
50ª Mostra de SP (26) – Um Pouco de Esperança
Faltou luz para o cinema do iraniano Asgari
Por Ivonete Pinto | 21.10.2026 (quarta-feira)
O suicídio é um interdito em várias religiões, como no judaísmo e no islamismo. O Talmude condena, o Corão condena. A fé protegeria a pessoa do ímpeto de atentar conta a própria vida. Sabemos, no entanto, que não funciona assim.
Em Um pouco de esperança (Kami nour, Irã/Suíça/Itália/Canadá/ Turquia, 2026), Ali Asgari nem entra na questão religiosa. O personagem Arash (Misagh Zareh) tem uma questão moral, que é o de avisar e preparar a família para o ato que pretende cometer. Ele é médico e sua decisão é colocada em xeque quando um paciente que precisa de seu atendimento não tem a quem recorrer. Trata-se de um jovem que foi baleado nos protestos de janeiro deste ano em Teerã, e não poderia ir para um hospital pois seria preso. O roteiro deixa claro logo de início que o contexto é político: o médico já tinha sido preso, teve a clínica fechada e não vê mais razão para viver. A invasão americana se avizinha e tudo tende a piorar.
Não sei como o filme foi visto no Irã, sobretudo pelos milhares de opositores ao regime que diariamente sofrem violência e censura. Não raro acontecem execuções de condenados à morte. O filme foi rodado sem a permissão das autoridades e, já por isso, não terá chance de ser exibido em salas de cinema. Deve circular em algum streaming apenas.

Em “Um pouco de esperança”, Ali Asgari relaciona o suicídio à repressão política no Irã.
Enquanto isso, é viável conjecturar que o gesto do médico é bastante condenável e pouco plausível. Suicídios ocorrem, sim, em maior escala desde o massacre janeiro, e agora com a guerra com os Estados Unidos talvez possivelmente tenha aumentado.
A plausibilidade não se resume ao fato do personagem ser médico, mas a toda preparação dele, que inclui desfazer-se das plantas, do apartamento de alta classe média e despedir-se da mãe, da irmã e e do irmão. Quem quer se suicidar normalmente não age assim.
E este é o problema maior do filme: explora o suicídio quase como algo banal. E a narrativa, ao explicitar a questão filosófica mais importante do homem, vira um amontoado de lugares-comuns sem a menor sutileza.
O leitor cinéfilo a estas alturas já relacionou o filme com O Gosto de Cereja (1997), onde o suicídio do senhor Badi é exposto com sofisticação e engenhosidade. A própria motivação do personagem de Abbas Kiarostami até hoje faz parte de estudos de cinema, sendo que o diretor nunca, como era de seu feitio, revelava as razões do suicida.

No filme de Asgari, a denúncia política perde força diante de uma narrativa repleta de lugares-comuns.
Claro está que o contexto político de Asgari é o mote e nisto seu objetivo é plenamente justificado. A fragilidade está na forma. Está também nas intenções deste diretor de 44 anos, nascido, portanto, depois da Revolução Islâmica de 1979. Em O Gosto de Cereja há um subtexto sugerido de que o senhor Badi pudesse ser homossexual e como, no regime teocrático, homossexuais são perseguidos, isso poderia ser um motivo. Então, Asgari insere uma pista para que o espectador faça esta ilação: o médico, já de cabelos brancos, é solteiro e não tem namorada.
Na sessão comentada na Mostra, Ali Agari foi perguntado sobre isto e, no estilo Kiarostami, não confirmou nem desmentiu o eventual subtexto. Ou seja, sem ter estofo, tenta emular os procedimentos de Kiarostami, só que praticando um cinema bem aquém do mestre.
Asgari recorre a conceitos filosóficos sobre suicídio, chegando a citar Albert Camus. No seu Crônicas do Irã (2023), também havia a evocação filosófica, tanto que na crítica (ver aqui), fiz alusão a Foucault. E igualmente havia o tema dos protestos, naquela vez sobre o episódio da morte de Mahsa Amini.

O diretor Ali Agari
A denúncia praticada por Asgari em seus filmes é extremamente louvável, mas, repetindo, o problema está na forma. Jafar Panahi foi outro que em alguns de seus filmes perdeu o rumo, ficou pouco inspirado (Cortinas Fechadas é um exemplo). Tomara que Asgari seja mais feliz nas próximas produções e não recorra a platitudes como esta: o filme é mais sobre a vida do que sobre a morte.
Exibido no último Festival de Veneza, Um pouco de esperança já indica no título o que vai acontecer no final, sendo que em árabe ou persa o significado do original “Kami nour” remete ao “desejo de luz”, em inglês o título é A bit of light). E o final é paupérrimo como solução para fazer o médico desistir de tirar a vida. Espera-se que este diretor seja agraciado com um pouco de luz nos próximos filmes.















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