
15° Olhar de Cinema (2026) – Um Balanço Geral
Festival confirma maturidade curatorial e apresenta uma safra expressiva de filmes brasileiros
Por Marcelo Ikeda | 20.06.2026 (sábado)
A 15a. edição do Olhar de Cinema aconteceu em Curitiba entre os dias 4 e 13 de junho de 2026. Essa edição comprovou um festival maduro, tanto em termos de sua organização quanto em sua curadoria. Pela sua abrangência, englobando uma competitiva de curtas e longas nacionais e internacionais, além de sessões especiais de filmes inéditos no país e de clássicos do cinema, o Olhar se confirma como um dos destaques da programação de festivais de cinema no Brasil.
O evento ocupa diversas salas espalhadas pela cidade de Curitiba, sendo as principais: o Museu Oscar Niemeyer (MON), onde ocorrem, à noite, as premières nacionais e internacionais; as duas simpáticas e charmosas salas do Cine Passeio, que sediam o coração da programação do festival, com as coletivas de imprensa e debates na parte da manhã, e sessões vespertinas e noturnas; e a Cinemateca de Curitiba abriga as sessões de curtas-metragens e sessões especiais, muitas delas gratuitas.
Tendo acompanhado exibições em todos esses espaços, posso atestar que a maior parte da grade contou com uma excelente frequência de público. Houve sessões, como a mostra de curtas-metragens na Cinemateca de Curitiba, em uma quarta-feira chuvosa às 15h45, completamente lotadas. Impressionou também uma sessão da Mostra Novos Olhares, dedicada a produções com investigações formais ainda mais arriscadas que as da competição principal, que, ao exibir um título espanhol às 13h30 de uma quinta-feira, alcançou cerca de 75% de ocupação da sala. Cumpre ressaltar que, à exceção da Cinemateca, a grade do festival é paga. O Olhar de Cinema, portanto, realiza um trabalho de referência na formação de uma plateia genuinamente cinéfila. Esse feito torna-se ainda mais expressivo quando lembramos que a programação é integralmente focada em filmes de pesquisa de linguagem, isto é, não são os apelos comerciais ou o star system que mobilizam o público a ocupar as salas, mas o desejo pelo risco estético (uma lição para nossa política pública…).

O filme pernambucano “Yellow Cake”, de Tiago Melo, exibido fora de competição.
A abertura do evento ocorreu na belíssima Ópera do Arame, completamente lotada em sua capacidade de mais de 1.500 lugares. É notável como o festival montou, em um espaço não específico para projeções cinematográficas, uma excelente estrutura de imagem e de som. Algo que era fundamental para a obra exibida (fora de competição): Yellow Cake, do pernambucano Tiago Melo. Em sua primeira exibição no Brasil após circular em festivais internacionais como o de Rotterdam (IFFR, onde teve sua world première), o longa examina os impactos da mineração numa pequena cidade do interior do Nordeste. O filme sobressai ao apresentar esse contexto político específico da região, mostrando como a descoberta e a exploração do Urânio transformaram radicalmente os modos de ser da pequena cidade de Picuí, em especial com a chegada de agentes estadunidenses ávidos por explorar os recursos minerais da cidade. No entanto, o cineasta esquiva-se do documentário de denúncia tradicional ou do intimismo micropolítico (vias adotadas por Maxita ou Miguel Bornier, exibidos na Mostra Competitiva Nacional) mas aborda essa questão sob a chave da farsa, por meio de uma escritura ficcional que dialoga abertamente com recursos do cinema de gênero norte-americano, em especial os filmes de espionagem. Há uma certa atmosfera de filme B calcada na paranoia nuclear, como, por exemplo, a explorada em A morte num beijo (Kiss me Deadly, pérola de Robert Aldrich). Quando os experimentos desastrados dos estrangeiros fazem eclodir um surto de mosquitos (com claros paralelos com crises sanitárias recentes), os insetos ameaçam invadir a cidade, com tomadas aéreas de planos ponto de vista dos mosquitos, que nos remetem diretamente a Os pássaros, clássico absoluto de Alfred Hitchcock. O filme também é claramente influenciado por Bacurau, ao apresentar uma espécie de pastiche antropofágico do cinema hegemônico, estruturado em torno de uma invasão estrangeira em um pacato vilarejo local. É instigante, ainda, como Yellow Cake articula ciência e cinema: a parceria com a Fiocruz garantiu acesso a imagens reais de experimentos laboratoriais com insetos e larvas, conferindo à produção uma textura rara no cenário nacional. Com isso, o filme problematiza eticamente a associação entre pesquisadores locais e estrangeiros, posicionando-se em um momento histórico em que a ciência brasileira enfrenta violentos ataques de vertentes de extrema-direita. Por fim, destaco a participação afetiva de Severino Dadá, um dos maiores montadores do cinema brasileiro, apelidado carinhosamente como o “cangaceiro da moviola”, com quem o diretor e o montador André Sampaio (filho de Dadá) já trabalharam em projetos anteriores.
Competitiva de longas nacionais
Um dos grandes desafios de um evento com a abrangência do Olhar de Cinema é a impossibilidade de “um único olhar” dar conta de todas as suas seções. Diante disso, este texto concentra-se em uma análise panorâmica das mostras competitivas de longas e curtas-metragens brasileiros. Essa delimitação não se ancora em qualquer juízo de valor – muito menos por considerar tais seções “superiores” às demais -, mas justifica-se estritamente por um recorte metodológico mais aderente à minha pesquisa pessoal.
A competitiva brasileira comprova a excelência curatorial do evento, sendo uma ótima oportunidade para conferir um amplo panorama de tendências e estilos do cinema brasileiro contemporâneo. Deve-se destacar que, segundo o regulamento do festival, todos os filmes da competição de curtas e longas devem ser inéditos em território nacional.

