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Festivais

50ª Mostra de SP (2026) – FJORD + 2 filmes

Três filmes da Mostra expõem indivíduos em conflito com relações, instituições e estruturas sociais

Por Luiz Joaquim | 20.10.2026 (terça-feira)

SÃO PAULO (SP) – Todos os anos a Mostra Internacional de Cinema de São Paulo nos agracia com alguma pérola do cinema independente norte-americano, antecipando nomes que podem se tornar icônicos em algum lugar no futuro do cinema. De uma memória recente, lembramos em 2024 de Aquela sensação que o tempo de fazer algo passou, de Joanna Arnow; e em 2025 de Sorry, baby, de Eva Victor. Nesta edição 50 da Mostra, em 2026, o título da vez é O que não pode ser dito, de Don Sallitt.

Alguém pode facilmente acusar o filme de Sallitt de teatral, por conta dele transcorrer quase que totalmente em ambientes fechados de dois apartamentos, com planos fixos, e com a trama centrando-se nos verborrágicos diálogos de quatro personagens. 

Se isso define um filme teatral, tudo bem, mas o que também define um bom teatro, ou um bom filme, é o seu bom conteúdo narrativo e dramatúrgico, e disso O que não pode ser dito transborda.

Haja visto que o filme dure rápidos 61 minutos e entrega um volume deliciosamente consistente e bem construído sobre a divertida protagonista Jackie, vivida pela atriz Tallie Medel (com um rosto que lembra Madonna, jovem). 

“O Que Não Pode Ser Dito” (2026), de Dan Sallitt

Aos 28 anos, Jackie trabalha no Brooklyn. Ela é psicoterapeuta e vive confuso momento de rejeição sexual pelo namorado, com quem divide o apartamento. A pedido dele, ambos iniciam uma terapia sexual mas ela desiste do processo para ir passar uma semana na casa do irmão com a esposa dele, grávida de três meses. 

Sem nem se dar conta, o espírito livre da cunhada começa a mexer em algo na cerebral Jackie que, regada a muito vinho, começa a liberar algo antes confuso em si mesmo. Um algo que não se consegue traduzir por palavras.

A atriz Medel é dona uma força cênica forte no filme de Sallitt, fazendo de sua Jackie uma cômica figura em sua certezas e ansiedades, confrontadas com a serenidade do irmã e da esposa. 

O montante de rápidos, intensos e afiados diálogos levam o espectador rapidamente ao mundo destes quatros personagens envolventes e, como uma faca afiada, o roteiro de Sallitt resolve a tudo com uma simples, mas forte, citação do livro O homem sem qualidades, de Robert Musil, lida pelo irmão de Jackie.

À parte toda a complexificação sexual dessa nova-iorquina neurótica, há ainda, no filmes, detalhes das sessões de terapia entre Jackie e os seus clientes que chegam como um prato cheio, quente e delicioso para aqueles que atuam na psicanálise. 

FJORD – A Palma de Ouro de Cannes é sempre muito bem tratada pela Mostra e, claro, bastante buscada pelo público. Em sessão lotada ontem (19), no belo e amplo teatro Cultura Artística, Fjord, do romeno Cristian Mungiu, mostrou a que veio com sua sofisticada provocação a respeito das diferenças sociais, de crença e cultura.

No filme, a atriz norueguesa Renata Reinsve volta a protagonizar ao lado do norte-americano Sebastian Stan, depois de Um homem diferente (2024). No filme de Mungiu, eles formam o casal Lisbet (ela norueguesa) e Mihai Gheorghiu (ele romeno). Pais de cinco filhos – dois adolescentes, duas crianças e um bebê –, os Gheorghiu estão chegando para morar na distante e gélida vila chamada Fjord, Noruega.

Sendo devotos protestantes, sua conduta religiosa causa estranheza na comunidade nórdica, e quando a filha mais velha, Elia (Vanessa Ceban), aparece na escola com hematomas no corpo, acende uma luz vermelha nas professoras que acionam o órgão de Proteção à Criança. 

“Fjord” (2026), de Cristian Mungiu

Um imbróglio burocrático é logo instalado e por meio de um labirinto jurídico da legislação local os Gheorghiu precisam lutar não apenas pelo resgate de seus filhos, mas pela própria liberdade.

Mungiu constrói sua história com um apuro dramatúrgico envolvente, fazendo da luta dos Gheorghiu algo próximo ao surreal. Apoiado por uma narrativa muito sólida na estrutural da legislação local, o seu roteiro nos coloca diante daquela típica situação na qual parece não haver saída possível diante de tamanho absurdo. 

Como condimento muito bem distribuído aqui, há também uma clara dose de preconceito religioso e racismo lindamente disfarçado de civilidade fria. O contexto, a propósito, é tão negativo à cultura norueguesa que nos instiga a pergunta: Como o filme será recebido por lá?

Fjord tem distribuição garantida no Brasil pela Diamond Films, com lançamento em 4 de fevereiro de 2027. Oscar à vista.

PENA DE MORTE – No final de setembro, o caso da norte-americana Christa Pike, 50 anos, condenada à morte no estado do Tennessee, ganhou as mídias do mundo. Christa sobreviveu às doses letais aplicadas na câmara de execução da prisão e passou semanas no hospital em estado crítico, com queimaduras e confusão mental.

Há poucas semanas, no Festival Internacional de Cinema de Nova Iorque (NYFF), A vida e as mortes de Wilson Shedd, dirigido e roteirizado pelo ator Tim Blake Nelson, teve sua première mundial e repercutiu por dramatizar a real história de vida do personagem que dá título ao filme – com algo próximo vivido por Christa Pike.

Transcorrendo em três tempos distintos, acompanhamos a professora Karen (Amanda Seyfried) em um casamento abusivo e fisicamente violento que vai trabalhar numa prisão de segurança máxima. Frágil e carente professora começa a prestar atenção a um particular aluno, Wilson Shedd, condenado por assassinato.

“A Vida e as Mortes de Wilson Shedd,” de Tim Blake Nelson

Trocas de correspondência fazem evoluir o sentimento entre os dois, o que desemboca numa fuga e na sentença de morte para Wilson. Não há spoiler aqui porque Blake Nelson apresenta as três situações – as aulas, a fuga, a preparação para a dose letal – correndo em paralelo. 

Interessante como o filme já parte de um fracasso e, aos poucos, vai nos entregando a construção desse fracasso. É um belo exercício de roteiro e montagem com, talvez, um pouco de pecado pelo excesso na performance de Scoot McNairy na pele de Wilson Shedd.

De qualquer forma, McNairy se redime na sequência final, da execução, emprestando o exato terror, dando a justa dimensão ao macabro processo penitenciário americano.  

O filme ainda não foi comprado para distribuição nos cinemas do Brasil, podendo talvez chegar direto por algum streaming.


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