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Críticas

Amor, Plástico e Barulho

Duelo de glamour

Por Luiz Joaquim | 22.01.2015 (quinta-feira)

16 meses após sua estreia no Festival de Brasília, em 2013, chegou enfim o momento do espectador comum, e não apenas aquele que frequenta mostras de cinema, conhecer a epopeia do cotidiano glamourizado vivido pelas heroínas Jaque (Maeve Jinkings) e Shelly (Nash Laila) em “Amor, Plástico e Barulho” (Bra., 2013). Esta produção pernambucana, que é o primeiro longa-metragem ficcional de estreia da diretora Renata Pinheiro, entra em cartaz hoje no Brasil e, especificamente no Recife nas salas São Luiz e da Fundação Joaquim Nabuco.

“Amor, Plástico…” parece ser um filme que apenas Renata Pinheiro, ao lado do produtor e roteirista Sérgio Oliveira, conseguiriam fazer com a dignidade que seus personagens merecem. Sérgio é diretor do ótimo curta-metragem “Faço de Mim o que Quero”; Renata, diretora de arte talentosa e requisitada pelo cinema brasileiro, além de autora de curtas que investigam as possibilidades da plasticidade e das cores na construção de uma dramaturgia.

Sobre as figuras de “Amor, Plástico…”, elas pertencem ao universo da música brega no Recife. É um universo próprio, mas cujas regras não se diferenciam de nenhuma outra do endinheirado show business musical no mundo. Assim sendo, questões como ascensão, decadência, inveja, soberba, traições, oportunismo aparecem na trajetória para baixo de veterana cantora Jaque, da banda “Amor com Veneno”, e no percurso para cima de Shelly, dançarina da mesma banda.

Dessa forma, são mínimos os dramas que se diferenciam dos bastidores da vida dessas duas estrelas populares para o da vida das bilionárias musas da música pop internacional, como Madonna e suas infinitas derivadas. As diferenças ficam concentradas apenas no que o dinheiro pode ou não comprar.

E quais seriam estes dramas? Vivendo na comunidade que parece ser Brasília Teimosa, Jaque toca sua vida como cantora-diva de uma banda brega. Entre um show e outro, ela ajuda o cantor Alan (Samuel Vieira) apresentando-o a um empresário. Este logo vira um sucesso que começa a ofuscar Jaque. Ao mesmo tempo, a iniciante dançarina Shelly não mede esforços para tornar-se uma cantora famosa. São circunstâncias do mundo artístico que já ganharam obras-primas no cinema, como “A Malvada” (1950), de Joseph L. Mankiewicz.

São por estes conflitos que ressaltam alguns problemas pessoais, particularmente o de Jaque quando percebe sua carreira diluir-se mesmo contra sua vontade. O sucesso é, como diz a própria cantora, tal qual “um copo de plástico vagabundo, que vai quebrando na sua mão antes que a gente termine de aproveitar o que tem nele”.

Maeve na pele da cantora, a proposito, foi premiada em Brasília como melhor atriz. O reconhecimento foi mais do que justo uma vez que, ainda que ela não estive bem em todo o filme (o que não é o caso), a atriz brilha num momento que já é antológico para o cinema nacional e a música popular brasileira. Acontece quando canta melancolicamente, e a capela, a canção “Chupa que é de uva”, do grupo Aviões do Forró. É comovente, assim como o é a entrega de Nash nesse papel que parece explorar seu talento ainda mais que em “Deserto Feliz” (2007), de Paulo Caldas.

E num filme sobre o mundo da música brega, não menos importante são as melodias que escutamos nele. O DJ Dolores e Yuri Queiroga fizeram um belo trabalho aqui com as composições criadas originalmente para o filme e em harmonia com o ritmo Brega. O senão fica para a música que Shelly e Alan entoam o refrão “Amor, Sublime Amor”, cujo pegada está mais para o house que para o batida technobrega.

PERFORMANCE – Em entrevista em Brasília, o roteirista e produtor do filme, Sérgio Oliveira, destacou a potência poética das canções do gênero Brega. “Muitas vezes ela é abafada pela própria sonoridade da música”. E, sobre a performance de “Chupa que é de uva” no filme, ele revelou: “a ideia desse plano serviu como um ponto de partida para a criação do filme”.

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