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Festivais

53º Cannes (2000) – abertura

Tudo o que é cinema acontece em Cannes – texto de abertura sobre a 53ª edição do festival

Por Luiz Joaquim | 11.05.2019 (sábado)

– publicado originalmente em 7 de maio de 2000, domingo, no Jornal do Commercio (Recife). Acima, still do filme Estorvo, de Ruy Guerra. 

GLAMOUR Em sua 53º edição, o festival da Palma de Ouro reúne, em pé de igualdade, veteranos de Hollywood e realizadores desconhecidos

Todos os anos, no mês de maio, um balneário francês, a 903 quilômetros de Paris, transforma-se no lugar mais importante do planeta para os olhos dos que enxergam o cinema com carinho. É em Cannes o espaço onde se reúne, pela primeira vez do ano, a melhor concentração de novidades cinematográficas que o mundo produz.

Pelo segundo ano consecutivo, o Jornal do Commercio vai publicar, com o apoio da Aliança Francesa, matérias exclusivas do Festival Internacional de Cinema de Cannes, hoje na 53º edição. O JC foi o primeiro, e é o único no Norte/Nordeste, a enviar um repórter especial para o evento. O crítico Kleber Mendonça Filho vai estar no Festival que começa na próxima quarta-feira, às 19h (14h em Brasília), com a projeção de Vatel, de Roland Joffe, com Gérard Depardieu e Uma Thurman no elenco.

Cannes é uma espécie de marco zero temporal para películas que se tornarão clássicos da sétima arte. Passar pela seleção de classificação e participar do evento é uma espécie de passaporte para o reconhecimento mundial. Ser um dos premiados então, é garantia de respeito pela crítica especializada de qualquer idioma que abrigue a palavra ‘cinema’ no vocabulário. Durante 12 dias, um júri composto por nove personalidades, entre eles Jeremy Irons, Jonathan Demme e Kristin Scott Thomas, serão presididos por Luc Besson (diretor de Joana D’Arc) para escolher um vencedor entre os 23 longas vindos de vários países (incluindo o Brasil) na competição oficial.

Cannes tem a saudável peculiaridade de colocar veteranos disputando a mesma Palma de Ouro (prêmio do evento) com jovens talentos desconhecidos. Dessa forma, estão em pé de igualdade o ‘dogmático95’ Lars Von Trier, com seu Dancer in The Dark (com Catherine Deneuve e a cantora Björk); os irmãos Coen, em O Brother, Where Are Thou (com George Clooney e Holly Hunter); e o diretor Nagisa Oshima (de O Império dos Sentidos). O cineasta japonês polemiza agora com Gohatto, falando da homossexualidade entre os samurais. No elenco, Takeshi Kitano, que encantou o mundo em 97 com Hana-bi.

Também na mostra oficial Liv Ullman, discípula de Ingmar Bergman, com Trolosa; Neil Labute (diretor americano apresentado ao mundo por Cannes em 97 com Na Companhia de Homens) com Nurse Betty; e a iraniana Samira Makhmalbaf (A Maçã) que, aos 20 anos, é a competidora mais jovem a concorrer à Palma com Tkhate Siah (O Último Filme).

PARALELAS – Correndo por fora da mostra competitiva de longas e curtas, acontecem outras três categorias de exibição: Special Screenings, Un Certain Regard e Cinefoundation. Nenhum dos filmes exibidos nestas mostras disputam prêmios, mas Cannes inclui os participantes dessas categorias na concorrência pelo troféu Camera D’Or (desde que o filme esteja estreando mundialmente no Festival).

O Special Screening são sessões concorridas, já que, na maioria da vezes, os trabalhos são de cineastas que levaram alguma Palma de Ouro para casa. É o caso de Rolland Joffe, dono do título de melhor filme do ano em 86, com A Missão. Participando com Joffe no Special Screening está Ang Lee (Tempestade de Gelo), com Crouching Tiger, Hiden Dragon.

Um dos destaques da sessão Un Certain Regard é Asi Es La Vida, de Arturo Ripstein. O mexicano dirigiu o excelente Vermelho Sangue e esteve no balneário Francês ano passado com Ninguém Escreve ao Coronel. Atenção também para Capitães de Abril, da portuguesa Maria de Medeiros, e para Famous, dirigido pelo ator de Depois de Horas, Griffin Dunne.

Pela terceira vez, Cannes promove a mostra Cinefoundation. A intenção aqui é descobrir, divulgar e encorajar estudantes de cinema. A categoria exibe curtas e médias, divididos entre ficção e filmes de animação, realizados em escolas de cinema. No final, o Cinefoundation garante a três diretores que seu futuro primeiro longa-metragem será exibido em Cannes. Nada mal.

Estorvo, filme de Ruy Guerra, disputa Palma de Ouro para o cinema nacional 

– Cinco produções do Brasil participam de mostras oficiais e paralelas do Festival de Cannes

Para felicidade de cinéfilos brasileiros, cinco obras verde-amarelas vão marcar presença na Cote D’Azur francesa. No próximo domingo, Ruy Guerra exibe seu Estorvo, e concorre à tão cobiçada Palma de Ouro. O longa é baseado no romance homônimo de Chico Buarque. Quem vive o protagonista da história é o ator cubano Jorge Perugorria (de Guantanamera).

