagem da indústria. Vindo do cinema independente, com Fruitvale Station, o diretor rapidamente demonstrou sua capacidade de transitar entre escalas ao reinventar a franquia Rocky, criada por Sylvester Stallone, a partir dos filmes da série Creed, e ao se inserir no coração do cinema industrial contemporâneo com Pantera Negra. Em Pecadores, esse percurso parece atingir um novo ponto de maturidade: trata-se de um filme original, que abraça o horror e o espetáculo sem reservas e mobiliza seus códigos para construir uma crítica contundente ao racismo e à própria formação histórica dos Estados Unidos.

O cineasta Joachim Trier recebe o Oscar de Melhor Filme Internacional por Valor Sentimental, um dos grandes destaques da premiação.
Já a categoria de Melhor Filme Internacional revelou-se um dos momentos mais tensos e significativos da noite, longe de ser uma disputa previsível. O prêmio foi entregue ao norueguês Valor Sentimental, dirigido por Jochaiem Trier, uma obra intimista que, desde o início da temporada de premiações, manteve-se como o franco favorito, consolidando sua posição com críticas unânimes e apoio da indústria. Não houve, portanto, surpresa quanto ao seu favoritismo; a tensão residia em saber se alguém conseguiria desbancá-lo.
Nesse cenário, O Agente Secreto, de Kleber Mendonça Filho, emergiu como o principal desafiante. Impulsionado por uma campanha intensa e estratégica, o filme brasileiro conseguiu capturar a imaginação do público e da crítica, transformando-se rapidamente na única opção viável para quebrar a hegemonia de Valor Sentimental. A narrativa de “desafio possível” ganhou força nas últimas semanas, criando a expectativa de que o Oscar poderia premiar uma produção latino-americana em um ano de forte apelo político. Contudo, apesar do esforço e da qualidade inegável, O Agente Secreto acabou ficando sem prêmios na categoria. O favoritismo de Valor Sentimental foi confirmado, mas a forte presença do filme brasileiro na disputa já representa um marco histórico para o cinema nacional, demonstrando sua capacidade de comunicação universal sem com isso abdicar de invenções formais que fogem das cartilhas do que seria um filme oscarizável.

Aatriz Jessie Buckley comemora o Oscar de Melhor Atriz por Hamnet, consolidando uma temporada de prêmios que incluiu Globo de Ouro, SAG e BAFTA.
As categorias de atuação refletiram o mesmo equilíbrio entre veteranos e novos talentos. O prêmio de Melhor Ator foi para Michael B. Jordan por Pecadores, em que ele interpreta dois irmãos gêmeos que lutam contra vampiros e supremacistas brancos — uma alegoria política que surpreendeu pela ousadia narrativa. Jordan desbancou o favorito Timothée Chalamet, que, durante a campanha por sua atuação em Marty Supreme, envolveu-se em diversas polêmicas relacionadas à sua performance pública durante a divulgação da obra, o que possivelmente arrefeceu suas chances na reta final.
O Oscar de Melhor Atriz foi para Jessie Buckley por Hamnet, baseado no romance de Maggie O’Farrell que explora a vida de Shakespeare e a morte de seu filho. O prêmio completou a tríplice coroa de Buckley, que já havia conquistado o Globo de Ouro, o SAG Award e o BAFTA – tornando-a uma das atrizes mais aclamadas da sua geração.
Nas categorias coadjuvantes, Sean Penn recebeu sua terceira estatueta, embora, como já era esperado, não tenha comparecido à cerimônia para receber o prêmio. Já o prêmio de Melhor Atriz Coadjuvante foi para Amy Madigan, por sua atuação em A Hora do Mal, filme de horror que gradualmente ganhou espaço nas premiações. Muito deste sucesso se deve à atuação de Amy como a icônica vilã Tia Gladys, personagem que caiu nas graças do público e impulsionou sua candidatura de modo orgânico e inesperado.

