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Festivais

9ª Cinemas Africanos (2026) – Cartum

Documentário registra memória de uma guerra civil sudanesa

Por Ivonete Pinto | 14.09.2026 (segunda-feira)

Cartum (Khatoum, Sudão/ReinoUnido/Alemanha/Qatar, 2025) é um documentário singular sobre um país singular.

Nós, público brasileiro, não temos maiores informações sobre o que acontece na África como um todo, menos ainda sabemos sobre o Sudão. A não ser, ainda que superficialmente, tenhamos recebido, em choque, as notícias sobre Darfur.  O próprio filme, possivelmente visando plateias neófitas,  se encarrega de oferecer parte do contexto de episódios que se passam 20 anos depois de Darfur, mostrando diversas cartelas tratando da guerra civil recente, de 2023. 

O Sudão, cuja capital é Cartum, derrubou o ditador militar Omar Al-Bashir, que governou o país por 30 anos. Atualmente  o presidente é civil, mas a transição tem acontecido sob a “supervisão” dos militares, que seguem no centro do poder. 

 O país é campeão no quesito de maior número de golpes de estado da África. Previsivelmente, os militares que assumiram o poder não são exatamente a solução democrática que o país desejava.

Cinco personagens atravessam a guerra civil sudanesa e fazem do cinema um espaço para reconstruir suas histórias.

Aliado ao contexto, o documentário anuncia que elegerá cinco personagens através dos quais ilustrará a situação política: dois meninos órfãos,  catadores de plástico; um funcionário  público; um jovem aspirante a cineasta e uma mulher, dona de uma banca de chás. Eles são Lokain, Wilson, Jawad, Khadmallah e Majdi.

Cada uma das histórias é filmada por um diretor diferente (Ibrahim Snoopy Ahmad, Timeea Mohamed Ahmed, Rawia Alhag, Anas Saeed) sob a direção geral  de Philip Cox. O diretor é britânico, mas nem por isso iremos colocá-lo a priori sob suspeição. Ele trabalha para um coletivo de cineastas independentes e em 2017, como jornalista de um documentário para a TV, foi sequestrado no deserto de Darfur, sendo preso justamente em Cartum, no Sudão.

Optando pelo método reflexivo de documentário, Cox abre o dispositivo para o espectador, colocando os cinco personagens a darem seus depoimentos e a interpretarem pessoas que poderiam ser elas, mas não são, como um pai e um filho sofrendo um ataque a bomba. 

Os atores sociais são levados a bateram a claquete,  expediente que resulta  em uma encenação um tanto artificial. Eles  não parecem muito à vontade. Porém, já nos primeiros 10 minutos percebe-se que o distanciamento brechtiniano tem uma função, com os atores em frente a um chroma key de fundo verde projetando imagens da cidade de Cartum. O distanciamento, tanto nas encenações quanto nos depoimentos, de alguma maneira preserva aquelas pessoas e ao mesmo tempo dá espaço para o espectador  absorver histórias tão duras. O relato mais tocante, talvez seja o das duas crianças que enxergaram cabeças cortadas. Lembrando: eles são órfãos.

Fazer parte do filme acaba sendo um lugar seguro e até lúdico para eles, mesmo revivendo através dos relatos e encenações os horrores da guerra. O passeio em cima de um leão é um achado de IA que funciona. E a filmagem não deixa de ser um lugar de registro da memória ao contarem os fatos recentes  É o que se depreende.

“Cartum” faz do próprio cinema um dispositivo de memória, misturando depoimento, encenação e imagens recriadas.

Árabes X Africanos – Em meio a tudo, surge a pergunta de uma das mulheres ouvidas nas ruas: somos árabes ou africanos? Antes da guerra, o Sudão era composto por um conjunto de reinos, que se não viviam em harmonia, ao menos , segundo ela, não havia esta dúvida identitária. Com a guerra, até isso virou uma questão e agora as milícias, denominadas árabes, trouxeram essa perturbação.

Embora o esforço em ser didático, não custa fazer uma pesquisa básica para entrar um pouco mais na proposta do filme. Importante saber, por exemplo, que no Sudão há cerca de 500 grupos étnicos e aproximadamente 70% da população se identifica como árabe. Todos convivendo com grupos não árabes, como os Fur, Masalit, Zaghawa, Nuba e Beja. Nas falas dos atores/personagens, vez por outra são feitas referências a estes grupos minoritários e percebemos, então, que a violência é étnica, com contornos religiosos mínimos, já que predomina o islamismo sunita, mesmo em Darfur, quando  houve o massacre praticado por milícias. Em 2003, milhares de pessoas morreram nos conflitos de Darfur, milhões foram deslocadas em êxodo forçado e as milícias estão no centro da guerra civil que faz pano de fundo para o documentário 20 anos depois.

O cenário é complexo, entretanto podemos ficar com uma impressão do todo: os conflitos são longevos, há massacres que se repetem e a democracia é uma quimera. Como uma nota de pé de página vale mencionar que, inclusive, há um filme de 1966, de mesmo título (Khartoum, Basil Dearden). Os personagens de Charlton Heston e Laurence Olivier vêem-se às voltas com os conflitos no Sudão entre 1884 e 1885, naquela vez  com a Europa defendendo o país de um exército muçulmano (essa é mais ou menos a sinopse).

Mais do que registrar um conflito, “Cartum” inventa uma forma de filmar o trauma sem apagar quem o viveu.

Neste Cartum de 2025, chama a atenção a insistência na repetição de um plano, onde um camelo gira movimentando um mecanismo de tração (provavelmente uma prensa tradicional de óleo de gergelim),  que pode ser uma chave simbólica para a nossa compreensão: enquanto o exército gasta água com mangueiradas na população insurgente, o camelo/o povo, num ritmo de tartaruga, faz seu trabalho de subsistência.

Quatro dos personagens de Cartum  já não vivem mais no Sudão, cada um morando agora em outro país africano. Mesmo num tom otimista, o filme nos sugere que o camelo não vai gerar o ritmo das mudanças. O camelo, nas culturas dos desertos, simboliza viagem e resistência. O documentário subverte, ou reinterpreta este símbolo ao colocá-lo apenas girando em círculo, o que diz muito da fragilidade dos regimes políticos de muitos países africanos que enfrentam ditaduras em ciclos. E não só deles.

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