
9°Cine Africanos (26)- Memória da Princesa Mumbi
Afrofuturismo queniano com IA
Por Ivonete Pinto | 16.09.2026 (quarta-feira)
O pressuposto inicial do documentário híbrido que está sendo construído em Memória da Princesa Mumbi (Suíça/Quênia/Arábia Saudita, 2025) é de que a humanidade não consegue viver sem guerras, elas são naturais, portanto, deve-se conviver com elas. Lá pelas tantas, alguém até diz “Achamos que a guerra curaria a depressão”. A frase paradoxal leva a um carrossel de pensamentos ligados à depressão e às guerras e forma o mundo distópico do filme.
O suíço-keniano Demian Hauser (After the long rain, 2024), nascido em Zurich, dirige essa produção que se passa num futuro distante. Nela, o cineasta Kuve (Ibrahim Joseph) chega à fictícia Umata para documentar a vida após a proibição do uso de tecnologias modernas. De saída, o filme demonstra um tanto de ironia, um tanto de observação filosófica. As neotecnologias viciantes são motivo de preocupação e explicariam os casos de depressão. Mas o roteiro não se prende a isto, ao contrário, busca outro foco, ao se interessar na feitura de um filme e realizar o desejo da princesa Mumbi (Shandra Apondi) de ser atriz famosa. O diretor/marido, Kuve, tem a mesma ambição, ajudando a criar no reino de Pesa, a Pellywood, aos moldes de Hollywood. O grande sonho é mesmo chegar ao Oscar. O filme pressupõe que a Academia de Hollywood vai sobreviver no futuro. Assim como os camelos e os burros.

Em “Memória da Princesa Mumbi”, fazer cinema no futuro é também brincar com Hollywood, a precariedade e os sonhos de uma África afrofuturista.
Precariedade criativa – Para gerar um universo que vai de 2073, ano do nascimento da Princesa Mumbi, até 2100, a cenografia faz uma ginástica. A Inteligências Artificial permitiu soluções inimagináveis, aproveitando cenários naturais e construindo edificações futurísticas. A precariedade recebe uma leitura criativa com o uso de IA, mas não só: a inventividade humana mostra-se fundamental para resolver a falta de recursos, como equipamentos do futuro. Uma câmera de hoje, por exemplo, é citada num diálogo como “equipamento antigo” e resolveu o problema do anacronismo. Assim, a produção do filme não nega a pobreza, agrega valor estético-cultural a ela. No mais das vezes, até pela trilha, enxergamos ali referências a seriados vintage, como um Perdidos no Espaço que foi parar na África. Mas é o cinema da precariedade de Adirley Queiroz que se sobrepõe.

Damien Hauser, diretor de Memória da Princesa Mumbi, estará no Brasil para acompanhar a exibição do filme na 9ª Mostra de Cinemas Africanos, em 17 de setembro, na Sala Walter da Silveira, em Salvador.
No reino de Pesa, não se deve estranhar, fala-se inglês, já que a colonização britânica na vida real do Quênia deixou a herança que hoje é língua oficial do país. O tema central do filme, no entanto, é o filme dentro do filme As DRs internas da equipe são centradas na própria ideia de fazer o filme e para qual público-alvo. Para o úblico estrangeiro? Seria um desastre, afirma a princesa Mumbi. Mesmo assim, desiste do gênero documentário e optam pelo drama romântico, com cenas de dança para agradar às plateias gringas.
Memória da Princesa Mumbi é um exemplar do movimento cultural e estético Afrofuturismo, que mistura ficção científica e outros gêneros para projetar futuros protagonizados por pessoas negras. O elemento trash pode fazer parte da estética, desafiando o bom gosto ocidental. A IA chegou como ponto alto para garantir a originalidade das ideias.
Ao fim e ao cabo, trata-se de um grande deboche, incluindo o autodeboche, onde todos se divertiram emulando Hollywood, sabendo que estavam no Quênia.















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