“Telúrica, a Íntima Utopia”, da realizadora pernambucana Mariana Lacerda
Este ano apresentou uma ótima safra de longas-metragens, mesclando realizadores com uma trajetória já consolidada no cinema de autor brasileiro e estreantes no longa-metragem. A competição também exibiu, de forma equilibrada, documentários e ficções.
Telúrica, a Íntima Utopia, dirigido pela pernambucana Mariana Lacerda, acompanha o processo criativo da Cia. de Teatro Ueinzz, em São Paulo, formada por pessoas com experiências de sofrimento psíquico, profissionais da saúde e artistas. O grande mérito do filme está em sua abordagem sensível e não estigmatizante, fazendo conviver, sem hierarquias, esses diversos atores sociais. O documentário em nenhum momento foca na dimensão terapêutica ou evoca, de forma didática, chavões sobre a saúde mental. Em vez disso, concentra-se na dinâmica criativa de um grupo de pessoas, com suas singularidades intrínsecas, que partilham o desafio de estrear um espetáculo teatral. A ansiedade, os percalços, as dúvidas e as vaidades pessoais são expostos de forma orgânica. Assim, o filme de Lacerda contribui para uma percepção mais ampla da neurodivergência sem recorrer a um viés pedagógico, integrando arte e vida de maneira lúdica e humanizada.
Já A Noite e os Dias de Miguel Burnier, de João Dumans, concentra-se nos efeitos nocivos da atividade mineradora, em especial da Gerdau, em um pequeno vilarejo no interior de Minas Gerais (Miguel Burnier), próximo a Ouro Preto. No entanto, o longa esquiva-se da denúncia macropolítica convencional. Dando continuidade à sua escritura fílmica, tanto na ficção (Arábia) quanto no documentário (As Linhas da Minha Mão), Dumans observa, de forma delicada e íntima, os modos de vida de sujeitos em situação de vulnerabilidade, frequentemente abandonados à própria sorte pelas instâncias oficiais. Com isso, a obra alinha-se às estratégias discursivas de uma vertente expressiva do documentário brasileiro contemporâneo, muito vinculada ao cinema mineiro, que engloba títulos como Baronesa (Juliana Antunes) e A Vizinhança do Tigre (Affonso Uchoa).

“A Noite e os Dias de Miguel Burnier”, de João Dumans.
Maxita, dirigido pelas cineastas Mariana Machado e Ana Maria Machado, também aborda os impactos do extrativismo e a devastação causada por grandes corporações mineradoras, mas desloca o foco para a Amazônia. A obra adota uma estrutura que tenciona, de um lado, o cinema militante e seu tom de denúncia e, de outro, o cinema indígena. Para articular essa complexa tessitura, o filme elege dois interlocutores privilegiados, que operam quase como um “star system” da cultura indígena: no filme, Davi Kopenawa reencontra o intelectual Ailton Krenak para tecer uma reflexão profunda sobre o colapso ambiental. Os grandes planos gerais de drone são impressionantes para mostrar, de forma inequívoca, as cicatrizes físicas da devastação no coração da floresta.
Adulto/Homem, de Pedro Diógenes, integra a abordagem documental a estratégias típicas do cinema experimental. Nele, o cineasta acompanha um conjunto de vinte intérpretes aguardando um teste de elenco. Visualmente, a obra se desenvolve em um único e elaborado plano-sequência que perfila os profissionais sentados à espera da audição. Paralelamente, a banda sonora evoca conversas com os participantes e reflexões sobre as potencialidades, os desafios e os percalços inerentes ao ofício do ator. A produção tensiona recursos que remetem a estratégias utilizadas em obras como Jogo de Cena (Eduardo Coutinho) ou Salve o Cinema (Mohsen Makhmalbaf), articulando-os a uma investigação formalista à la James Benning. Ainda que não totalmente bem-sucedido, o longa sobressai por seu rigor estrutural e por suscitar uma reflexão, mesmo que incipiente, sobre as agruras da atuação, especialmente em contextos periféricos e no cenário do teatro e cinema independentes descentralizados regionalmente.

