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Críticas

Clube de Compras Dallas

Aprendendo com o brucutu

Por Luiz Joaquim | 20.02.2014 (quinta-feira)

Se um dos princípios de um bom filme é te colocar (bem) dentro de uma realidade que você desconhece, então “Clube de Compras Dallas” (Dallas Buying Club, EUA, 2013), do canadense Jean-Marc Vallée, é extremamente competente. Melhor ainda é quando você acha que conhece o assunto e se percebe impressionado ao entender que este filme te deu um nova dimensão sobre o tema, situação que também cabe na produção em questão.

Indicado a seis Oscars 2014 (incluindo melhor filme), o “Clube de Compras Dallas” traz um cadavérico ator Matthew McConaughey na melhor performance de sua carreira, além de resgatar à luz outro ator brilhante, mas esquecido, Jared Leto (de “Requiém para Um Sonho”, 2001). Além da assombrosa atuação da dupla, um das forças do filme está em não apenas se ater aos sofrimentos físico e psicológico do protagonista. Ele é o texano Ron Woodroof (McConaughey) que em 1985 descobre que é portador do virus HIV junto com um prematuro diagnóstico médico apontando que ele tem apenas 30 dias de vida.

Um diversidade de filmes ganharam fama por retratar tamanho drama – sendo “Filadélfia” (1993), dirigido por Jonathan Demme (e estrelado por Tom Hanks, vencedor do Oscar por este fime), o primeiro bancado por um grande estúdio. Ao mesmo tempo, outras produções se dedicaram a apontar digamos, conveniências, que ligam a indústria farmacêutica ao sistema governamental de saúde dos EUA – como “Sicko: $o$ Saúde” (2007), de Michael Moore. “Clube de Compras Dallas” faz os dois e é igualmente exitoso.

Em 1985, Ron é um eletricista brucutu que adora montar búfalos em rodeios e divide sua vida entre o cigarro, bebidas, drogas (cocaína é recorrente) além do sexo abundante e aleatório. Homofóbico, Ron descobre num rotineiro exame de sangue que é portador de um virus que 29 anos atrás era equivocadamente tido por muitos como que exclusivo dos homossexuais.

Uma vez renegado pelos amigos, Ron começa a estudar o assunto e descobre que a droga legalmente permitida para testes pelo governo americano à epoca, o AZT, na dosagem errada destruía ainda mais rápido sua já parca imunidade fisiológica. Por um contato no méxico (Griffin Dunne), Ron tem acesso a outros medicamentos, ainda não legalizados, só que mais eficientes no efeito de retardar as consequências da AIDs.

Sem nos deixar esquecer as crescentes limitações físicas e os preconceitos de seu protagonista – até porque o McConaughey ossudo e passando mal na tela não dá descanso para nossa atenção – o ótimo roteiro de Craig Borten e Melisa Wallack desenha um ácido e cruel retrato do quanto aspectos burocráticos/capitalistas num país pode colidir com o bom senso quando o assunto é salvar vidas.

Como uma sombra de bom senso aqui entra a médica Eve (Jennifer Garner), um tanto desconfiada das intenções da indústria farmacêutica e curiosa pela estratégia medicinal alternativa de Ron, que, aproveitando uma brecha da lei, cria o primeiro “Clube de Compras” em Dallas, como era conhecido à época instituições que por uma mensalidade fixa disponibilizava a seus associados medicamentos não encontrados nos EUA para portadores de HIV.

Fechando o cenário, temos Jared Leto. Um travesti que Ron conhece no hospital e de cara o ojeriza, para depois tornar-se sócio e, na sequência, desconstruir sua homofobia. Leto na pele de Rayon consegue construir situações absolutamente comoventes, tanto de graça quando de dor. Algo difícil e belo de prover nesta função misteriosa que é a do ator.

Oscar “Clube de Compras Dallas” é um dos fortes candidatos a estatueta dourada de Hollywood próximo dia 2 de março, concorrendo nas seguintes categorias: Filme, ator (Matthew McConaughey), ator coadjuvante (Jared Leto), roteiro original, montagem e montagem. Uma pena seu diretor Jean-Marc Vallée estar de fora.

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