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Roterdã – IFFR (2020) – A Morte Habita à Noite

Morotó dá à luz peça de filiação expressionista com a morte rondando vidas de pouco brilho,

Por Marcelo Ikeda | 26.01.2020 (domingo)

ROTERDÃ (HOL.) – O primeiro longa-metragem de Eduardo Morotó é, em muitas medidas, uma continuidade de suas obras pregressas no curta-metragem. Nele, Morotó desenvolve não apenas um olhar delicado para personagens desprivilegiados mas também expresso por um tratamento formal relativamente distanciado, com longos planos de quadros fixos, sem planos fechados ou campos-contracampos. Mais propriamente, o longa prossegue um de seus curtas, Quando morremos à noite, tanto em questões narrativas quanto formais.

Uma livre adaptação de contos de Bukowski, Morotó realiza uma espécie de crônica afetiva da vida de um escritor de cinquenta anos na zona central de Recife. Ainda que seu foco não seja uma questão social ou de classe, seu filme reflete sobre os modos de ser de uma certa periferia mas de um ponto de vista afetivo. A solidão de seu protagonista se espelha por uma exposição de sua intimidade e a relação com três mulheres, em diferentes momentos. Assim, o filme se estrutura a partir de três histórias, blocadas no interior do filme, divididas por espaços marcados. Em cada um deles, seu protagonista se envolve em diferentes relações sentimentais. Aos poucos, perceberemos que esse homem é um escritor, de modo que sua vida torna-se a principal matéria de seu processo criativo.

De outro lado, há um ponto em comum entre essas três histórias: a presença da morte. Por trás de um humor afetivo e de uma certa leveza com que Morotó constrói suas crônicas, existe também uma nítida melancolia  – uma extrema solidão, um certo cansaço, uma desesperança. Uma dor, uma espécie de afasia, que se manifesta não só no corpo expressivo do ator Roney Villela mas por um modo de encenar que encontra nos tempos largos e no espaço uma certa clausura.

Roney Villela em cena de “A Morte Habita à Noite”

A morte ronda essas vidas de pouco brilho, como a sombra do destino dessa peça de filiação expressionista. O despojamento da crônica suburbana encontra um rigor formal particular, um estilo posado que encapsula os personagens diante do seu próprio destino.

Essa é a ambiguidade do estilo de Morotó. Esse olhar delicado expresso por essa simpatia afetiva e essa melancolia serena que traga os personagens. Essa leveza dessa crônica periférica com esse rigor formal que tende a uma estilização.

Parece que o próprio olhar de Morotó expressa essas dualidades, essa mesma dificuldade de se lançar de peito escancarado para o mundo. O estilo de Morotó tende a uma estilização, que prolonga o próprio destino de seus personagens.

Mariana Nunes em cena de “A Morte Habita à Noite”

É como se o sangue cuspido pelo protagonista fosse cenográfico demais. Não é que o filme seja totalmente fechado para o mundo – há uma curiosidade pelo outro, até mesmo por alguns momentos em que uma geografia afetiva do Bairro do Recife aparece em pulsão discreta. Na terceira história, os limites entre a morte e a vida, entre a poesia e a prosa, entre o abandono e o afeto, ou mais propriamente entre a vida e o processo de criação se tornam cada vez mais fluidos, como se fosse uma cálida esperança, representada no plano final. O que digo é que este primeiro longa de Morotó deve ser pensado a partir desse impasse – a dificuldade desse próprio filme em se lançar no abismo do coração do mundo.

Nota do autor: Para ler sobre os bastidores da gravação de A morte habita à noite, em 2017 no Recife, clique aqui. Ainda no elenco do filme: Endi Vasconcelos, Rita Carelli e Pedro Gracindo.

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