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Críticas

O Grito

O susto que vem do Japão

Por Luiz Joaquim | 30.08.2018 (quinta-feira)

-publicado originalmente em 7 de Janeiro de 2005 no jornal Folha de Pernambuco

Quando O Chamado  (The Ring, 2002), foi americanizado a partir do cultuado filme japonês Ringu (1998), abriu-se uma porta larga para dar passagem no mercado internacional ao gênero conhecido como J-horror. A chegada hoje ao circuitão de Grito (The Grudge, EUA, 2004), mostra que o filão já fincou pé no terreno do entretenimento e promete gerar frutos no futuro, agora com a chancela hollywoodiana.

O mesmo Takashi Shimizu que conduziu o original japonês (Ju-On, 2003) está a frente da nova versão, que inclui tanto atores ocidentais, como Sarah Michelle Gellar (de Buffy: A Caça Vampiro) e Bill Pullman (de Estrada Perdida), assim como atores orientais, Yoko Maki.

O projeto de refazer o filme em inglês ganhou fôlego quando o Sam Raimi (Homem Aranha 1 e 2, A Morte do Demônio) tomou gosto pelo projeto de Shimizu, que titubeou antes de aceitar a tarefa de criar um mesmo filme sobre a mesma história, agora adequado ao gosto norte-americano. Para fazer a adaptação do roteiro, Shimizu contou com a ajuda do americano Stephan Susco.

Em declaração a imprensa, o produtor da versão oriental do filme disse que talvez o maior desafio nessa adaptação foi “fazer concessões quanto às divergentes sensibilidades dos cineastas japoneses e americanos e o que eles acham que seja assustador para o público”.

O produtor japonês se referia exatamente às características dos J-horrors, ou seja, os mistérios nos filmes de orientais nem sempre são desvendados e em muitos casos, nem se chega a conclusão em relação a história. Para o público japonês, essa qualidade por si só já é assustadora, enquanto que para o público americano uma resposta definitiva é quase que exigida.

Sabedor disso, o leitor que assistir O Grito poderá ter a sensação de que esse exercício de adaptação de um mesmo tema atendendo as duas culturas ficou capenga. E o andamento dessa história de terror caminha como um coxo, assim como os fantasmas que dão sustos neste filme de Shimizu.

A principio, O Grito funciona como uma competente máquina de gerar sustos, tendo como cenário uma casa mal-assombrada cuja maldição é mostrada em elipses pelo diretor japonês. As idas e vindas e as várias pequenas histórias dessa narrativa não-linear acaba servindo como um belo exemplo de como é a estrutura dos J-horrors, que se traduzem em: apresentar o sobrenatural agindo como age uma doença contagiante, criar sons grotescos agressivamente mixados na trilha sonora e mostrar fantasmas se manifestando através de tecnologia moderna.

Quem viu O Chamado deve lembrar de como letal poder ser uma fita VHS. Em O Grito, telefone celular e interfones também são instrumentos para criar o medo.  Talvez o que incomode no resultado final da versão ocidental de O Grito esteja no tratamento de como esse medo é desenvolvido. Enquanto o susto é moldado com competência, através de ferramentas sintáticas já testadas e aprovadas na linguagem do suspense em centenas de filmes do gênero, a construção do medo (esse sim, difícil de criar) aparece pobre, fraco de credibildade. A maior prova está na risada do seu vizinho de poltrona, que certamente irá achar graça (quando essa não é intenção do filme) em algum momento de O Grito.

O próximo J-horror a chegar no mercado com a chancela de Hollywood terá um dedo brasileiro. Chama-se Dark Waters (Águas Negras). Dirigido por Walter Salles, o filme também é baseado num filme de terror do Japão.

 

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