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Reportagens

Até onde vai o poder da crítica de cinema?

Profissionais da área falam sobre o poder de influência de uma crítica de cinema.

Por Luiz Joaquim | 23.07.2018 (segunda-feira)

– publicado originalmente no jornal Folha de Pernambuco em 31 de agosto de 2005 (na foto acima, Fernando Spencer – 1927-2014 – em foto de Hesíodo Goes de 2010).

Há duas semanas, circulou pela imprensa mundial uma informação de que a Sony Pictures Entertainment havia indenizado um grupo de cinéfilos dos Estados Unidos com US$ 1,5 milhão (cerca de R$ 3,5 milhões [em 2005]). O dinheiro, segundo Norman Blumenthal, supria o logro que os cinéfilos sofreram quando descobriram numa reportagem da revista norte-americana Newsweek que a Columbia Tristar (do grupo Sony) usava resenhas supostamente escritas por um crítica inexistente chamado David Manning. As crítica foram usadas pela Sony para fazer publicidade de alguns filmes e os leitores alegaram estar sendo induzidos a ver filmes medíocres.

O poder (ou não) de influência da mídia sempre foi um assunto controverso, em particular o da crítica de arte e, por conseguinte, o da crítica de cinema. Para saber o quanto a publicação de um texto valorativo sobre um filme induz o leitor a ir (ou não) ao cinema, o CinemaEscrito procurou profissionais consagrados de todo o País. Para Inácio Araújo, da Folha de S. Paulo, o crítico só leva poucos leitores a ver pequenos filmes; ou então fazem com que muitas pessoas deixem de ver um pequeno filme.

Fernando Spencer, responsável pelas resenhas cinematográficas do Diário de Pernambuco entre o final dos 1960 até os 1990 concorda com a constatação e lembra que na sua época de crítico publicava textos elogiosos a diversos filmes alternativos e mesmo assim a frequência era mínima. “O crítico de cinema sempre teve estigma maldito. Na redação me perguntavam qual era o pior filme da semana e aí me dizia ah, então é esse que vou assistir”, recorda Spencer.

Celso Marconi, seu antigo concorrente, no Jornal do Commercio (Recife), também sofria a mesma brincadeira entre os colegas mas acredita que hoje o leitor está mais educado e nesse sentido lê a crítica. Para ele: “O circuito alternativo também não é mais tão fechado como há 20 anos, e o cinema de boa qualidade é mais divulgado”.

Marcelo Lyra, crítico do jornal Valor Econômico e colaborador da revista Istoé Gente, acredita que o “boca-a-boca” e a opinião dos amigos têm uma influência muito grande, “talvez maior que a dos críticos”, diz ele. João Sampaio, do jornal baiano “A Tarde”, lembra que a crítica não é uma ciência exata e explica que “mais recentemente, com o estreitamento do espaço para os textos nos jornais, e em contraposição cada vez mais da oferta de filmes no mercado, a crítica passou a ser uma espécie de indicação prévia a subsidiar a decisão do espectador-leitor em investir ou não na compra de um ingresso”.

Lyra concorda e acredita que o leitor hoje procura certificar-se que vai fazer a melhor opção: “Em sua maioria, o leitor não tem tempo ou dinheiro para ver todos os filmes. Assim, até mesmo por sistemas de cotações, em forma de estrelinhas, bonequinhos ou equivalentes, ele toma sua decisão. Com o tempo, na base do erro ou acerto, ele vai eleger o crítico em que confiar”.

Inácio Araújo arremata e diz que infelizmente essa é a lógica de nossa sociedade, que vive mais da publicidade. Em complemento a esse raciocínio, Carol Ferreira, que atuou como crítica da Folha de Pernambuco entre 2001 e março de 2004, observa que muitos leitores vão ao cinema para ver “o novo filme Tom Cruise” e não o novo filme do autor “Spielberg”, citando Guerra dos mundos.

O crítico da revista Época, Cléber Eduardo, ressalta que filmes arrasa-quarteirão e de médio porte da indústria norte-americana já trabalham a mídia e impressa dessas obras antes mesmo do roteiro ser finalizado ou as filmagens iniciadas. “A crítica interfere mais em filmes de pouca visibilidade, que tem tímida campanha de marketing. Você sabe o que Kiarostami e Godard vão fazer daqui a 12 meses? Dificilmente, mas certamente sobre o novo projeto de Spielberg e Peter Jackson”.

O economista Wilson Grimaldi sempre lê algo sobre a obra antes de ir ao cinema, mas não segue à risca o que diz a crítica: “Não me guio pelo que escrevem Vou atrás do meu gosto. Cinema hoje em dia é uma diversão cara e deve escolher bem antes de ir”, confessa. Já a universitária Mariana Rabelo acredita nos críticos na maioria das vezes. “O profissional tem de aguçar minha curiosidade e não só dizer que os efeitos são bons, me prender na história, se não, nem ligo”, reflete.

Alexandre Figueirôa, 2005

FILMES PEQUENOS PRECISAM DA CRÍTICA – O professor Alexandre Figueirôa, crítico do Jornal do Commercio (Recife) entre 1991 e 1995, lembra que nos Estados Unidos o desempenho na bilheteria rege boa parte dos comentários da crítica. “Acredito que no Brasil, uma crítica favorável pode ajudar um filme brasileiro e uma desfavorável também pode influir negativamente, desde que esse filme não tenha um superlançamento com trabalho de marketing proporcional”.

Carol Ferreira diz ainda que, possivelmente, o folclórico descrédito que o leitor alimenta contra o crítico tenha relação com o fato de que são poucos os profissionais de referência e credibilidade no mundo inteiro. De qualquer forma, Cléber Eduardo ressalta que o trabalho da crítica não pode ser relegado. Ele diz que filmes com lançamentos discretos, mas não menos importantes, como The brown bunny, de Vincent Galo, Nossa música, de Godard, ou Dez, de Kiarostami, só para citar três, precisam de críticas boas, ou melhor, ótimas.

“Esses filmes sofrem o estigma de que é programa cabeça, com imagens paradonas. Todos esses preconceitos que persistem e funcionam como empecilho para o espectador entender o porquê é paradão, silencioso e reflexivo”, diz Eduardo.

Essa função do crítico está num conceito formulado por João Sampaio sobre a crítica de cinema. “A primeira função é estabelecer parâmetros e dar subsídios para o leitor possa avançar na sua leitura de um determinado filme, permitindo que um novo diálogo se estabeleça, além daquele que já ocorre na sala escura, quando o então espectador decodifica e interpreta o discurso forjado pelas imagens que vê na tela”, concluiu.

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