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Festivais

23. Tiradentes (2020) – Natureza Morta

A vitória inevitável do instinto sobre a razão

Por Marcelo Ikeda | 01.02.2020 (sábado)

Natureza morta, de Clarissa Ramalho – Mostra Aurora – Natureza morta deve ser visto sob a sombra de duas mortes. O filme foi concebido como a parte final da trilogia ”Inquietante estranheza”, concebida pelo montador e cineasta Ricardo Miranda, que dirigiu os dois primeiros filmes, Djalioh e Paixão e virtude. No entanto, poucos dias após a primeira exibição pública de Paixão e virtude – justamente na própria Mostra de Tiradentes, em janeiro de 2014, há exatos seis anos –Ricardo veio a falecer de um mal súbito.

Coube então a Clarissa Ramalho, companheira de Ricardo e roteirista dos dois filmes anteriores, realizar o desfecho da trilogia. Aliou-se com o cineasta Luiz Rosemberg Filho (grande amigo de Ricardo) para realizarem juntos o filme. Mas, após ter sido contemplado no edital da Ancine, Rosemberg veio a ficar doente e acabou falecendo no ano passado.

Coube, então, por obra do destino, que Clarissa Ramalho dirigisse Natureza morta . O filme é uma direta continuidade dos dois filmes anteriores. De um lado, com uma equipe próxima de artistas, como o fotógrafo Antonio Luiz Mendes, a montadora Joana Collier e atores como Barbara Vida, Mariana Fausto, Paulo Azevedo, Rose Abdallah – e mesmo a participação especial de Helena Ignez. Mas, além da equipe próxima, a continuidade se expressa por um conjunto de recursos estilísticos – um filme que respira o gosto pela palavra, ao adotar um estilo brechtiano em que os personagens comentam suas próprias ações ao se referirem a si mesmos em terceira pessoa, descrevendo suas ações para a câmera, para a qual dirigem diretamente seu olhar. Com essa estratégia, o filme quebra o ilusionismo típico da transparência da narrativa clássica, e anuncia ao espectador que esse é um filme desvelando seu próprio processo narrativo.

Natureza morta , assim como os dois filmes anteriores, é um filme de falsas aparências, sobre o conflito entre razão e instinto, ou ainda, se a razão pode domar a volúpia e o desejo. Num filme organizado visualmente de forma tão planejada e cerebral, de modo que o movimento de corpo e voz de cada personagem seja milimetricamente marcado, é de se surpreender que o filme seja justamente sobre a vitória inevitável do instinto sobre a razão. Natureza morta é sobre como o desejo é fogo que arrasta tudo – e quanto mais se tenta reprimi-lo, mais ele tende a consumir tudo com sua força voraz. O amor – melhor dizendo, o desejo – é como a natureza: da mesma forma que constrói com sua beleza inefável, ele também destrói com sua fúria implacável.

Existe, no entanto, uma diferença central de Natureza morta para os dois projetos anteriores – e volto à sombra do destino com a carga das duas mortes. Esse é o projeto realizado por uma diretora mulher. Natureza morta tem como protagonista uma mulher (Lenita), belamente representada por Mariana Fausto. Mesmo tendo passado por centros de excelência em sua educação formal, Lenita, após a perda do pai, se retira numa fazenda. Conforme o tempo passa, seu corpo reage à solidão. Entre os homens que lhe passam – o médico Luiz Teixeira e o visitante Barbosa – a protagonista Lenita não consegue saciar seu desejo, por conta das convenções morais da sociedade que impedem que os corpos se atirem ao desejo. A repressão, portanto, não vem dos corpos ou da natureza, mas dos padrões sociais que domesticam o impulso do desejo. No entanto, mesmo reprimida, a natureza se rebela, ocupando seu espaço. A presença do feminino neste terceiro filme da trilogia traz esse espírito libertário da mulher que vê seu desejo reprimido por uma sociedade de homens. Nesse ponto, por ser um filme de época de falsas aparências, em que um extremo rigor e um suposto (falso) anacronismo aponta para uma análise da sociedade de sua época, em especial a solidão da condição feminina, sinto que Natureza morta dialoga com A portuguesa, filme de Rita Azevedo Gomes.

No entanto, quando os corpos finalmente parecem prontos a se entregarem ao desejo, à sua pura potência de ser, é quando estão prontos para morrer. O amor não existe sem a dor.

“A palavra amor é um eufemismo para abrandar um pouco a verdade ferina da palavra cio. Fisiologicamente, verdadeiramente, amor e cio vem a ser uma palavra só. A natureza não se resiste. E o amor é natureza.”

Amor e cio. Natureza morta , realizado por essa diretora mineira de São João del Rei,  cidade próxima a Tiradentes, é o antípoda de Amor & Cia.

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