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Críticas

Guaxuma

A beleza do mundo de Nara. A leveza no mundo de Nara.

Por Luiz Joaquim | 17.12.2018 (segunda-feira)

Se cineastas brincam de deuses em seus filmes, criando um mundo particular, formatando-o de maneira que tudo seja resolvido visualmente dentro de um retângulo, e ainda provocando o espectador com o que também está fora do retângulo, imagine então como se divertem os animadores.

Se divertem e trabalham duro. Sim, porque a mesma medida do desvario criativo funcionando para conceber ambientes e personagens que desafiam qualquer lógica ou lei racional serve também de régua, proporcionalmente, para medir a dimensão do trabalho que essa brincadeira dá.

Com Guaxuma, terceiro filme de Nara Normande e vencedor do título de melhor animação na Competição Geral do 20º Festcine, a diretora nos oferece uma fábula inspirada em sua própria história de vida, e o resultado que obtemos disso reside naquela casa de prazeres, visuais e sensoriais, onde a gente esquece da gente mesmo. Sobram poucos elogios maiores que esse a serem feitos sobre um filme.

Guaxuma nos provoca a cada novo olhar. Não por nos desafiar com seu discurso, pois ele é bem dado de primeira, mas por não ‘encolher’ a cada revisão – ainda que seja objetivo em sua fábula.

O certo, na qualidade de manter o encantamento a cada nova vista sobre este filme de areia de Nara, é a sua técnica. Corrigindo: é a sua técnica ajustada em sintonia fina com o seu discurso.

Guaxuma conta, com narração em off na voz da própria diretora, a amizade e o amor de infância da cineasta, sua amiga Tayra. Ambas meninas, foram criadas na região litorânea de Alagoas, que dá título ao filme. É uma história que se constrói em cima de fotografias e da memória de Nara.

Nesse sentido, a personalidade visual e sonora (por sua voz como narradora onisciente) que Nara criou aqui estabelece um universo onírico que é, ao mesmo tempo, particular e reconhecível.

‘Particular’ porque a ‘Nara’ e a ‘Tayra’ que enxergamos em Guaxuma são únicas. E mesmo que construídas em formatos diversos (mas seguindo o mesmo princípio estético), e carregando sempre a areia como elemento presente em seu corpo, elas são únicas. Nas bonecas ‘Nara’ e ‘Tayra’ de areia com enchimento, por exemplo – que certamente têm o perfil mais marcante -, vemos seus rostos circulares com os olhinhos pretos redondos e sem a boca, sugerindo uma eterna curiosidade.

É um perfil definido, que saiu da cabeça da Nara-deus onisciente, dona dos traços e do mundo que nos chega pelo filme, a partir de uma ‘Nara’ e ‘Tayra’ de um outro mundo. Este real.

O filme nos é ‘reconhecível’ exatamente por isto. Em Guaxuma a narradora se coloca em primeira pessoa e nesse jogo de personificação, fica tácito que a alegria e a melancolia que iremos acompanhar ali foi real. Nesse sentido, o curta-metragem é também um documentário. Inusitado, é verdade, pois não está interessado na verdade dos fatos (e também está!), mas quer saber, principalmente, da verdade da memória e do amor.

Essa é, enfim, a combinação matadora que Nara Normande soube equilibrar aqui com a sabedoria de mestres da animação. Do cinema. Pois, ainda que seu filme nos toque por todas as revoluções da técnica da animação – e ele nos toca -, é com a comoção pelo destino da Tayra real, ilustrado tão lindamente pelos pássaros de origami partindo pelo céu, que deixamos a sala de cinema.

Em tempo: Entre tantos prêmios recebidos por Guaxuma onde quer que seja exibido, um deles, não por acaso, foi o de melhor documentário em curta-metragem. Aconteceu em outubro último, no Festival Internacional de Cinema de Hamptons, em Long Island, Nova Iorque (EUA). Com a premiação, inclusive, o filme está habilitado a concorrer a uma vaga nessa categoria (documentário de curta) no Oscar de 2020.

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