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Críticas

Belfast

Contínuo contraste entre o sonho colorido da infância e o P&B da realidade que toma nossas vidas.

Por Luiz Joaquim | 09.03.2022 (quarta-feira)

Numa noite de 1969, Buddy (Judy Hill), com 8 anos de idade, volta de ônibus para casa com a sua avó (Judi Dench) após terem ido ao teatro. No caminho, o neto diz que em breve irá com o pai, a mãe e o irmão mais velho ao cinema para ver O calhambeque mágico (1968), “um filme sobre um carro voador”, explica o menino, e pergunta à avó se ela não pode ir com eles. A idosa resmunga que não tem mais idade para “carros voadores”, mas recorda com saudade de um filme que viu quando jovem e como ele lhe levava a um lugar mágico. “O nome do filme era Horizonte perdido [no caso, a versão de 1937, de Frank Capra]. “E que lugar era esse?”, quer saber o pequeno. Para ouvir dela: “Shangri-La”. Buddy, na sua curiosidade infantil, quer descobrir como faz para chegar em Shangri-la, e escuta, na voz melancólica da avó: “Não há estradas que levam Belfast a Shangri-La”. 

Hill como Buddy e Dench como a avó

Essa curta e poética resposta é, provavelmente, o que melhor pode sintetizar o que o novo filme dirigido por Kenneth Branagh, Belfast (GB, 2021) – que estreia amanhã (10) nos cinemas do Brasil -, quer nos apresentar da capital da Irlanda do Norte. Um detalhe aqui é que, para entender o lirismo da assertiva da avó, seria valioso que o espectador também conhecesse Horizonte perdido. 

Branagh fala aqui de sua Belfast, aquela da infância do realizador, considerando o teor autobiográfico que vemos na produção. No caso, o período em questão é exatamente aquele em que a família protestante de Buddy discute se irá deixar o bairro, que eles amam, por razões (políticas) que o menino não consegue entender. 

A ótica principal do filme é a de Buddy, mas também a dos pais (Caitriona Balfe e Jamie Dornam), além da dos adoráveis avós (com Ciarán Hinds fazendo par com Dench). O roteiro (de Branagh) nos coloca também nos olhos dos adultos para que possamos alcançar o grau da tensão e a hostilidade da militância armada de protestantes contra os católicos da região, que se intensificou ali após as famosas manifestações de 1968. 

Mas Belfast, de cara, une a realidade brutal da questão aos dois mundos: dos adultos ao das crianças. Na excelente cena de abertura, Branagh altera os ruídos na balbúrdia das crianças brincando na rua para um difuso e impreciso som provocado pela horda que chega para devastar o lugar. Aos olhos do espectador, na transição da pequena “Shangri-La” de Buddy para a Belfast dos adultos, Branagh nos oferece um balé visual, como se estivéssemos numa versão mais suave da já clássica cena em que Busca-pé fica entre a polícia e o bando de Zé Pequeno em Cidade de Deus (2002). 

Filmes que querem resgatar um mundo infantil esquecido, habitualmente são exitosos na medida em que seus protagonistas são carismáticos. No caso do pequeno ator Judy Hill, o carisma transborda, e Branagh sabe aproveitá-lo bem. 

Buddy e o pai: contínuo contraste entre fantasia e realidade.

Aqui, a construção daquilo que molda o universo do menino – o gibi; a tevê P&B com seus faroestes e ficções-científicas; a escola; a primeira paixão com os conselhos amorosos do avô; a molecagem inocente para entrar numa “gangue” – têm seu espaço sagrado. Entrelaçado a tudo isso, seguimos acompanhando o incremento do conflito bélico crescendo em Belfast, e os pais de Buddy sendo obrigados a tomar uma decisão sobre continuar ou não subjugados pela estupidez daqueles conflitos.

Mas, talvez, a mais bela sacada formal em Belfast seja uma muito simples, tecnicamente falando, e bastante eloquente opção para ilustrar alguns aspectos da sua narrativa. 

Contra o P&B duro que chega aos nossos olhos para ilustrar a vida de Buddy e de sua pobre família naquele lugar historicamente maltratado, as sessões de cinema e o teatro, a arte enfim, têm cores. Cores brilhantes e pulsantes contra o cinza da vida oprimida. 

Buddy e a família na sessão colorida de “O Calhambeque Mágico”

Fazia um bom tempo que o cinema não usava o P&B num filme de maneira tão bem justificada e significativa como aqui. Que bom.

Belfast concorre ao 94º Oscar (2022) em sete categorias: filme, direção, roteiro original, atriz e ator coadjuvante (Judi Dench e Ciaran Hinds), som e canção original. A cerimônia de premiação acontece em 27 de março.

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