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Festivais

28ª Fest. do Rio (2026)- O Jardim Que Sonhamos

A expressão autoral na dinâmica do espetáculo

Por Cléber Eduardo | 09.10.2026 (sexta-feira)

Um dos mais frequentes desafios auto impostos pelos diretores mexicanos às suas habilidades e filmografias é, sem nenhum paradoxo, o amalgamento entre desejo de expressão autoral e, em igual medida, o desejo de ser expressivo na intensidade formal  de uma lógica do  espetáculo (Guillermo del Toro, Alfonso Cuarón, Alejandro González Iñárritu). O México é muito próximo dos EUA para não ser afetado por seus paradigmas. Não significa, necessariamente, mera transfusão. Sequer esvaziamento de possibilidades expressivas. Del Toro é o maior exemplo.

Para o mexicano Joaquim del Paso em O Jardim que Sonhamos, seu terceiro longa metragem, a intensidade do espetáculo é uma aliada para sua expressão, não obstáculo com o qual se negocia ou se engole por imposição. O movimento é de absorção do espetáculo. E reside nessa absorção o poder do filme e suas contradições em relação às situações filmadas. A lógica do espetáculo potencializa forças e armadilhas. É seu limite e seu atrativo. A capacidade de atrair é também o poder do engodo. Tudo se torna digerível e prazeroso mesmo no sofrimento. A tradição da qualidade técnica acima da artística.

Em “O Jardim que Sonhamos”, a intensidade visual e a trilha sinfônica amplificam o sofrimento dos personagens, tornando o espetáculo uma força expressiva e, ao mesmo tempo, uma fonte de contradições.

Lida-se com a corrente migratória no México, mas de modo mais particularizado que como questão nacional, centrando o drama físico e emocional em uma família de haitianos, que vive jornada física e épica de experiências hostis em bosques e em fuga constante. Esse estado de sofrimento é intensificado e embelezado visualmente. A trilha sinfônica não tem pudor em extrair o máximo de tensão e emoção das situações brutais. Del Paso é anti-discreto e anti-descritivo. Há imaginação visual e cênica em seu estilo. Precisão na escolha de onde colocar a câmera. Controle da ação encenada. É um cinema físico. E visual. 

Com todos os seus possíveis senões pelo modo de representar a atrocidade correlata a situação migratória, O Jardim que Sonhamos é o filme mais maduro do diretor, mais ambicioso e mais controlado em seu desafio de ser grande na aparência e no aparato, sem perder o domínio expressivo e se beneficiando do desafio da produção. É uma filmografia com mudanças filme a filme, mas sempre a se dirigir a uma plateia fora da casinha da cinefilia erudita. O que não significa ausência de inteligência cinematográfica. 

O primeiro longa, Maquinaria Pan Americana (2016), é uma comédia crítica, de aparência destrutiva e maluquinha, mas cheia de atenuantes, com excesso de caricatura apaziguadora. Na mira, a tradição sindical mexicana, o paternalismo social, o caos sem norte. O filme estreou na mostra Panorama do Festival de Berlim, mesma onde estreou O Jardim que Sonhamos. Um início pelo alto, alto mais pelo festival que pelo filme em si, modesto e inofensivo. Nada nessa estreia inspirava expectativas positivas para sua continuidade.

Em meio à jornada da família haitiana, as borboletas-monarcas estabelecem um paralelismo entre as experiências humanas e os ciclos da natureza.

Que salto. O segundo longa, El Hoyo en la Cerca, é mais complexo. E em todos os níveis e naturezas: na encenação, na explicitação ao mesmo tempo intensa e virulenta dos  ressentimentos raciais e de classe no México, no retrato cruel (com excesso de ênfases, aparentemente sua marca) de um grupo de adolescentes em acampamento religioso, alimentados de intolerâncias de viés étnicos, sociais e de sexualidade, uma espécie de treino de escoteiro com vistas à formação de uma extrema direita. Quem não tem pele clara de linhagem europeia torna-se suspeito, temido e agredido pelos whitexicans. 

El Hoyo en la Cerca está mais próximo de O Jardim que Sonhamos, com mais investimento na câmera e na encenação, com mais virulência física na exposição dos conflitos, com uma seriedade política  sem abandono do gênero (o suspense, o terror). Del Paso encontra de modo notável um controle sobre a autoralidade que se manifesta nas escolhas estilísticas estruturadas convictamente como estética do espetáculo (de alto nível). É um cineasta que se revela. Foi programado na Mostra Orizzonti do Festival de Veneza.

O realizador Joaquín del Paso.

O Jardim que Sonhamos estreou na Panorama de Berlim e foi premiado como melhor filme ibero- americano no Festival de Málaga. O filme cria um paralelismo entre as situações humanas e das borboletas monarcas na floresta onde tudo se passa. Há uma tonalidade ecológica na representação das explorações humanas e da natureza. Essa camada não entra com setas de necessidade temática de momento. Entra como parte do território representado. Dos filmes latino americanos no Festival do Rio, esse é dos mais interessantes. Fiquemos atentos à continuidade de Del Paso.

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