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Festivais

55º Brasília (2022) – “Mandado”

Entre a vontade e a limitação de condições para sua realização

Por Humberto Silva | 18.11.2022 (sexta-feira)

– acima, em foto divulgação do festival, equipe de Mandado apresenta o filme no Cine Brasília. 

A violência policial no Brasil, e uma espécie de guerra não declarada tecnicamente com o tráfico, é uma realidade que nos acompanha há décadas.  O tema rendeu alguns dos filmes mais incensados tanto de nosso cinema de ficção – Carandiru (2003), Tropa de elite (2007)… – quanto documental – Última parada 174 (2008), Auto de resistência (2018), dirigido por Natasha Neri e Lula Carvalho, neste último destaque para imagem de Marielle Franco numa manifestação.

Infelizmente, o assunto se mantém forte e inspira novas realizações. Esse o caso de Mandado, documentário carioca dirigido por João Paulo Reys e Brenda Melo Moraes, exibido no 55º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro.

Mote de Mandato: pouco antes da Copa do Mundo de 2014 um mandado de busca autoriza a polícia a entrar em todas as casas de duas favelas no Complexo da Maré, no Rio de Janeiro.

Questão de fundo: a garantia constitucional de inviolabilidade do domicílio. A premissa que impulsiona Mandado, portanto, é da legalidade jurídica para a ação policial.

A se esperar num filme documental, com isso, a posição de juristas sobre o assunto e imagens de ações policiais. É o que o mote e a premissa do filme sugerem.

Claro, a exploração do tema dá margem à espetacularização da violência. Assim, para o espectador, ao lado da denúncia, na mesma medida o espetáculo sangrento, como nas arenas do Império Romano. Última parada 174, com isso, seria um modelo adequado, a exibir com requintes espetaculares um personagem, Sandro do Nascimento, o sequestro de um ônibus por ele, a longa negociação com a polícia e o desfecho tráfico.

Quem esperar algo assim em Mandado sairá frustrado. Certo, há uma premissa jurídica e eventual discussão sobre o caráter constitucional quanto às circunstâncias que tornariam possível à polícia entrar num domicílio sem autorização do morador.

Num filme documental, a opção pela entrevista, pelo depoimento, pode ter maior relevância e proveito que a espetacularização. Por meio da entrevista, do depoimento, pode-se oferecer ao espectador esclarecimentos necessários e vitais para a compreensão de uma situação.

Imagem do carioca “Mandado”

Quer dizer, a escolha apropriada de depoimentos, além da importância pedagógica, tem uma dimensão didática que muitas vezes não deve ser subestimada num filme que, prescindindo do espetáculo, se sirva como denuncia, alerta. Ocorre que em Mandado a discussão jurídica é praticamente coberta pelo relato pessoal de moradores que expressam opinião sobre a medida. Relatos que para o espectador são vagos uma vez que assumem o caráter geral sobre a atuação da polícia na favela e não propriamente sobre o mandato de que o filme se serve de mote.

Não que as falas dos entrevistados, juristas e mesmo moradores do Complexo da Maré, sejam inócuas, mas sim que elas são difusas; elas, de algum modo, confundem o espectador que queira compreender o caso, de fato, por meio do filme, à medida que ganha corpo o relato impreciso e passional dos moradores.

Há inclusive uma aparição de Marielle Franco. Aparição que faz levantar a suspeita de oportunismo publicitário. Na aparição, ela fala de modo geral sobre a violência e não sobre o caso particular do mandado. Ao fim e ao cabo, situações de violência policial em razão do mandato não são apresentadas por meio de imagens em movimento.

As imagens de ações policiais, algumas de arquivos, não remetem a um acontecimento pontual da polícia motivada pelo mandado. Dito isso, suponho as dificuldades para acesso a imagens. Ou mesmo lidar com uma situação de garimpo e assim obter imagens para compor o filme. Certo, ocorre que a condição mais elementar para a realização de um filme, de um documentário, é a obtenção de imagens.

Apesar de propor mostrar “a radicalização do sistema penal brasileiro”, Mandado acaba se perdendo entre pretensão, uso de recursos, edição, montagem; e assim sendo deixa no espectador a impressão de ser um projeto que misturou vontade e limitação de condições para sua realização. Um possível Sandro Nascimento em Mandado ficou na oralidade de um morador.

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