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Críticas

Zuzu Angel

Alta custura x Ditadura = Zuzu

Por Luiz Joaquim | 09.08.2018 (quinta-feira)

-publicado originalmente em 4 de Agosto de 2006 no jornal Folha de Pernambuco

Mesmo antes de chegar aos créditos finais de Zuzu Angel (Brasil, 2006) – que invade hoje os cinemas do País – a impressão que se tem é a seguinte: “esse filme será o novo arrasa-quarteirão brasileiro”. Não porque o novo filme de Sérgio Resende seja inovador; não porque a história de Zuzu é a aquela que todos queriam ver no cinema (poucos sabiam quem foi a estilista mineira); não porque o filme trás cenas memoráveis ou antológicas; e não por um virtuosismo na direção de Resende.

Mas sim porque Zuzu Angel administra bem uma fórmula narrativa esquemática de contar uma história forte e de forma fácil para o espectador; mas sim porque a história da estilista é tão interessante quanto desconhecida pela nova geração-pipoca, ou seja, aqueles que realmente enchem o cofre dos distribuidores e casas exibidoras; mas sim porque o filme trás uma combinação de elenco de telenovela em alta no ar (o ator Daniel de Oliveira, o Cazuza, foi visto e aprovado por 3,082 milhões de pagantes e está hoje no ar em “Cobras & Lagartos”); e sim  pela extra-poderosa chancela da Globo Filmes na divulgação.

É claro que o filme tem méritos autênticos como a sempre respeitável atuação de Patrícia Pilar, que ocupa aqui 90% do filme com sua beleza e talento. Mas são poucas as coisas que se podem enxergar como desprendidas nesse produto pensado mais para mobilizar o bolso das massas, e menos para fazê-los se questionar sobre si mesmo – apenas para citarmos um requisito do cinema que se pretende ir além do entretenimento.

Não se pode dizer que Zuzu Angel é um filme ruim. Olhando para trás, na filmografia de Resende, vemos um interessado em personagens reais: Tenório Cavalcante (1986), Lamarca (1994), Canudos (1997), Mauá (1999), e se pode dizer que Zuzu é seu filme visualmente menos extravagante – com exceção da experiência em Quase Nada (2000).

Estimulados pelo trailer que vem circulando há algum tempo mostrando uma Zuzu enfrentando aos berros os militares num tribunal sobre o “desacato de negar o corpo de um filho a sua mãe”, os espectadores se perguntam se vem aí um novo Olga (2004, 3,075 milhões de ingressos), de Jayme Monjardim. A resposta é: quase.

Zuzu e Olga são dois filmes sobre mulheres reais, mães, perseguidas. Mas o tom de Zuzu está mais abaixo que o melodramático em Olga, e o talento de Pilar se sobrepõe ao de Camila Morgado.

Usando uma narrativa em off , feita por Pilar/Zuzu, já começamos sabendo que ela é uma mulher acuada. Que tem medo de morrer e aos poucos, o filme recua no tempo para apresentar a escalada à fama feita pela estilista, chegando ao topo em 1971. O filme concentra-se, entretanto, nos cinco anos que se seguem daí, quando Stuart Angel Jones (Oliveira, sugerido ao diretor pela própria Pilar) desaparece durante uma operação de guerrilha contra a ditadura.

O primeiro calvário de Zuzu é sua pela busca do filho. O segundo, pela busca do corpo do filho, quando já possui a certeza do assassinato dele, em detalhes perturbadores, causado pelos militares.  

Zuzu Angel, o filme, entra para o time de filmes brasileiros que já nascem com um objetivo simples e claro que é o de comover o espectador. E de forma limpa e não-traumática, apenas por 110 minutos, e se possível acompanhado com pipoca e refrigerante. Deve ser o eleito pela comissão oficial em 2007 para representar o Brasil no Oscar. O que é bem condizente com o que as majors norte-americanas esperam de um filme, ou quase, pois se a Hollywood norte-americana vence com a pirotecnia visual de Piratas do Caribe, a Hollywood brasileira quer vencer com o drama humano cheio de pó-de-arroz, com ruge e atores da TV.

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