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Críticas

Senhores do Crime

À maneira russa

Por Luiz Joaquim | 22.02.2008 (sexta-feira)

Não é só por estar concorrendo ao Oscar de melhor ator em “Senhores do Crime” (Eastern Promises, EUA/Ing., 2007), de David Cronenberg, que o Viggo Mortensen merece atenção aqui. É também porque ele protagoniza uma das melhores performances como um mafioso russo já feitas para o cinema (que não seja russo). Bem longe daquele estereótipo que estamos habituados a ver em bobagens hollywoodianas, com vilões russos fazendo cara de mal e berrando frases ininteligíveis em meio a um ambiente norte-americano, o vilão de Mortensen é rico em nuances na sua personalidade que só colabora para deixá-lo mais mais intrigante e apavorante a quem lhe observa.

Em uma das primeiras seqüências, a câmera de Cronenberg se concentra no rosto do ator. É quando o seu personagem precisa cortas os dedos e arrancar os dentes de um defunto encomendado para evitar sua identificação. Aqui já percebe-se a competência de Mortensen através dos detalhes sutis da expressão em seu rosto, revelando nenhum pingo de remorso ou dúvida no seu ofício. Fica estabelecido que estamos diante de um homem frio e determinado.

Cronenberg, que também poderia estar concorrendo como melhor diretor na festa deste domingo, é, claro, uma figura chave no processo de impor o clima de tensão que “Senhores…” carrega consigo.

O diretor canadense aplica sua habitual intensidade dramática aqui, mas não seu conhecido dom para nos passar outras idéias, que ficam abaixo da superfície óbvia do enredo. Dom que já usou muito bem em obras como “Spider” (2002), “eXistenZ” (1999) e “Crash” (1996) só para citar três.

Pelos vários momentos de violência gráfica (e são muito, e intensos), “Senhores…” mostra-se bastante sanguinário. À propósito, há uma comentada seqüência de luta que envolve lâminas afiadas e nenhuma roupa, que já tornou-se antológica no cinema e deverá ter muitas outras cópias pobres em filmes menores no futuro.

Sobre o enredo, temos Naomi Watts como uma médica que atende uma grávida ucraniana numa emergência. O bebe consegue ser salvo, assim como o diário da mãe falecida, que revela os segredos perversos de um russo (Mueller-Stahl) residente em Londres dono de um restaurante.

Nikolai (Mortensen) é seu motorista, mas pelo empenho nas funções do mal, acaba sendo promovido para fazer parte da “família”. Com isso vem o desgosto do filho natural (Vincent Cassel) de Semyon (Mueller-Stahl). Cassel é um francês, interpretando um russo que fala inglês. Difícil, mas bem defendido por ele.

“Senhores do Crime” pode ser melhor usufruído pelo público conhecedor da obra de Cronenberg se este público for encará-lo sem muitas expectativas de encontrar algo revelador. O outro público, não íntimo de seu trabalho deve se preparar para cenas impiedosas envolvendo navalhas (bem mais desgovernadas que a de Sweeney Toda). Os dois tipos de espectadores encontrarão, de qualquer forma, um belo exemplar cinematográfico da fusão entre tensão e condução dramática.

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