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Críticas

Fica Comigo Esta Noite

Brincando de fantasma

Por Luiz Joaquim | 20.10.2006 (sexta-feira)

Ao final da sessão para a imprensa de “Fica Comigo
Essa Noite” (Brasil, 2006), na manhã da segunda-feira,
a primeira reação (ou seja, a mais espontânea) deste
jornalista foi a de desconforto pelo incômodo de ter
sido submetido a mais uma exibição de um produto
nacional pretensamente disfarçado de sofisticado,
quando na realidade se mostra apenas como algo pobre.

Minutos depois, com fôlego recuperado, nos damos conta
que a culpa maior pela insipidez que se viu não é do
diretor João Falcão e da roteirista e esposa Adriana
Falcão (ajudada por Tatiana Maciel) mas sim do
produtor Diler Trindade. Em último instância, é o
produtor quem leva a pequena idéia vendida pelos
criadores adiante para que as vítimas o assistam.
Trindade é um velho conhecido do lado medíocre da
atual cinematografia brasileira. Um de seus recentes
despejos no cinemas é “Trair e Coçar, É Só Começar”-
não por acaso, uma adaptação de uma peça teatral,
assim como o é “Fica Comigo essa Noite”.

Críticos das artes cênicas parecem concordar que há
talento nos Falcão para o teatro. O mesmo talento
parece lhes faltar no campo cinematográfico – onde
repousa um universo em absoluto grau de diferença do
teatro, vale sublinhar mesmo que pela enésima vez. A
primeira experiência na direção de um filme por João
Falcão – “A Máquina” (2005) – foi um insucesso em
vários sentidos. Mas um único filme, já dizia Paulo
Emílio Sales Gomes, não dá a medida do diretor. Um
segundo filme dá.

A primeira, de uma sem numero, de intervenções
tacanhas no filme é a narração (leitura) em off do
global Vladimir Brichta contando para a platéia que o
seu personagem já morreu. Brichta lê mal. Pelo menos é
assim em “Fica Comigo…”. O personagem é um roqueiro
chamado…. como é mesmo… Edu (obrigado, material de
divugação). A voz de Edu estimula, infantilmente, os
ouvidos da platéia ao se perguntar: “será que eu teria
perdido tempo lendo quadrinhos se soubesse que estava
prestes a morrer?”

Enquanto ele se lamenta, sabemos que Edu, quando vivo,
praticamente tirou a noiva Laura (Alinne ‘Malhação’
Moraes) do altar com outro homem. Edu casa com Laura,
e Edu morre a partir de uma discussão sem o menor
sinal de sentido com a esposa.

Enquanto uma estagiaria de anjo-da-guarda (Clarice
Falcão) tenta convencer Laura que ela deve permanecer
uma última noite ao lado do falecido, Edu, ou o
espírito dele, tenta convencer o Fantasma do Coração
de Pedra (Gustavo Falcão) que ele, Edu, tem de voltar
ao mundo dos vivos para se despedir com propriedade da
viúva. É no desencontro das almas dos amantes – que
parece chupado não se sabe se de “Romeu e Julieta” ou
de “Ghost” – que os Falcão tentam fazer graça com mais
força. Fracassam.

O ator Gustavo Falcão – aqui montado como uma espécie
Johnny Depp dos trópicos – é egresso do teatro e anda
passeando pela TV atualmente. Precisa encontrar seu
espaço no cinema. Talvez a desvinculação com os
parentes seja um caminho possível. Não só ele, como
qualquer outro ator deve evitar submeter-se aos
sofismas ou silogismos de botequim e aos trocadilhos
com palavras iguais que seus parentes tanto gostam de
formular.

Exemplo? A determinada altura, Gustavo troca os
seguintes diálogos, em ritmo acelerado, com Brichta e
Laura Cardoso: “Você a está vendo?” “Claro que a estou
vendo! Você não a está vendo?” “Mas como você a está
vendo se eu não a estou vendo e nós estamos nos
vendo?” “Você deveria estar vendo também!” “Pois é
mais eu não a vejo”, etc, etc, etc. Se a tal
brincadeira (ruim) com as palavras é chato de ler,
ouvi-las então…

Não há o que avaliar cinematograficamente em “Fica
Comigo Esta Noite”. É um produto que deveria entrar,
sem escalas, em “Tela Quente” ou “Supercine”. Se com
um filme assim, os Falcão e o Sr. Trindade estão
tentando adicionar algo de construtivo no cinema
brasileiro (ou apenas tentando fazer o público rir –
já seria nobre), a pergunta é, porque a imprensa
especializada não enxerga isso também? Se daqui a 20
anos a história mostrar que a crítica errou, esperamos
poder viver para ler a explicação e dai pedir
desculpas pela avaliação errada.

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