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Festivais

9°Cine Africanos (’26)- Por Detrás das Palmeiras

O Marrocos pela lente de uma diretora marroquina

Por Ivonete Pinto | 09.09.2026 (quarta-feira)

Garoto encontra garota. Mãos dadas no cinema. Parece que veremos uma cálida história de amor tal como descrita pela fórmula da narrativa clássica hollywoodiana. Todos os filmes, afinal, se pareceriam.

Mas em Por detrás das palmeiras (2025) o que veremos mesmo é uma espiral de autodestruição de quem achou que poderia ser “um deles”. No caso, um jovem formado em arquitetura e que sequer tentou a carreira, pois precisa ajudar o pai, dono de uma pequena empresa de construção civil em Marrakesh. Ele é filho único, a mãe é professora, a vida parece digna, porém  Mehdi (Driss Ramdi), embora não expresse querer mais do que isto, tem a ambição provocada pela herdeira francesa Marie (Sara Giraudeau), filha do casal cuja casa em Marrakesh Mehdi e o pai fazem uma obra.

A depender da cenografia, a casa marroquina é escura, a francesa  é luminosa. Mehdi sente-se melhor ali, onde tem relações sexuais com Marie, o que, até uma certa altura, é impossível concretizar com a namorada marroquina Selma (Nadia Kounda), a mesma do cinema.

Ter duas namoradas sendo muçulmano é um problema e quando uma delas engravida, o problema vira catástrofe. 

No filme de Meryem Benm’Barek, o desejo de ascensão social passa a orientar as escolhas de um jovem dividido entre dois mundos.

No contexto de um país muçulmano, cujas tradições familiares ditam as regras, é apenas um pano de fundo. O outro, que a diretora e roteirista marroquina Meryem Benm’Barek trabalha no filme, é o do colonialismo. Formam realidades imbricadas, sem as quais o enredo de Por detrás das palmeiras seria apenas mais um pequeno drama de um rapaz enredado em duas relações amorosas.

Benm’Barek constrói um protagonista canalha sobre o qual é oferecido  um olhar terno. Isto porque Mehdi é um perdido, que gosta da namorada/noiva marroquina. Ela cozinha bem, cuidará dele como esposa e tem toda sorte de “qualidades” que uma mulher deve ter. Entretanto, Mehdi almeja a ascensão social através da família estrangeira. O colonizador sempre tentando o colonizado. Mehdi abandona a moça de princípios religiosos firmes e engana-a apostando que será aceito pela família francesa. Só que o fato de ser arquiteto não lhe garante status.

Em “Por Detrás das Palmeiras”, o colonizador segue tentando o colonizado, e Mehdi aposta que a ascensão social virá pela família estrangeira.

Estereótipos – A visão dos estrangeiros no filme é um tanto estereotipada. São fúteis,  drogados, enlouquecem do nada, não dão valor ao conceito de família, etc. Há um maniqueísmo na estrutura do roteiro para que o espectador perceba facilmente os modos de vida do colonizador e do colonizado e as opções erradas de Mehdi.

A representação das mulheres estrangeiras é a menos lisonjeira, a elas sendo negadas  dimensões tridimensionais, com aspectos positivos e negativos. Benm’Barek  pesa  a mão principalmente na personagem vivida por Carol Bouquet, que interpreta a mãe de Marie. A pretexto de defender a filha de mais um interesseiro no dinheiro da família, consegue ser cruel com o marroquino, com toques de elegância, finesse e desespero. A questão é: se a mãe de Mehdi fosse uma mulher rica,  agiria da mesma forma para proteger uma filha? É possível que sim, porém há um evidente componente colonial que preenche todas as camadas do filme e não podemos ignorá-lo.  

As lutas de resistência, que culminaram em 1956 com a independência do Marrocos, podem não ter deixado tantos mortos quanto deixou em outras ex-colônias francesas, mas  os conflitos de classe perduram.  A própria ocupação espanhola ainda é algo não resolvido por lá, com enclaves espanhóis não reconhecidos pelo Marrocos. Só por esses ingredientes, vemos que as relações com estrangeiros não são pacíficas, embora o país dependa do turismo para manter-se.

No filme, a oposição entre os modos de vida marroquino e estrangeiro revela tanto as tensões históricas quanto os limites de uma representação maniqueísta.

Quanto aos conflitos ligados à religião/tradição, o  filme não os aprofunda, como o drama da jovem marroquina que pode ser abandonada grávida  pelo namorado e o que isto significa para sua honra. Mas nem seria preciso. O desfecho, que não deve ser contado aqui, passa pelo castigo.

Esta produção marroquina faz parte da programação da Mostra Cinemas Africanos, uma iniciativa que segue firme desde 2018 e crescendo: a edição 2026 é exibida no Rio de Janeiro (10 a 16 de setembro) e em Salvador (17 a 23 de setembro). Em Salvador, com uma programação que inclui oficinas e debates, centrados nesses cinemas emergentes e periféricos.

Por uma coincidência de datas, o cinema do Magreb, região da África Setentrional,  pode ser conferido também na Mostra de Cinema Árabe, que acontece em São Paulo em setembro. Mas não se engane o leitor: somente as grandes capitais conseguem realizar estes feitos. As cinematografias africanas, que incluem parte do cinema árabe, continuam sendo periféricas quanto à circulação. Para sair da constatação à ação, os interessados devem correr atrás de links ou recorrer ao streaming, torcendo para que o algoritmo não ignore seus desejos.

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