Eu, Tu e Eles, de Andrucha Waddington, está na mostra Un Certain Regard (um certo olhar). Este é o segundo longa de Waddington (o primeiro foi Gêmeas). Em Eu, Tu e Eles Regina Casé é Darlene, uma mulher que reside em Russa, vilarejo de algum lugar no Nordeste, com seus três maridos – interpretados por Lima Duarte, Stênio Garcia e Luis Carlos Vasconcelos (de O Primeiro Dia).

Três Minutos, de Luiza Azevedo, foi de Porto Alegre para Cannes e concorre à Palma de Ouro de curta-metragem. O filme é uma brincadeira a partir do espaço do tempo do título, que permite deixar uma mensagem na secretária eletrônica, passar um batom, correr 1.600 metros ou tomar uma decisão que pode mudar sua vida.

O quarto e quinto filme são conhecidos dos recifenses. Estiveram no último Festival de Cinema do Recife e arrebataram a atenção do público. Um é a animação De Janela Para o Cinema, de Quia Rodrigues. Em 14 minutos, o curta faz um divertido tributo ao cinema através de citações de 60 filmes com bonecos de massa caracterizados em ambientes clássicos da sétima arte. O outro é o frenético Rota de Colisão, do carioca Roberval Duarte, mostrando 10 personagens que se cruzam a partir de um roubo. O filme está programado na mostra não-competitiva Quinzena dos Realizadores.

TELEVISÃO – Está é uma das mais significativas participações do Brasil em Cannes nos últimos anos. A ausência brasileira nos anos anteriores refletia a própria situação da produção tupiniquim. Agora se evidencia uma alteração no perfil do evento. Mudou a relação de Cannes com a economia cinematográfica internacional. Sua seleção expõe a preocupação do cinema europeu de se defender do americano. Além disso o evento cresceu muito para a mídia. Antes era acontecimento que interessava mais à imprensa escrita, à crítica e aos próprios realizadores. Hoje, é cada vez mais um evento voltado para a televisão.

A propósito, o programa Cine-View, exibido às 21h25 de segunda a sábado pelo canal Telecine 1 (Net/Sky), vai trazer imagens do festival a partir de terça-feira. No dia 9, fala da história de Cannes; dia 10, comenta a programação da edição 2000; dia 11 exibe uma matéria sobre a abertura; dia 22, mostra os premiados, e dia 23, apresenta um programa completo com o balanço do festival.

Algumas das mostras oficiais 

Mostra Competitiva:

  • Sanger Fran Andra Vaningen, de Roy Andersson
  • Eureka, de Aoyama Shinji
  • O Brother, Where Art Thou, de Joel Coen
  • Kippur, de Amos Gitai
  • The Yards, de James Gray
  • Estorvo, de Ruy Guerra
  • Chunhyang, de Im Kwon Taek
  • The Golden Bowl, de James Ivory
  • Guiza Lai Le, de Jiang Wen
  • Fast Food Fast Women, de Amos Kollek
  • Les Destinées Sentimentales, de Olivier Assayas
  • Esther Kahn, de Amaud Desplechin
  • Code Inconnu, de Michael Haneke
  • Harry, Un Ami Qui Vous Veut Du Bien, de Dominik Moll
  • Nurse Betty, de Neil LaBute
  • Bread and Roses, de Ken Loach
  • La Noce, de Pavel Lounguine
  • Takhté Siah, de Samira Makhmalbaf
  • Gohatto, de Nagisa Oshima
  • Trolosa, de Liv Ullman
  • Dancer in The Dark, de Lars Von Trier
  • Untitled, de Wong Kar-Wai
  • Yi Yi, de Edward Yang

Special Screening (longas fora de competição):

  • Vatel, de Roland Joffe
  • Requiem For a Dream, de Darren Aronofsky
  • Missão: Marte, de Brian de Palma
  • Under Suspicion, de Stephen Hopkins
  • A Conversation With Gregory Peck, de Barbara Kapple
  • Crouching Tiger, de Hidde Dragon, de Ang Lee
  • Honest, de Dave Stewart
  • Cecil B. Demented, de John Waters
  • Avril (1962), de Otar Losseliani
  • Les Glaneurs Et La Glaneuse, de Agnès Varda
  • Stardom, de Denys Arcand

Mostra Un Certain Regard:

  • Things You Can Tell Just by Looking At Her, de Rodrigo Garcia
  • Preferisco II Rumore Del Mare, de Mimmo Calopresti
  • Capitães de Abril, de Maria De Medeiros
  • Famous, de Griffin Dunne
  • Le Premier Du Nom, de Sabine Franel
  • Patricia Mazuy, de Saint-Cyr
  • A La Verticale De L’été, de Tran Anh Hung
  • Oh! Soojung, de Hong Sang-Soo
  • Wild Blue, de Thierry Knaulf
  • The King Is Alive, de Kristian Levring
  • Tierra Del Fuego, de Miguel Littin
  • Jacky, de Brat Ljatifi & Fow Pyng Hu
  • Asi Es La Vida, de Arturo Ripstein
  • Abschield, de Jan Schutte
  • Lista de Espera, de Juan Carlos Tabio
  • Nichiyobi Wa Owaranai, de Yoichiro Takahashi
  • La Saison Des Hommes, de Maufida Tlatli
  • Woman On Top, de Fina Torres
  • Lost Killers, de Dito Tsintsadze
  • Eu Tu Eles, de Andrucha Waddington
  • Djomeh, de Hassan Yektapanah
  • I Dreamed Of Africa, de Hugh Hudson
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