X

0 Comentários

Festivais

28ª Fest. do Rio (2026) – Eu Sou Mário

Quando a delicadeza é um esforço burocrático

Por Cléber Eduardo | 08.10.2026 (quinta-feira)

Existem filmes empenhados em um tom  delicado, diante de situações complexas de serem transformadas em cinema, com evidência excessiva do esforço pela  delicadeza, sobretudo no emprego da trilha musical. É o caso do drama mexicano Sou Mario, da atriz e diretora Sharon Kleinberg, que estreou no Festival de Toronto e foi premiado no de Guadalajara. A produção do México, uma das três mais importantes em volume e em repercussão internacional na América Latina, tem de tudo um tanto. Como outras.

Estamos desde os primeiros momentos em uma proposta de streaming movie, mesmo não sendo, centrada em um homem trans em gestação, com tudo o que daí se desdobra, seja no universo familiar, seja no ambiente profissional e masculino de motoristas de táxi. Não é um filme queer, como se pode pensar apressadamente, mas um filme fofura. O drama existe, a questão de gênero está posta, mas o sentimentalismo predomina. Nenhuma dor é para ser levada tão a sério. No máximo, para comover, superar logo.

Entre a experiência familiar e o ambiente masculino dos motoristas de táxi, Mario atravessa uma gestação que desorganiza as certezas ao seu redor.

Por que streaming movie?  Porque existe antes do tema uma proposta visual, com enquadramentos adeptos do padrão qualquer nota, com desfoque no fundo, com proximidades de câmera genéricas e burocráticas, sem nada de inventivo ou expressivo. A visualidade se encarrega de um mero relato. Nada ou pouco é expresso pela condução estilística. Toda a quebra de normalidade ofertada pelo ponto de partida se torna cenicamente frágil e pálida. É uma película mexicana bege. E morna. Uma raridade.

É uma premissa e tanto, mas sub aproveitada. Um filme colado em personagem, entre o engajamento, a solidariedade e certo vampirismo do sofrimento individual, com um roteiro cuja complexidade é simplificada pela direção, atolada em empenhos emotivos. Coitado do rapaz grávido após um sexo no banheiro com outro taxista. Estar com um personagem não é alimentar a compaixão por ele (gesto de arrogância dos mais fortes em relação aos mais fracos, eleitos como mais fracos pelo olhar auto considerado mais forte). O olhar é fraco.

Uma visualidade discreta e pouco expressiva acompanha Mario, transformando uma premissa potente em um relato de tons mornos.

De qualquer modo, há uma especificidade. Não se trata de uma tragédia pessoal, mas de uma confusão identitária e hormonal, com personagem em trânsito entre dois gêneros, com aparência masculina, mas hormônios também femininos, fragmentado entre uma coisa e outra, incorporando ambas em sua experiência inusitada. Talvez seja pouco, mas é algo, pelo menos em relação a abordagem do personagem, interpretado por um (não) ator trans, que, uma vez na tela, torna-se ator

Se as fragilidades generalizadas são notáveis nas conversas em família, durante as refeições, por conta do modo de filmar e de interpretar, é também nesses momentos que o filme oferta algo mais seco e amargo, para além dos momento solitários do protagonista com expressão física e corporal de “perdido na vida”. Nessas conversas familiares, apesar da falta de habilidade na encenação. vislumbramos seres humanos, não somente representações que tentam nos conquistar, mas sempre pelo esforço em demonstrar delicadeza.

Mais Recentes

Publicidade

Publicidade