“Maxita”, dirigido pelas cineastas Mariana Machado e Ana Maria Machado
Finalizando o bloco dos documentários, Reparação, de Marcus Curvelo, apresenta o drama do próprio realizador ao lidar com a perda de seu pai e de sua mãe, ocorridas em um intervalo de tempo dolorosamente curto. A obra insere-se na escritura do cinema em primeira pessoa e tornou-se um dos grandes destaques da programação, recebendo tanto o Prêmio Abraccine (o Prêmio da Crítica) quanto a menção honrosa do júri oficial. O filme enfrenta um desafio crucial: como representar a condição do luto sem espetacularizar a intimidade e sem repisar as estratégias de um nicho até certo ponto saturado pelo grande volume de produções contemporâneas, no Brasil e no exterior, voltadas ao universo familiar? A contribuição do notável filme de Curvelo reside justamente em propor caminhos discursivos que ampliam o leque desse campo de investigações sensíveis, articulando um material heterogêneo por meio de uma montagem preciosa. O tom cru, honesto e frontal com que o cineasta conduz a narrativa não entra em conflito com sua profunda delicadeza e sensibilidade. É um filme tocante que escapa aos lugares-comuns do gênero. Reparação, assim como Um Minuto é uma Eternidade para Quem Está Sofrendo, extraordinário filme de Fábio Rogério e Wesley Pereira de Castro exibido no ano passado na Mostra de Tiradentes, é um sinal preciso que o “cinema de garagem”, assentado em escrituras caseiras de si que assumem a precariedade para evocar as potências da vida, diante de suas (profundas) dores e (passageiras) delícias, continua plenamente vivo, a despeito de todos os percalços.

“Adulto/Homem”, do cearense Pedro Diógenes
A Competição Nacional também apresentou três longas-metragens com escrituras de mise-en-scène tipicamente ficcionais. Quase Inverno figurou como o representante local (paranaense) da competição. Nele, acompanha-se a adaptação de um drama de Tchekhov, no qual a prole distante de um núcleo familiar volta a se reunir após a morte do patriarca, refletindo sobre o destino que darão ao grande casarão e à fazenda, algo que que me lembrou da premissa de Valor Sentimental, filme oscarizado recente de Joachim Trier. Esse drama é encenado de forma sóbria pelo diretor Rodrigo Grota, que evoca expedientes clássicos situados na fronteira entre a literatura e o teatro. Embora alguns críticos presentes no evento tenham evocado o cinema de Ingmar Bergman, percebi uma atmosfera mais próxima das produções da Vera Cruz e do universo de Walter Hugo Khouri, cineasta paulista que também filmou no Sul do país. Nessa trama intimista, naturalmente recebe protagonismo o trabalho do elenco, em especial o feminino, em que destaco a atuação precisa e sensível de Simone Iliescu. É bastante interessante notar como Grota, cercado por uma trupe fiel de colaboradores, mantém uma produtora em atividade contínua em uma cidade do interior do Paraná (Londrina). Este é nada menos que seu oitavo longa-metragem, consolidando sua prolífica trajetória na direção.
Em contraste com o intimismo soturno de Quase Inverno, o alagoano Olhe Para Mim transborda a tela com o colorido de um road movie marcado por uma atmosfera rasgadamente jovem e queer. A trama desenvolve-se a partir do encontro inesperado entre Marcelo (numa surpreendente aparição do cineasta Ulisses Arthur, que estreia como ator) e Ivan (Luciano Pedro Jr.) em uma festa em Penedo, no interior de Alagoas. Movido por esse afeto, Marcelo decide deixar sua cidade natal e embarcar em uma jornada na estrada ao lado de Ivan e da mãe deste (Rejane Faria). O longa acompanha um processo de autodescoberta de identidades dissidentes enquanto corta o território alagoano, propondo um forte contraponto aos estereótipos sociais e geográficos mais repisados da região: em vez da caatinga, vemos uma natureza por vezes árida, mas muitas vezes plasticamente deslumbrante. À medida que o grupo avança, a narrativa adentra progressivamente o estado emocional dos personagens, abandonando as amarras do realismo para abraçar uma ambiguidade que incorpora o imaginário, o delírio e o místico – elemento que o diretor Rafhael Barbosa já havia investigado em seu primeiro longa documental (Cavalo, codirigido por Werner Salles Bagetti). A beleza, a ousadia e a potência visual de Olhe Para Mim dão visibilidade ao amadurecimento do cinema alagoano. Embora este seja o primeiro longa de ficção gestado no estado a partir de uma política pública, há um vigoroso conjunto de realizadores que vêm conquistando espaço em festivais nacionais e internacionais com seus curtas, e uma nova safra de longas-metragens deve estrear nos próximos dois anos. Olhe Para Mim abre os caminhos para esse momento ímpar do cinema alagoano, transbordando do local para o mundo, à imagem e semelhança da trajetória libertária e irreverente de seus protagonistas.