Amy Madigan celebra o Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante por A Hora do Mal, uma das vitórias mais marcantes da noite.
Outro destaque foi a torcida para o diretor de fotografia brasileiro Adolpho Veloso ao prêmio de Melhor Fotografia, por Sonhos de Trem. A estatueta, no entanto, ficou com Pecadores, consagrando a diretora Autumn Durald Arkapaw, que fez história ao se tornar a primeira mulher – e também a primeira pessoa negra – a vencer na categoria em toda a história do Oscar. A conquista representa uma inflexão significativa em um dos campos mais tradicionalmente masculinos da indústria, marcado por quase um século de exclusão.
Embora, para o público brasileiro, a expectativa de ver Adolpho receber sua estatueta não tenha se concretizado, o reconhecimento do profissional na indústria já aponta para a possibilidade de novos projetos internacionais com a sua assinatura. Na agulha, Veloso já assina a fotografia do próximo filme de M. Night Shyamalan, Remain, e, segundo boatos que circulam na internet, também estaria cotado para o próximo projeto de Steven Spielberg, ainda sem título, descrito como um faroeste.

O elenco e a equipe de O Agente Secreto, de Kleber Mendonça Filho, durante o Oscar 2026, em uma noite histórica para o cinema brasileiro.
No conjunto, o Oscar 2026 apenas reafirmou um movimento que atravessou toda a premiação: o encontro entre trajetórias finalmente consagradas e a afirmação de novas vozes dentro da indústria. Se esse foi o eixo que estruturou a noite, para o público brasileiro talvez o que tenha ficado de mais forte tenha sido outra dimensão, a mobilização de afetos em torno de O Agente Secreto. Depois da consagração de Ainda Estou Aqui no ano anterior, a campanha do filme de Kleber Mendonça Filho manteve o cinema brasileiro na boca do povo, reativando um desejo de projeção internacional que não se resume apenas à conquista de prêmios, mas à afirmação de suas potencialidades, à vontade de mostrar o que há de mais singular na cultura brasileira e também de assumir, sem pudor, um desejo de grandeza.
Em Pernambuco, esse movimento ganhou uma dimensão ainda mais intensa. O Agente Secreto é também um filme sobre a cidade do Recife, suas paisagens, sua história e sua gente. O modo como o público se reconheceu na obra, e como a cidade se engajou em torno de sua trajetória, produziu algo que escapa à lógica das premiações, um sentimento de pertencimento e de orgulho compartilhado. No fim das contas, talvez isso valha mais do que qualquer estatueta.
Confira a lista completa dos vencedores:
Melhor Filme
- Uma Batalha Após a Outra – VENCEDOR
- Hamnet
- Pecadores
- Marty Supreme
- Frankenstein
- Valor Sentimental
- Sonhos de Trem
- O Agente Secreto
- Bugonia
- F1: O Filme
Melhor Ator
- Timothée Chalamet (Marty Supreme)
- Leonardo DiCaprio (Uma Batalha Após a Outra)
- Wagner Moura (O Agente Secreto)
- Michael B. Jordan (Pecadores) – VENCEDOR
- Ethan Hawke (Blue Moon)
Melhor Atriz
- Rose Byrne (Se Eu Tivesse Pernas, Eu Te Chutaria)
- Jessie Buckley (Hamnet: A Vida Antes de Hamlet) – VENCEDORA
- Renate Reinsve (Valor Sentimental)
- Emma Stone (Bugonia)
- Kate Hudson (Song Song Blue)
Melhor Atriz Coadjuvante
