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Festivais

59° Brasília (26) – Denise e André

Sobre dois filmes distintos em suas forças, cada um a seu modo

Por Luiz Joaquim | 19.09.2026 (sábado)

– acima,a equipe de Sabes de mim, agora esqueça, de Denise Vieira.

BRASÍLIA (DF) – Ao contrário da agenda no programa Aurora da 29ª Mostra de Cinema de Tiradentes, em janeiro último, Sabes de mim, agora esqueça, de Denise Vieira, não iniciou a programação competitiva de longas-metragens aqui no 59º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, mas sim, a encerrou. Foi exibido ontem (18) como o última obra da competição principal.

E é curioso que, provavelmente, por estar ao lado outros filmes muitos fortes sob vários aspectos cinematográficos aqui em Brasília, e figurar como último título exibido na agenda da competitiva, tenha feito Sabes de mim… “encolher” um pouco desde o nosso primeiro visionamento, há oito meses, em Tiradentes.

Independente da aparente menor voltagem descarregada pelo filme em Brasília resgatamos alguns pontos que ainda parecem forte desde o primeiro contato com o filme. 

Este, que é o primeiro longa-metragem que a Denise Vieira assina a direção, vem da Ceilândia e conta com a produção executiva de Adirley Queiroz – com quem Denise foi premiada pelo seu trabalho a frente da direção de arte nos já clássicos Branco sai, preto fica e Mato seco em chamas (este codirigido por Joana Pimenta e Adirley). 

Numa tentativa de resumir o que seria Sabes de mim…, vale adiantar que há inventividade, autenticidade e lucidez empregados por Denise ao contar a sua história. História forte, cômica e absolutamente pertinente. 

Nesta ficção científico-erótica-social com a qual a diretora nos leva pela mão, estamos num lugar indefinido em que Rúbia (Pietra Souza), chega pelos trilhos do trem após o comboio pelo qual ela fugia ter sido danificado. No caminho, ela encontra Margô (Cida Souza), a dona do cabaré Toca das Gatas, ali perto, que a acolhe e se apresenta para ela/para a câmera/para nós, espectadores, largando a primeira fala do filme, dita de forma grave: “Eu tenho 258 anos e já morri 50 vezes”.

Cena de “Sabes de mim, agora esqueça”, de Denise Vieira.

Está dado o tom fantástico de Sabes de mim…, que ganha um espectro carpenterniano pela trilha sonora com sintetizadores do pernambucano Piero Bianchi. E ele (o tom fantástico) vai melhorando na mesma medida em que vamos conhecendo a história de Margô e das outras prostitutas da “Toca”, com as suas predileções e aspirações, percebendo, por aí, que a proporção do fantástico, do humor e do social estão distribuídos num equilíbrio difícil de estabelecer quando estamos numa linha fina em que a construção dramatúrgica inclui sequências de sexo, algumas explícitas.

Há um belo conjunto de atrizes (de elenco, de um modo geral) que Denise reuniu para trabalhar ao lado Ronan Rovida como preparador de elenco. Entre sequências com diálogos modulados pela essência do que cada palavra carrega em si, e sequências em que o naturalismo nas conversas parece reinar na cena, Sabes de mim… ganhar um lugar próprio e sadiamente divertido para falar dessas mulheres presas no único lugar seguro da região, o “Toca das Gatas”, longe da opressão dos “Lanternas” – espécie de caçadores e punidores das prostitutas. 

Depois de alojada no “Toca”, Rúbia comenta com Margô: “Estava pensando em dar uma volta. Fazer uns atendimentos”, para ouvir a resposta da dona do lugar: “Se você não tiver medo de morrer…”. O “Toca das Gatas” é um lugar seguro não apenas pela ausência dos “Lanternas”. A cineasta faz desse espaço uma espécie de ilha metafórica, livre das intempéries sociais do mundo externo. Lugar no qual as mulheres definem as regras e Denise é segura o suficiente em sua direção para representar essa autoridade também no campo sexual.

Nesse sentido, uma das sequências mais explícitas (em várias camadas do termo) surge nas brincadeiras da dominatrix vivida pela atriz Sanara Medeiros, após convencer um incerto cliente em aceitar entrar no jogo da submissão sexual. 

