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Festivais

50ªMostraSP (26)– Se Eu Fosse Vivo…Vivia

Se eu não tivesse visto…veria

Por Ivonete Pinto | 19.10.2026 (segunda-feira)

O cinema mineiro invadiu esta edição da Mostra em São Paulo com amor, afeto, sangue e discos voadores. Só da produtora Filmes de Plástico são dois títulos, Vicentina pede desculpas, em parceria com a Netflix, dirigido por Gabriel Martins, e Se eu fosse vivo…vivia, de André Novais Oliveira. Já estamos acostumados com o universo periférico da produtora, com personagens negros vivendo suas vidas sem o atrelamento à fatídica marca da violência que costuma habitar olhares de diretores brancos e não brancos.

E de André Novais há sempre a expectativa de histórias baseadas nas vivências familiares do diretor, que não raro utiliza irmãos e pais como elenco, e que ele transforma em narrativas fluídas, sensíveis, caudalosas e profundamente humanas. De um jeito simples, sem arroubos ou piruetas de linguagem, somos introduzidos a vidas pacatas e amorosas, mesmo que o luto possa ser um elemento forte. 

É o caso  de Se eu fosse vivo…vivia. Segundo o próprio Novais, em conversa com o público após a exibição na Mostra, seu longa Quintal (2015) foi um ponto de partida, onde tínhamos seus pais atuando como atores. A mãe morreu em 2018 e Novais ainda está processando a perda. Ali já havia o componente do fantástico também.

Em “Se eu fosse vivo… vivia”, André Novais Oliveira transforma experiências familiares e o luto pela morte da mãe em uma narrativa íntima, delicada e profundamente humana.

O roteiro de Se eu fosse vivo… vivia, assinado por Novais,  coloca ficcionalmente em cena, da juventude dos anos 70 até a velhice, o pai Gilberto (Norberto Novais Oliveira) e a mãe Jacira (Conceição Evaristo), como um casal. Com a morte dela, o marido, em trauma, perde a memória saindo sem rumo.

Vencedor de Melhor Filme no mais recente Festival de Cinema de Brasília, e depois de ter passado pela Berlinale, esta produção soma-se às anteriores da produtora ao trabalhar em cima de  enredos minimalistas, propiciando ao espectador apegar-se aos diálogos corriqueiros, ao cuidado que um familiar tem com o outro, numa imersão em que a fotografia da portuguesa Leonor Teles, tem papel importante. Optando por uma textura granulada, inspirada na película de 16mm, somos apresentados já nos créditos iniciais a uma cidade grande que é Belo Horizonte à noite. Imagens aéreas tais como as que abrem outro mineiro, A professora de francês (ver aqui). Imagens que vão nos levando à periferia em Contagem, onde a vida acontece.

Aqui, o cinema de gênero também dá as caras.

Entre o luto e o fantástico, André Novais encontra uma forma leve e inventiva de elaborar uma experiência profundamente pessoal.

E diferente de A professora de francês, não recorre ao sangue do gore, mas à ficção científica. E este elemento, longe de ser gratuito, traz coerência e verossimilhança, pois já era um componente de Quintal. No filme atual, Gilberto perde a razão e embarca numa notícia de que discos voadores estariam pousando nos arredores de Contagem. O tom desta jornada rumo ao local é de tristeza e comicidade. O humor ficando por conta do ridículo, que a cenografia não esconde, de pessoas que acreditam em alienígenas, extraterrestes, etc. A bizarrice do comitê de recepção aos alienígenas não interfere na condição de tristeza de Gilberto, que somente o domínio do roteiro e direção conseguem conjugar com êxito.  

A para a presença da escritora Conceição Evaristo como atriz é inusitada, ela nunca havia atuado. Mesmo que o pai de André Novais, já com vários filmes e prêmios acumulados, tenha uma segurança inegável em cena, a figura de Evaristo não compromete. E, naturalmente, para quem sabe do quanto ela é referência absoluta  para a literatura brasileira (Prêmio Jabuti 2015, por Olhos D’água) e para um pensamento sobre o negro (sobretudo o preto, porque cor faz diferença segundo ela), esta presença adquire um caráter crucial no filme e, em retrospecto, a toda produção da Filmes de Plástico, composta por majoritariamente por  integrantes negros. 

A simplicidade do cotidiano é o ponto de partida para um cinema atento aos gestos, aos espaços domésticos e às relações familiares.

O título poético que remete à morte, deve-se a uma inspiração banal. Novais, na sessão citada da Mostra,  contou que sempre gostou do  título de um filme  chamado Se Eu Fosse Ladrão… Roubava [docudrama português de 2013, dirigido por Paulo Rocha]. Esta apropriação diz muito da simplicidade com que a Filmes de Plástico realiza e defende suas escolhas. Aliás, aqui, em diálogo com a ficção científica proposta por Adirley Queiroz de outra periferia, 

O fantástico em Novais  transfigura-se no cômico pela precariedade da cenografia, pela possibilidade metafórica e pela leveza com que explora o luto da própria mãe. A arte como apaziguadora de dores.

Cada vez que a Filmes de Plástico faz um filme tão pessoal, baseado em experiências vividas, se transfora em referência para jovens, periféricos ou não, negros ou não. Referência para um cinema que pensa sem discurso, mas com método. Um método que se firma na experiência do vivido. Se eu não tivesse visto… eu veria.


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