- Teyana Taylor (Uma Batalha Após a Outra)
- Amy Madigan (A Hora do Mal) – VENCEDORA
- Inga Ibsdotter Lilleaas (Valor Sentimental)
- Elle Fanning (Valor Sentimental)
- Wunmi Mosaku (Pecadores)
Melhor Ator Coadjuvante
- Stellan Skarsgård (Valor Sentimental)
- Jacob Elordi (Frankenstein)
- Benicio Del Toro (Uma Batalha Após a Outra)
- Sean Penn (Uma Batalha Após a Outra) – VENCEDOR
- Delroy Lindo (Pecadores)
Melhor Filme Internacional
- O Agente Secreto (Brasil)
- Valor Sentimental (Noruega) – VENCEDOR
- Foi Apenas um Acidente (França)
- Sirât (Espanha)
- A Voz de Hind Rajab (Tunísia)
Melhor Direção
- Paul Thomas Anderson (Uma Batalha Após a Outra) – VENCEDOR
- Ryan Coogler (Pecadores)
- Chloé Zhao (Hamnet: A Vida Antes de Hamlet)
- Joachim Trier (Valor Sentimental)
- Josh Safdie (Marty Supreme)
Melhor Animação
- Guerreiras do K-Pop – VENCEDOR
- Arco
- Zootopia 2
- A Pequena Amélie
- Elio
Melhor Curta de Animação
- Butterfly
- Forevergreen
- Retirement Plan
- The Girl Who Cried Pearls – VENCEDOR
- The Three Sisters
Melhor Figurino
- Frankenstein – VENCEDOR
- Pecadores
- Hamnet: A Vida Antes de Hamlet
- Marty Supreme
- Avatar: Fogo e Cinzas
Melhor Maquiagem e Cabelo
- Frankenstein – VENCEDOR
- Kokuho
- Pecadores
- Coração de Lutador
- A Meia-Irmã Feia
Melhor Escalação de Elenco
- Pecadores
- Hamnet
- Marty Supreme
- O Agente Secreto
- Uma Batalha Após a Outra – VENCEDOR
Melhor Curta-Metragem
- The Singers – VENCEDOR
- Jane Austen’s Period Drama
- Two People Exchanging Saliva – VENCEDOR
- Butcher’s Stain
- A Friend of Dorothy
Melhor Roteiro Adaptado
- Uma Batalha Após a Outra – VENCEDOR
- Hamnet: A Vida Antes de Hamlet
- Sonhos de Trem
- Bugonia
- Frankenstein
Melhor Roteiro Original
- Pecadores – VENCEDOR
- Valor Sentimental
- Marty Supreme
- Foi Apenas um Acidente
- Blue Moon
Melhor Design de Produção
- Frankenstein – VENCEDOR
- Hamnet
- Marty Supreme
- Uma Batalha Após A Outra
- Pecadores
Melhor Efeito Visual
- Avatar: Fire and Ash – VENCEDOR
- F1
- Jurassic World Rebirth
- Pecadores
- The Lost Bus
Melhor Curta Documentário
- All the Empty Rooms – VENCEDOR
- Armed Only with a Camera: The Life and Death of Brent Renaud
- Children No More: Were and Are Gone
- The Devil Is Busy
- Perfectly a Strangeness
Melhor Documentário
- Alabama: Presos do Sistema
- Embaixo da Luz Neon
- Cutting Through Rocks
- Mr Nobody Against Putin – VENCEDOR
- A Vizinha Perfeita
Melhor Trilha Original
- Bugonia
- Frankenstein
- Hamnet
- Uma Batalha Após a Outra
- Pecadores – VENCEDOR
Melhor Som
- Frankenstein
- F1 – VENCEDOR
- Uma Batalha Após A Outra
- Pecadores
- Sirât
Melhor Montagem
- Uma Batalha Após a Outra – VENCEDOR
- Pecadores
- F1: O Filme
- Marty Supreme
- Valor Sentimental
Melhor Fotografia
- Uma Batalha Após a Outra
- Pecadores – VENCEDOR
- Sonhos de Trem
- Frankenstein
- Marty Supreme
Melhor Canção Original
- Guerreiras do K-Pop, Golden, EJAE e Mark Sonnenblick – VENCEDOR
- Diane Warren: Relentless, Dear Me, Diane Warren
- Pecadores, I Lied to You, Ludwig Göransson e Raphael Saadiq
- Viva Verdi!, Sweet Dreams of Joy, Nicholas Pike
- Train Dreams, Train Dreams, Nick Cave e Bryce Dressner















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