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Festivais

79º Cannes (2026) – Ben’Imana

O genocídio de Ruanda e a memória em um drama de dimensão intergeracional

Por Ivonete Pinto | 22.05.2026 (sexta-feira)

Ignore Nuremberg ou qualquer outro tipo de tribunal que você está acostumado a ver no cinema. O julgamento que acontece em 2012, em Ruanda, é popular; o cenário não é nenhuma corte: dá-se ao ar livre, e as partes podem se manifestar a todo momento, sem a interferência de advogados ou juízes. O que parece um julgamento banal, de roubo de galinha, é um dos mais importantes da história moderna, pois trata-se de julgar o genocídio perpetrado pelos hutus contra os tutsis em 1994. Durante 100 dias, foram mortas entre 500 mil e um milhão de pessoas. O assassinato em massa incluiu estupros e toda sorte de atrocidades. Foi declarado como genocídio pelas Nações Unidas, pois envolve o extermínio por razões étnicas.

Em Ben’Imana (RWA , GAB,  FRA,  NOR , CIV, 2026) os fatos históricos, embora pertençam a um passado recente, não precisam ser conhecidos em detalhe para que o público compreenda a dimensão trágica do que ocorreu ali. A diretora Marie-Clémentine Dusabejambo, que estreia no longa-metragem, dosou as informações de modo a dar fluidez ao enredo, sem, com isso, ser jornalística ou didática. Sua dramaturgia opta por colocar em cena personagens que, no tempo presente, carregam as marcas do episódio sob diferentes formas. São pessoas mutiladas com facões (machetes), filhos sem pais, mulheres traumatizadas pela violência de gênero; cicatrizes incuráveis, sobretudo porque as vítimas precisam conviver com seus algozes e suas famílias. Não raro, são vizinhos.

Primeiro filme ruandês a concorrer no Festival de Cannes, Ben’Imana aborda as marcas intergeracionais deixadas pelo genocídio de 1994.

A protagonista Veneranda (Clémentine U. Nyirinkindi) é uma líder, feminista à sua maneira, que tenta empoderar as mulheres do distrito de Kibeho, ao mesmo tempo em que prega a necessidade do perdão. O próprio título do longa, Ben’Imana, em kinyarwanda, é uma forma abreviada que significa “filhos de Deus”, carregando em si um simbolismo ligado à ideia religiosa de que todos são iguais perante Deus.

Já o conflito interior de Veneranda é justamente colocado à prova quando ela não consegue perdoar a filha adolescente Tina (Kesia Kelly Nishimwe) por ter engravidado. A maneira como resolve esse conflito ocupa parte importante da trama.

A estratégia do roteiro, assinado por Marie-Clémentine Dusabejambo e Delphine Agut, mostra que o genocídio não pode ser esquecido e que o novo sistema de justiça de Ruanda procura se afastar da herança do colonizador belga e construir um modelo próprio, democrático, ainda que falível. O discurso conciliador de Veneranda, por vezes contraditório, deixa transparecer que é preciso seguir em frente. Mas nada é linear. Um dos diálogos mais ilustrativos da complexidade da realidade pós-genocídio ocorre entre as irmãs Veneranda e Suzanne (Isabelle Kabano). Suzanne cobra a irmã: por que defender uma teoria do perdão, se o ato de perdoar é algo pessoal, impossível de negociar ou comprar?

No distrito de Kibeho, sobreviventes e familiares dos massacres convivem com as cicatrizes deixadas pelos cem dias de violência em Ruanda.

Pragmatismo — As etnias hutu e tutsi continuam tendo de conviver e, em nome do pragmatismo, a conciliação seria a saída. Nota-se que, em Ben’Imana, não há menções reiteradas sobre quem pertence a uma etnia ou outra. Trata-se também de uma estratégia da realizadora, que consegue oferecer uma perspectiva mais ampla da história, contemplando diferentes ângulos do cenário. Afinal, hutus moderados também foram mortos naqueles 100 dias. A reconciliação do país é uma política de Estado na qual a diretora demonstra acreditar.

O fato fílmico a destacar é que Ben’Imana foi idealizado por uma ruandense. Outros filmes sobre o genocídio já foram produzidos, sendo o mais conhecido deles Hotel Ruanda (Terry George, 2004), que rendeu a Don Cheadle uma indicação ao Oscar de melhor ator. Ben’Imana, no entanto, é o primeiro filme de Ruanda a concorrer em Cannes, e o fato de ser uma mulher a protagonizar essa empreitada é, por si só, emblemático. O sofrimento físico e moral das mulheres carrega uma tragédia indescritível. O perdão, no filme, não significa esquecimento, mas memória — e também uma forma de seguir em frente.

Marie-Clémentine Dusabejambo buscava recursos para o projeto havia pelo menos dez anos. Sua persistência foi coroada com a seleção para o Un Certain Regard. A jovem diretora, de carreira promissora, fez um filme digno e relevante. Mais do que uma obsessão, ela carregava o dever de contar uma história que pertence ao seu povo — e da qual pessoas de todas as etnias têm muito a aprender.

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