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Críticas

Através da Janela

A dor de um grito mudo.

Por Luiz Joaquim | 25.04.2018 (quarta-feira)

– publicado originalmente em 6 de Setembro de 2000 no Jorna do Commercio (Recife)

Logo na seqüência de abertura de Através da Janela – segundo longa-metragem de Tata Amaral – Selma (a atriz Laura Cardoso) se mira no espelho do guarda-roupa com um ar de riso, num tranqüilo contemplamento. Ela acaricia o seio e a cena sugere uma atípica perspectiva mostrada no cinema nacional. A sexualidade em personagens como o representado por Cardoso. Uma mãe sexagenária. O filme, finalmente, estréia no Recife neste domingo (10.9.2000), no Cineteatro Apolo.

Quando, no último 31 de março, mais de 2.200 pessoas se apinharam no Teatro Guararapes conferindo a pré-estréia nacional da produção (no IV Festival do Recife), todos perceberam que Através… vai além da abordagem ‘atividade sexual em idosos’ – já bem colocada por Caca Diegues em Chuvas de Verão (1978). O novo trabalho da jovem cineasta paulista apresenta também uma violência familiar. Desta vez, uma sutil violência, envolta por uma velada sedução entre mãe e filho.

Tata mostra aqui, diferentemente do elogiado trabalho anterior (Um Céu de Estrelas), que o não-dito, o silêncio, pode reverberar dolorosamente com bem mais efeito que um sonoro berro. Na história, ao longo de uma semana, somos colocados no cotidiano da casa de uma enfermeira aposentada de 65 anos e de seu filho de 24, o desempregado Raí (Fransérgio Araújo). Enquanto Selma devota toda sua energia para encontrar uma ocupação para o rapaz, Raí costuma montar na bicicleta e sair para encontros misteriosos. Indignada e preocupada, Selma começa a questionar o comportamento do filho até perceber que ela não ocupa mais o lugar que acreditava possuir no coração de rapaz.

O argumento simples de Jean-Claude Bernardet – que desdobrou-se em um belo roteiro feito em parceria com Fernando Bonassi e Tata Amaral – vai abrindo brechas para um tragédia de proporções muito além das amarradas por laços maternais. Por meio de uma segura interpretação de Laura Cardoso e outra (não tão segura) de Fransérgio, Tata ambienta um clima denso, mais uma vez entre quatro paredes, onde a inquietude de Selma resvala no espectador.

Como já mencionado, a inquietude em Através da Janela é fria. Calada. Talvez aí persista a força do mistério que envolve a relação mãe-mulher-filho-objeto-de-desejo que corre solta durante toda a projeção. Essa invasão na intimidade dos personagens, como um bisbilhoteiro que observa o movimento na casa do vizinho através de uma janela, não viria tão bem embalada se não fosse, primeiro, a competência de Cardoso como Selma;  se não fosse, em segundo lugar, os diálogos meticulosos; ou, terceiro, se faltasse a perturbadora trilha sonora de Lívio Tragtember e Wilson Sukorski.

Laura Cardoso encarna com tanta convicção a crescente angústia em ver o amor do filho se desvanecendo que fica difícil lembrá-la vestida em outro personagem que não o de Selma. Em um dos pontos altos da performance, a câmera parada de Tata enquadra uma Selma estupefata ao abrir a porta do quarto do filho. Revelado o motivo de tanto susto, fica revelado também a intenção da diretora: deixar a critério da platéia julgar o sentimento de Selma por Raí.

A sugestão de um afeto dicotômico da mãe pelo filho é mais apimentada quando um elemento externo entra na história. A vizinha Tomasina (Ana Lúcia Torre), a certa altura, questiona se Raí arrumou uma namorada nova. A precisão nos diálogos é tão milimétrica que, nesse momento, espectador nenhum pode afirmar se Tomasina ironiza o comportamento estranho entre mãe e filho; ou estava apenas largando um inocente comentário próprio de qualquer vizinha mais próxima. Na verdade, o que fica claro é que Selma não tem controle sobre seu destino (Raí), embora pareça que mãe e filho já saibam o que lhes espera.

Essa desconfortável realidade é pontuada por uma trilha sonora que funciona como um elemento ativo na história. É a música de Tragtember e Sukorsky que dá voz a comunicação silenciosa entre mãe e filho. O rebuliço na alma de Selma e Raí é extravasado via sons e ruídos que interagem com a som direto captado no set de filmagem. Após a exibição no Festival do Recife, Sukorsky revelou que realmente existia essa preocupação durante a mixagem. Como é o caso, por exemplo, do barulho de um portão que bate ‘em conformidade’ com o ritmo da trilha.

Poeticamente registrado pela fotografia de Hugo Kovensky em 82 minutos, Através da Janela é uma obra corajosa, que ousa falar de desesperança num país ultra-apegado à ilusões. O único senão fica por conta da limitada atuação de Fransérgio Araújo, pequeno diante de Laura Cardoso; mas a deficiência não chega a manchar o trabalho de Tata. Talvez o melhor exemplo do seu propósito no filme esteja registrado já na última cena, quando Selma joga a camisa de Raí num balcão de lavar roupa. Quase dá para ouvir o grito mudo da velha senhora.

OUTRAS ESTRÉIAS – Além do obrigatório Através da Janela, entra em cartaz Aimee e Jaguar (Alemanha, 1999), no Cinema da Fundação. O filme foi dirigido por Max Färberböck e traz Maria Schrader como uma judia cladestina na Berlim de 1943. Ela se apaixona pela esposa de um oficial nazista, mãe de quatro filhos. O filme é baseado na história de Lilly Wust (a alemã) que ainda vive em Berlim, aos 86 anos.

Na Sessão de Arte tem  A Lenda do Pianista do Mar (The Legend of 1900, EUA, 1998). Filme de Giuseppe Tornatore. Aqui, Tim Roth é ‘Novecento’, um homem que nasceu em primeiro de janeiro de 1900 (daí seu nome) a bordo do navio Virginiam. Ele nunca colocou os pés na terra e, o que conhece do mundo, é de ouvir falar das pessoas que passaram por sua ‘casa’.

No circuitão tem Regras do Jogo (Rules of Engagement, EUA, 1999), de William Friedkin. sobre um militar julgado por ter ordenar o assassinato de civis após salvar um embaixador americano de um país subdesenvolvido em conflito. Ainda no gênero ação: Bater ou Correr (Shanghai Noon, EUA, 2000). Desta vez, Jackie Chan está no velho oeste, sob a direção de Tom Dey, para resgatar uma mocinha de um seqüestro.

Revelação (What Lies Beneath, EUA, 2000), de Robert Zemeckis (Forrest Gump) tem Michelle Pfeifer como Claire. Ela tem um casamento perfeito com Norman (Harrison Ford). Mas o sonho vira pesadelo quando Claire começa a see dead people. A morta nas visões de Pfeifer é um caso antigo do professor de genética vivido por Ford. E a defunto não deixar o casal em paz até o fim do filme.

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