“Reparação”, de Marcus Curvelo,
Por fim, o outro representante ficcional do Nordeste curiosamente também se estrutura em torno de um road movie de personagens dissidentes, numa jornada de libertação e de autoconhecimento. Nesse filme, é ainda mais radical a quebra dos estereótipos geográficos do interior do Nordeste, agora no Ceará: vemos desde cenários rochosos (os famosos monolitos de Quixadá) até dunas, florestas e espaços verdes diversos. Fiz um foguete imaginando que você viria foi o grande vencedor da competição segundo o júri oficial, sendo o longa-metragem de estreia da cearense Janaína Marques. O filme encampa o protagonismo feminino em suas trajetórias de emancipação, com uma viagem entre mãe e filha, em performances tocantes de Luciana Souza e Veronica Cavalcanti, que começam assaltando uma loja e, ao fim, terminam “roubando a cena”. O filme possui uma opção curiosa, e rara no cenário do cinema brasileiro, de apresentar esse drama pessoal por meio de uma narrativa de situações livres em torno de um eixo de comédia, com contextos não realistas, dialogando com o nonsense e o absurdo, como se o filme fosse uma espécie de screwball comedy indie rodada no sertão do Brasil, com um tom de um certo cinema independente narrativo americano aos moldes de filmes como Pequena Miss Sunshine (Jonathan Dayton e Valerie Faris), mas ao mesmo tempo profundamente brasileiro e sertanejo.

“Quase Inverno”, de Rodrigo Grota
Competitiva de curtas
Deve-se destacar que o júri oficial do festival concedeu os prêmios de melhor filme, tanto na categoria de longas quanto na de curtas-metragens, para produções cearenses, comprovando o vigor da cena local. O curta agraciado foi Pirexia, de Nico da Costa, que, ao lado de Marimbã Está Acontecendo, de Maryn Marynho, atesta a inventividade do cenário cinematográfico cearense. Ambos os títulos relacionam-se, direta ou indiretamente, ao ecossistema formativo da Vila das Artes, importante espaço em Fortaleza que serviu como semente para o Coletivo Alumbramento, entre outros movimentos e realizadores locais. As duas obras estruturam-se em torno de vivências dissidentes e de estéticas queer e trans, buscando não apenas conferir visibilidade a corpos historicamente subalternizados, mas, sobretudo, propor poéticas transgressoras e lúdicas para a incorporação do desejo e do onirismo dessas coletividades.
Marimbã reitera o excelente momento da animação autoral brasileira, universo complementado por outros dois curtas do gênero na seleção. O Sagrado Segredo, da realizadora sergipana Everlane Moraes, apresenta os mitos de fundação das identidades diaspóricas e mergulha no imaginário da ancestralidade africana, operando como uma espécie de prólogo para o seu primeiro longa-metragem, O Segredo de Sikán, atualmente em fase de finalização. Já o inventivo Duwid Tuminkiz – Makunaima É Duwid?, de Gustavo Caboco Wapichana, toma como ponto de partida uma instigante pesquisa histórica sobre o impacto que as culturas originárias, e especialmente a trajetória de Duwid Tuminkiz, exerceram sobre Oswald de Andrade na composição do personagem Macunaíma. Na direção da obra, o indígena Wapichana traduz essa fricção conceitual por meio de uma animação libertária, que aciona o traço e a cor como dispositivos para inscrever as cosmologias ameríndias na própria escritura fílmica.