O talento de Denise em resolver cinematograficamente sequências tão complexas [filmar bem o sexo não é simples], também se mostra pela sua habilidade nas soluções criadas para encenar um diálogo que pula do humor para a reflexão sem aviso prévio. 

O melhor exemplo está, talvez, na divertida e informal conversa da mulherada, na hora do descanso, sobre técnicas da cunilíngua e sobre a quem pertence a buceta durante uma relação sexual, dando um pulo brusco para o sonho de uma delas, Melina (Aysha Layon). Sonho fundamentado em ideias bem tradicionais da sociedade – ter um homem para dividir o prazer de conhecer o mundo, casar com ele e criar filhos. 

Denise Vieira faz disso tudo legítimo pela fala de Melina, como de fato é, e respeitoso, mas nunca soando careta. Merece atenção e merece crédito.

SEU EU FOSSE VIVO… VIVIA – Não é para muitos estabelecer uma assinatura conceitual e estética tão facilmente reconhecível no cinema. O mineiro André Novais Oliveira, da trupe da produtora ‘Filmes de Plástico’ (Thiago Macedo Correia, Maurílio Martins e Gabriel Martins), é um destes poucos nomes no Brasil.

No sedutor Seu eu fosse vivo… vivia, que exibiu na competitiva do Festival de Brasília, na noite de quinta-feira (17), uma das sequências que ajuda a ilustrar essa assinatura está na subida, a pé, de uma inclinada rua mineira. A caminhada é feita por Gilberto (Norberto Novais Oliveira) e Jacira (Conceição Evaristo, estreando no cinema) com uma paisagem suburbana ao fundo.

Gilberto e Jacira são (bem) casados há 50 anos. O idoso casal está voltando para casa após uma consulta médica. No caminho, conversam, quase salivando, sobre a alegria simples de, antes, parar numa padaria para comprar um pão quentinho e, já em casa, passar aquela manteiga e comer com um cafezinho.  Só o “cha-fé” que é feito por Jacira que não agrada muito o gosto de Gilberto. Motivo bom para o marido aproveitar e fazer piada com a esposa.

Cena de “Seu eu fosse vivo… vivia”, de André Novais Oliveira.

Há uma verdade tão profunda e autênticamente brasileira nessa conversa, passando também pela calma e ritmo daquele plano, que são próprias do cinema de André Novais. É algo simples em sua sofisticação e que estabelece muito rapidamente um laço entre o espectador e a divertida cumplicidade daquele casal. 

André Novais parte dos anos 1970, abrindo o filme com o jovem Gilberto se esforçando na performance de uma serenata, acompanhado por amigos adolescentes, em frente a casa da namorada Jacira. O plano é conseguir o perdão dela por um vacilo que cometeu para, daí, levá-la naquela mesma noite a um baile ali perto. 

Depois de o jovem casal viver um episódio extraordinário nos 1970, pulamos aos anos 2020 e o ritmo de Gilberto e Jacira será outro. A casinha aconchegante (da família Novais), que o cineasta resgata de filmes como Ele volta na quinta e outros curtas-metragens, é igualmente um ponto de identificação da colossal maioria dos brasileiros.

A cochilo no sofá diante da tevê ligada, o passatempo desacelerado de montar o quebra-cabeça, a organização dos medicamentos na caixinha separadora de comprimidos e o cuidado de Norberto com Jacira – e vice-versa – nos joga, mais uma vez, para o interior profundo da identidade do brasileiro.

Tais circunstâncias do enredo não funcionam isoladamente como uma força autônoma que automaticamente faz o espectador se enxergar na tela do cinema. Há a lógica cinematográfica de André Novais, buscando uma construção cênica e dramatúrgica marcadamente pautada pelo ritmo, que sela, de maneira única, o elo ‘filme’ x ‘espectador’.

Como recado, Se eu fosse vivo… deixa nossos olhos abertos não apenas para as vicissitudes da terceira idade, com todas as suas limitações inerentes e inevitáveis consequências, mas também nos chacoalha para o lugar acolhedor que é chegar nesse momento da vida ao lado da pessoa certa.

– Viagem a convite do Festival

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