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Festivais

9ª Cinemas Africanos (2026) – Diya

O Chade com alcance global

Por Ivonete Pinto | 24.09.2026 (quinta-feira)

E chegou ao fim a edição 2026 da Mostra de Cinemas Africanos, que tem curadoria da pesquisado Ana Camila Esteves. Para fugir de uma ideia essencialista do que sejam filmes africanos, ela apostou no cinema de gênero, onde algumas produções flertaram com o fantástico, entre eles O despertar de Anam (Quênia, Likarion Wainaina, 2026), Dëmm – Devoradoras de Almas (Senegal, Aïda Captijni) e a fantasia, como  O pescador (Zoey Martinson, Gana,  2024). A edição foi variada também ao apresentar documentários, curtas e filmes dirigidos por mulheres, nas mais diversas temáticas. Afinal, o continente africano possui 54 países e uma grande variedade étnica e cultural. 

Diya (Chade/França/Costa do Marfim/Alemanha, 2025), por sua vez, é um drama, que participou de vários programas de desenvolvimento de roteiro, da Tunísia, a Cannes, passando pelo Canadá. Tanto esforço, resultou em um roteiro redondo, que  surpreende. Até a metade do filme, de posse da sinopse diríamos que tudo seria previsível. Mas o final apresenta uma resolução inesperada. O roteiro e a direção são assinados por Achille Ronaimou, em seu primeiro longa de ficção.

Achille Ronaimou estreia na ficção com um filme que aproxima tradição e modernidade, recusando respostas fáceis para um dilema ético.

O filme, programado em festivais como o de Torino, o de Locarno e do Festival do Rio,  traz os vestígios do neorrealismo italiano. Dane (Hassan Brave), motorista de uma ONG humanitária em Jamena, capital do Chade, busca o perdão da família cujo filho ele atropelou e que acabou morrendo. O perdão se daria pela Diya, um pagamento pelo dano causado. Procedimento de origem bíblica em desuso no Chade, mas a família e o juiz, espécie de delegado, o convencem a não contratar advogado e resolver tudo entre eles, pois que seria mais vantajoso. Ele teria apenas que conseguir cinco milhões de francos CFA (moeda de alguns países africanos, atrelada ao euro) para indenizar a família. Um valor muito alto para ele, impossível de conseguir.  Sua esposa está grávida, porém com a ajuda dela e de amigos Dane não desiste. 

Boa parte do enredo se passa na busca desesperada para levantar o dinheiro. Para isso, Dane se envolve em atos que nunca se envolveria. As questões éticas o assombram, mas os códigos morais são suspensos, até porque Dane sente uma culpa profunda pelo que provocou.

Pequeno em escala de produção, grande em alcance humanista: Diya insere o cinema do Chade no mapa do cinema contemporâneo africano.

Em suas andanças, o filme nos leva às periferias das periferias, mostrando uma miséria da qual a África também é sinônimo. Ou seja, se um evento como a Mostra assume o compromisso de desvendar cenários e personagens africanos que fogem aos estereótipos, exibindo modernidade e riqueza, não deixa de reconhecer que a pobreza faz parte do contexto. Como faria, aliás, em muitos países cujo perfil nem estão associados à pobreza. 

O que se destaca em Diya é que as condições sociais não estão apartadas de conflitos éticos e que a modernidade convive com a tradição. A parte final do filme, que não vai ser revelada aqui, coloca o filme em um patamar de identificação com grandes obras humanistas, dentre as quais muitas produções do neorrealismo italiano são icônicas. E este é o ponto a ressaltar: um filme pequeno de um país como o Chade, com população cristã e muçulmana,  feito graças ao empreendimento de vários países envolvidos, pode nos envolver e nos impactar, ao mesmo tempo em que amplia nossa visão de mundo. E amplia, claro, nossa limitada visão da África.

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