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Críticas

Vermelho Como o Céu

O som como norte das emoções

Por Luiz Joaquim | 25.10.2007 (quinta-feira)

A Sessão de Arte do UCI/Ribeiro dá mais uma chance amanhã (às 21h) e sábado (às 11h) no Shopping Boa Vista, e de segunda a quinta (às 19h) no Shopping Recife, de assistir “Vermelho como o Céu” (Rosso Come Il Cielo, Ita., 2006). No filme, o cineasta Cristiano Bortone nos conta de forma quase onírica um momento marcante da infância de um dos mais proeminentes engenheiros de som do cinema italiano: Mirco Mencacci. Assim falando, “Vermelho…” pode soar como mais uma obra cinebiográfica, direcionada a um grupo restrito, interessado em especificidades do cinema. Errado.

Mirco ficou cego aos dez anos após uma brincadeira inocente com a espingarda do pai, e é por esse momento de brutal transformação em sua vida que “Vermelho…” passeia com muita segurança e nenhum pieguice. Bortone não perde tempo estimulando o sofrimento do espectador a partir da tristeza ou dor de Mirco. Ele parte logo para o desafio do garoto em ultrapassar a nova barreira que a vida lhe colocou na frente. A cegueira é tratada como uma condição física e não como uma condenação.

Mirco (interpretado pelo ótimo Luca Caprioti) é um garoto especial por ser sensível à arte, aos elementos da vida que lhes cercam, e não por ser cego. E é essa capacidade de superação (sem soar moralista), que o filme celebra. Mirco é, inclusive, muito espirituoso e rebelde para sucumbir aos desafios, e encontra estratégias para dar vazão a sua paixão pelo cinema.

Até meados dos anos 1970, os deficientes visuais na Itália iam para uma escola específica para eles, onde aprendia lições profissionalizantes de tecelão ou telefonista. Eram impedidos de freqüentar escolas comuns. Num processo de rompimento com esse status quo, o garoto toma posse de um gravador rudimentar e descobre que pode `prender`os sons e, ordenando-os, transformá-los em narradores de histórias. É o início de uma nova vocação para um deficiente visual.

Com a visão comprometida, Mirco atenta para o fato de que os sons podem ser usados não só para transmitir informações, mas também evocar emoções, e de forma tão competente quanto palavras ou figuras. Quando Cristiano Bortone ilustra com imagens os sons captados pelo menino Mirco, percebemos que ali em “Vermelho como o Céu” (expressão tirada de uma fala de Mirco que explica a um amigo, cego de nascença, como são as cores) está um extraordinário trabalho de edição de som. Bom mesmo é saber que o responsável por este trabalho foi o próprio cinebiografado, Mencacci, a quem até Michelangelo Antoniani desdobrou elogios.

Como se não bastasse, o filme ainda encontra espaço para um pequeno romance, o primeiro amor de Mirca (que rende um dos beijos mais ternos do cinemas nos últimos anos), e também para as trelas e brigas da molecada típica de sua idade. Tenha ela a audição aguçada ou não

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