“Marimbã Está Acontecendo”, de cearense Marly Marinho.
A seleção também acolheu trabalhos de cineastas que despontaram no cenário nacional em meados dos anos 2010 e que já possuem longas no currículo. É o caso de Cerimônia, realizado por três integrantes do coletivo pernambucano Surto&Deslumbramento: André Antônio, Chico Lacerda e Fábio Ramalho. O primeiro realizou os longas A seita (2015) e Salomé (2024). O grupo notabilizou-se no cinema contemporâneo justamente por articular uma abordagem singular da vertente queer, fundindo cultura pop, deboche, artifício e uma atmosfera que remete declaradamente ao dandismo. Algo muito próximo e ao mesmo tempo muito distante do contemporâneo (ou do fetiche do contemporaneísmo). Cerimônia prolonga essa pesquisa ao mostrar um encontro noturno entre amigos que vivem celebrando a fabulação de seus corpos e imaginários, numa espécie de refúgio libertário afetivo.
Já Disciplina, um dos maiores destaques dessa seleção, é dirigido por Affonso Uchoa, diretor de Arábia (com João Dumans) e A Vizinhança do Tigre, entre outras obras que o consolidaram como um dos mais importantes diretores da cena mineira. A obra dialoga estreitamente com seu médiametragem anterior, a obra-prima Sete Anos em Maio (2019). Essa interlocução ocorre não apenas pela opção pelo média-metragem (formato de difícil circulação em festivais brasileiros e praticamente totalmente excluído do circuito comercial), mas sobretudo pelo rigor estético calcado em tableaux epicizantes para filmar a juventude periférica. Ambos os filmes também possuem passagens que formulam uma espécie de jogo (ético e formal) para expor os dilemas da juventude. Disciplina se passa em uma escola, e por meio de uma combinação inusitada entre o formalismo rigoroso de um Pedro Costa e a alusão ao artifício estilizado da Filmes do Caixote, Uchoa dá prosseguimento a estratégias discursivas típicas de sua filmografia em como filmar as dores de uma juventude oprimida sem os jargões sociológicos do miserabilismo vitimizante mas propondo uma potência cinematográfica desses corpos não apenas sobreviventes e dissidentes mas sobretudo insurgentes – e por meio de uma estética igualmente insurgente.

“Cerimônia”, dos pernambucanos André Antônio, Chico Lacerda e Fábio Ramalho
Em outro registro, Pinguim de Doce de Leite, dirigido por Ana Vitória Miotto Tahan – realizadora que se formou em Cinema no Paraná e retornou a Goiás, onde foi filmado este projeto -, debruça-se sobre a amizade entre Caju, uma carismática personagem mirim (vivida com brilhantismo por Tayna Mendes), e seu tio, que desperta na menina uma relação de encanto e fabulação. Trata-se de uma ficção de contorno narrativo estruturada de forma porosa e aberta, atenta à temporalidade e aos corpos de sua dupla de intérpretes em atuações genuinamente envolventes. A maneira livre com que a câmera observa as situações do cotidiano e os pequenos gestos de seus sujeitos ao mesmo tempo únicos e comuns, esquivando-se de rótulos ou classificações reducionistas, constitui o maior mérito dessa singela obra goiana.
Por fim, Um Filme para Lembrar da Utopia, de Reinaldo Cardenuto, toma como ponto de partida o material cinematográfico sobrevivente de Esdras Baptista, restaurado pelo LUPA (Laboratório Universitário de Preservação Audiovisual da Universidade Federal Fluminense – UFF), para compor um amplo e complexo painel político do Brasil nos anos 1970. A obra debruça-se sobre os registros audiovisuais realizados por Esdras, que atuou como jornalista, cinegrafista e repórter cinematográfico, transformando esses fragmentos de memória em um ensaio histórico contundente. Por meio de uma montagem arqueológica e reflexiva, Cardenuto não apenas resgata a visualidade da contracultura e do ativismo de esquerda daquela década, mas também interroga o próprio estatuto do arquivo cinematográfico como ferramenta de disputa política e sobrevivência utópica face aos traumas do período. Trata-se de um excelente complemento para exibições casadas com Anistia 79, de Anita Leandro. Ademais, é formidável testemunhar um projeto que funde a realização e a pesquisa, gestado dentro das estruturas institucionais de uma universidade pública de cinema, sendo Cardenuto professor da graduação e da pós-graduação da instituição.
Esse conjunto amplo de filmes, entre os curtas e longas da competitiva nacional, ofereceu ao público um panorama bastante abrangente de tendências, desafios e possibilidades éticas, estéticas e políticas para o cinema brasileiro contemporâneo.















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